O livro Mulheres que Correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estés, trata da essência da alma feminina: a Mulher Selvagem.
Através de 19 contos arquetípicos, temos a oportunidade de mergulhar no terreno psíquico para resgatar a raiz instintiva mais profunda da mulher.
Lobas que Correm é um blog que funciona como um fórum, tendo como objetivo discutir esta fantástica obra de Clarissa.

11 - As Deusas Sujas

CAPÍTULO 11
O cio: A recuperação de uma sexualidade sagrada
As deusas sujas



Há um ser que vive no subterrâneo selvagem das naturezas das mulheres. Essa criatura faz parte da nossa natureza sensorial e, como qualquer animal completo, possui seus próprios ciclos naturais e nutritivos. Esse ser é curioso, gregário, transbordante de energia em certas horas, submisso em outras. Ele é sensível a estímulos que envolvam os sentidos: a música, o movimento, o alimento, a bebida, a paz, o silêncio, a beleza, a escuridão.

É esse aspecto da mulher que tem cio. Não um cio voltado exclusivamente para a relação sexual, mas uma espécie de fogo interior cuja chama cresce e depois abaixa, em ciclos. A partir da energia liberada nesse nível, a mulher age como lhe convém. O cio da mulher não é um estado de excitação sexual, mas um estado de intensa consciência sensorial que inclui sua sexualidade, sem se limitar a ela.

Seguem-se três histórias que encarnam o obsceno nos termos em que estamos usando a palavra, ou seja, uma espécie de encanto sexual/sensual que gera emoções agradáveis. As três tratam das deusas sujas. Chamo-as de sujas porque estiveram muito tempo vagueando debaixo da terra. No sentido positivo, elas pertencem à terra fértil, à lama, ao estrume — à substância criadora da qual se origina toda arte. Na realidade, as deusas sujas representam aquele aspecto da Mulher Selvagem que é tanto sexual quanto sagrado.

Baubo: a deusa do ventre

Há uma expressão muito forte que diz: Dice entre las piernas, "ela fala do meio das pernas". Essas pequenas histórias "do meio das pernas" são encontradas em todo o mundo. Uma delas é a história de Baubo, uma deusa da Grécia antiga, a chamada "deusa da obscenidade". Ela tem nomes mais antigos, como por exemplo Iambe, e aparentemente os gregos a adotaram de culturas muito mais antigas.

Ela é uma das divindades mais adoráveis e picarescas que habitaram o Olimpo. Esta é a minha versão da cantadora, baseada num resquício selvático de Baubo que ainda cintila na mitologia grega pós-matriarcal e nos hinos homéricos.

Deméter, a mãe-terra, tinha uma linda filha chamada Perséfone, que estava um dia brincando ao ar livre. Perséfone encontrou por acaso uma flor de rara beleza e estendeu os dedos para tocar seu lindo cálice. De repente, a terra começou a tremer e uma gigantesca fenda se abriu em ziguezague. Das profundezas da terra chegou Hades, o deus dos Infernos. Ele chegou alto e majestoso numa biga negra puxada por quatro cavalos da cor de fantasmas.

Hades apanhou Perséfone, levando-a para sua biga, em meio a uma confusão de véus e sandálias. Ele guiou então seus cavalos cada vez mais para dentro da terra. Os gritos de Perséfone foram ficando cada vez mais fracos à medida que a fenda foi se fechando como se nada tivesse acontecido. Por toda a terra, abateu-se um silêncio e o perfume de flores esmagadas.

E a voz da donzela a gritar ecoou nas pedras das montanhas e borbulhou num lamento vindo do fundo do mar. Deméter ouviu os gritos das pedras. Ela ouviu, também, o choro das águas. Arrancou, então, a grinalda dos seus cabelos imortais, deixou cair de cada ombro seus véus escuros e saiu a sobrevoar a terra como uma ave enorme, procurando, chamando por sua filha.

Naquela noite, uma velha à frente de uma gruta comentou com suas irmãs que havia ouvido três gritos naquele dia. Um, o de uma voz jovem que gritava de pavor; um outro que implorava ajuda; e um terceiro, o de uma mãe que chorava. Não se via Perséfone em parte alguma. E assim começou a procura longa e enlouquecida de Deméter por sua filha querida. Deméter esbravejava, chorava, gritava, fazia perguntas, procurava debaixo, dentro e em cima de todos os acidentes geográficos, implorava por misericórdia, implorava pela morte, mas não conseguia encontrar sua filha amada. Assim, ela, que havia gerado o crescimento perpétuo de tudo, amaldiçoou todos os campos férteis do mundo, gritando na sua dor.

— Morram! Morram! Morram!

Em decorrência da maldição de Deméter, nenhuma criança poderia nascer, nenhum trigo poderia crescer para se fazer pão, nenhuma flor para as festas, nenhum ramo para os mortos. Tudo ficou murcho e esgotado na terra crestada e nos seios secos. A própria Deméter não mais se banhava. Seus mantos estavam encharcados de lama; seus cabelos pendiam em cachos imundos. Muito embora a dor no seu coração fosse tremenda, ela não se entregava. Depois de muita investigação, de muitos pedidos e de muitos incidentes, tudo levando a nada, ela afinal perdeu as forças ao lado de um poço numa aldeia onde não era conhecida. E quando recostou seu corpo dolorido na pedra fresca do poço, chegou por ali uma mulher, ou melhor, uma espécie de mulher. E essa mulher chegou dançando até Deméter, balançando os quadris de um jeito que sugeria a relação sexual, e balançando os seios nessa sua pequena dança. E, quando Deméter a viu, não pôde deixar de sorrir um pouco.

A fêmea que dançava era realmente mágica, pois não tinha nenhum tipo de cabeça, seus mamilos eram seus olhos e sua vulva era sua boca. Foi com essa boquinha que ela começou a regalar Deméter com algumas piadas picantes e
engraçadas. Deméter começou a sorrir, depois deu um risinho abafado e em seguida uma boa gargalhada. Juntas, as duas mulheres riram, a pequena deusa do ventre, Baubo, e a poderosa deusa mãe da terra, Deméter.

E foi exatamente esse riso que tirou Deméter da sua depressão e lhe deu energia para prosseguir na sua busca pela filha, que acabou em sucesso, com a ajuda de Baubo, da velha Hécate, e do sol Hélios. Restituíram Perséfone à sua mãe. O mundo, a terra e o ventre das mulheres voltaram a vicejar.

================================================
Sempre gostei mais dessa pequena Baubo do que de outras deusas na mitologia grega, talvez mais do que de qualquer outra figura, ponto final. Ela sem dúvida tem como origem as deusas do ventre do período neolítico, que são misteriosas figuras sem cabeça e às vezes sem pés e sem braços. É insignificante chamá-las de figuras de fertilidade, porque elas são muito mais do que isso. Elas são talismãs da conversa da mulher — vocês sabem, aquele tipo de conversa que as mulheres nunca, nunca mesmo, teriam na frente de um homem, a não ser que fosse sob circunstâncias raras. Esse tipo de conversa.

Além do mais, a pequena deusa Baubo nos dá a idéia interessante de que um pouco de obscenidade pode ajudar a desfazer uma depressão. E é verdade que certos tipos de riso, que provêm de todas as histórias que as mulheres contam umas para as outras, histórias que são tão apimentadas ao ponto de serem de total mau gosto... essas histórias ativam a libido. Elas acendem o fogo do interesse da mulher pela vida.

E quanto a "falar com a vulva", trata-se simbolicamente de falar a partir da primae materia, o nível mais básico e honesto da verdade — a boca vital. O que mais haveria a dizer além de que Baubo fala do filão mestre, da mina profunda, literalmente das profundezas. Na história em que Deméter procura sua filha, ninguém sabe que palavras Baubo teria realmente dito a Deméter. Mas podemos ter algumas idéias.

Coyote Dick*

* Dick é a forma hipocoristica de Richard, mas é também um termo vulgar para designar o pênis. (N. da T.)

Era uma vez Coyote Dick, e ele era tanto a criatura mais esperta quanto a mais tonta que jamais se podia esperar encontrar. Ele estava sempre querendo comer alguma coisa, sempre trapaceando as pessoas para conseguir o que queria e, em qualquer outra hora, estava dormindo.

Bem, um dia quando Coyote Dick estava dormindo, seu pênis ficou realmente entediado e resolveu abandonar Coyote para viver sozinho uma aventura. Foi assim que o pênis se soltou de Coyote Dick e saiu correndo pela estrada. Na realidade, ele pulava pela estrada afora já que possuía só uma perna.

E ele foi pulando e pulando, e se divertindo até que saltou da estrada e entrou na floresta, onde — Ah, não! — ele pulou direto numa moita de urtigas.

— Ai! — gritou ele. — Ai, ai, ai! — berrou ele. — Socorro! Socorro!

O barulho dessa gritaria toda acordou Coyote Dick e, quando ele estendeu a mão para dar partida no coração com a manivela, como de costume, viu que ela não estava mais lá. Coyote Dick saiu correndo pela estrada, segurando-se no meio das pernas, e afinal encontrou seu pênis passando pela maior dificuldade que se pudesse imaginar. Com grande delicadeza, Coyote Dick tirou seu pênis aventureiro do meio das urtigas, acarinhou-o, tranqüilizou-o e o devolveu ao seu lugar certo.

“A moral é que, mesmo depois de Coyote Dick sair do meio das urtigas, elas fizeram seu pau coçar feito louco para todo o sempre. E é por isso que os homens estão sempre chegando perto das mulheres e querendo se esfregar nelas com aquele olhar de "Estou com uma coceira". Pois é, aquele pau universal está coçando desde a primeira vez que fugiu do dono.”

====================================
É esse o tipo de história que eu realmente acho que Baubo contou. Seu repertório inclui qualquer coisa que faça as mulheres rirem desenfreadas, sem ligar para as amídalas aparecerem, com a barriga solta, com os selos balançando.

No sagrado, no obsceno, no sexual, há sempre uma risada selvagem à espera, um curto período de riso silencioso, a gargalhada de velha obscena, o chiado que é um riso, a risada que é selvagem e animalesca ou o trinado que é como uma volata. O riso é um lado oculto da sexualidade feminina: ele é físico, essencial, arrebatado, revitalizante e, portanto, excitante. É um tipo de sexualidade que não tem objetivo, como a excitação genital. É uma sexualidade da alegria, só pelo momento, um verdadeiro amor sensual que voa solto e que vive, morre e volta a viver da sua própria energia. Ele é sagrado por ser tão medicinal. É sensual por despertar o corpo e as emoções. Ele é sexual por ser excitante e gerar ondas de prazer. Ele não é unidimensional, pois o riso é algo que compartilhamos com nosso próprio self bem como com muitos outros. É a sexualidade mais selvagem da mulher.

Segue-se mais um exemplo de histórias de mulheres e de deusas sujas. Essa história conheci quando criança. É surpreendente o que as crianças ouvem que os adultos acham que elas não ouvem.

Uma viagem a Ruanda

O general Eisenhower ia visitar suas tropas em Ruanda. O governador queria que todas as mulheres nativas se postassem ao longo da estrada de terra para dar vivas e acenar em boas-vindas a Eisenhower quando ele passasse no seu jipe. O único problema era que as mulheres nativas nunca usavam roupa a não ser um colar de contas e às vezes um minúsculo cinto de correia.

Não, não, isso não seria conveniente. Portanto, o governador chamou o chefe da tribo e lhe falou do seu problema.

— Não se preocupe — disse o chefe. Se o governador conseguisse algumas dúzias de saias e blusas, ele se certificaria de que as mulheres se apresentariam vestidas nesse acontecimento especial. E esses trajes o governador e os missionários da região conseguiram obter.

No entanto, no dia do desfile e apenas poucos minutos antes de Eisenhower descer pela longa estrada no seu jipe, descobriu-se que apesar de todas as mulheres estarem usando obedientemente as saias, elas não haviam gostado das blusas e as haviam deixado em casa. Pois agora todas as mulheres; estavam enfileiradas dos dois lados da estrada, com saias, mas com o peito nu, e sem mais nenhuma roupa, nem mesmo roupa de baixo.

Ora, o governador ficou apoplético ao saber disso e convocou, irado, o chefe. Este lhe assegurou que sua mulher havia conversado com ele, garantindo-lhe que as mulheres haviam concordado com um plano para cobrir os seios quando o general estivesse passando.

— Você tem certeza? — berrou o governador.

— Tenho toda a certeza — respondeu o chefe. Bem, não havia muito tempo para discutir, e nós só podemos tentar adivinhar qual foi a reação do general Eisenhower quando seu jipe veio passando ruidoso e uma mulher de seios nus atrás da outra levantava graciosamente a frente da saia rodada e cobria o rosto com ela.

=================================================
Jung observou que, se alguém procura seu consultório queixando-se por um motivo sexual, o verdadeiro motivo muitas vezes era mais um problema do espírito e da alma. Quando uma pessoa relatava um problema de natureza espiritual, muitas vezes era na realidade um problema de ordem sexual.

Nesse sentido, a sexualidade pode ser imaginada como um bálsamo para o espírito, sendo, portanto, sagrada. Quando o riso sexual é medicinal, ele é um riso sagrado. E aquilo que provoca o riso medicinal é também sagrado. Quando o riso ajuda sem prejudicar, quando ele alivia, reorganiza, põe em ordem, reafirma a força e o poder, esse é o riso que gera a saúde. Quando o riso deixa as pessoas alegres por estarem vivas, felizes por estarem aqui, com maior consciência do amor, elevadas pelo eros, quando ele desfaz sua tristeza e as isola da raiva, ele é sagrado.  Quando elas se tornam maiores, melhores, mais generosas, mais sensíveis, ele é sagrado.

No arquétipo da Mulher Selvagem, há muito espaço para a natureza das deusas sujas. Na natureza selvagem, o sagrado e o irreverente, o sagrado e o sexual, não estão separados, mas vivem juntos como imagino um grupo de velhas esperando na estrada que nós apareçamos. Elas estão ali na sua psique, esperando que você apareça, experimentando suas histórias umas com as outras e rindo como loucas.

Os três cabelos de ouro

A renovação do fogo criativo

Imaginemos, portanto, agora que temos tudo reunido, que não temos a menor dúvida quanto ao nosso propósito, que não estamos nos afogando numa fantasia escapista, que estamos integradas e que nossa vida criativa prospera. Precisamos de mais uma qualidade. Precisamos saber o que fazer, não se perdermos nosso foco de atenção, mas quando o perdermos; ou seja, quando estivermos temporariamente desgastadas. O quê? Depois de todo esse esforço, ainda poderíamos perder nosso rumo? Poderíamos, sim, mas ele fica perdido apenas por um tempo limitado, pois é a ordem natural das coisas. Felizmente, os camponeses da Europa Oriental já resolveram tudo isso para nós. Eles têm um conto de fadas maravilhoso intitulado "Os três cabelos de ouro".

Esta é uma história que os contadores vêm transmitindo às pessoas há centenas, talvez milhares, de anos, pois ela representa um arquétipo. É essa a natureza dos arquétipos... eles deixam uma comprovação, eles se entretecem nas histórias, nos sonhos e nas idéias dos mortais. Ali eles se tornam um tema universal, um conjunto de instruções, residindo não se sabe onde, mas atravessando o tempo e o espaço para iluminar cada nova geração.

É uma história que trata da recuperação do rumo perdido. O rumo é composto de sentir, ouvir e seguir a orientação da voz da alma. Muitas mulheres conseguem ter uma perfeita noção de rumo mas, quando perdem contato com ela, ficam dispersas como um colchão de penas aberto que se espalhou por todo o campo.

É importante ter um repositório para tudo o que sentimos e ouvimos da natureza selvagem. Para algumas mulheres, é o seu diário, onde elas deixam registrada cada pena que passa voando; para outras, é sua arte criadora: elas dançam a natureza selvagem, elas a pintam, elas a transformam num enredo. Você se lembra da Baba Yaga? Ela tem um grande caldeirão. Ela viaja pelos céus num caldeirão que na realidade é um pilão com sua mão. Em outras palavras, ela tem um repositório no qual guarda as coisas. Ela tem um modo de pensar, um meio de se locomover de um local para outro que é contido. É, os repositórios são a solução para o problema de toda perda de energia, isso e mais alguma coisa. Vejamos...

Os três cabelos de ouro


Uma vez, numa noite escuríssima e trevosa, o tipo de noite em que a terra fica negra, as árvores parecem mãos retorcidas e o céu é de um azul-escuro de meia-noite, um velho vinha cambaleando pela floresta, meio às cegas devido aos galhos das árvores. Os ramos arranhavam seu rosto, e ele trazia um pequeno lampião numa das mãos. A vela dentro do lampião tinha uma chama cada vez mais baixa. O homem tinha os cabelos amarelos e compridos, dentes amarelos e rachados e unhas amarelas e recurvas. Ele andava todo dobrado, e suas costas eram arredondadas como um saco de farinha. Sua pele era tão vincada que caía em folhos do seu queixo, das axilas e dos quadris.

Ele se apoiava numa árvore e se forçava a avançar; depois se agarrava numa outra para avançar mais um pouco. E assim, remando desse jeito e respirando com dificuldade ele ia atravessando a floresta.

Cada osso nos seus pés ardia como fogo. As corujas nas árvores piavam acompanhando o gemido das suas articulações à medida que ele seguia pelas trevas. Muito ao longe, tremeluzia uma luzinha, um chalé, um fogo, um lar, um local de descanso; e ele se esforçava na direção daquela luz. No exato instante em que chegou à porta, ele estava tão cansado, tão exausto, que a pequena chama no seu lampião se apagou e o velho caiu porta adentro desmaiado.

Dentro da casa, uma velha estava sentada diante de uma bela fogueira e ela se apressou a chegar até ele, segurou-o nos braços e o levou mais para perto do fogo. Ela o abraçou como uma mãe abraça o filho. Ela se sentou na cadeira de balanço e o embalou. E ali ficaram os dois, o pobre e frágil velhinho, apenas um saco de ossos, e a velha forte que o embalava.

— Pronto, pronto. Calma, calma. Pronto, pronto. Ela o embalou a noite inteira e, quando ainda não havia amanhecido mas estava quase chegando a hora, ele estava extremamente renovado. Ele era agora um belo rapaz, de cabelos dourados e membros longos e fortes. Mas ela continuava a embalá-lo.

— Pronto, pronto. Calma, calma. Pronto, pronto. E quando a manhã foi se aproximando cada vez mais, o rapaz foi se transformando numa linda criancinha com cabelos dourados trançados como palha de milho.

No momento exato do raiar do dia, a velha arrancou bem rápido três fios da linda cabeça da criança e os jogou nos ladrilhos. Eles fizeram um barulhinho.

Tiiiiiing! Tiiiiiiing! Tiiiiiiiiing!

E a criancinha nos seus braços desceu do seu colo e saiu correndo para a porta. Voltando o rosto por um instante para a velha, o menino deu um sorriso deslumbrante, virou-se e saiu voando para o céu para se tornar o brilhante sol da manhã.
=======================

Tudo à noite é diferente. Por isso, para entender essa história precisamos mergulhar numa consciência noturna, um estado no qual percebemos com maior rapidez cada estalido ou ruído. É à noite que ficamos mais próximos de nós mesmos, mais próximos de idéias e sentimentos essenciais que não são tão registrados durante o dia.

A noite é o mundo de Mãe Nyx, a mulher que criou o mundo. Ela é a Velha Mãe dos Dias, uma das megeras da vida e da morte. Quando é noite num conto de fadas, sabemos que estamos no inconsciente. São João da Cruz chamou-a de "noite escura da alma''. Nessa história, ela é um período em que um homem muito velho vai enfraquecendo cada vez mais. É uma hora na qual estamos nas últimas, em algum sentido importante.

Perder o rumo significa perder a energia. A tentativa absolutamente equivocada quando perdemos o rumo é a de correr para arrumar tudo de novo. Correr não é o que devemos fazer. Como vemos na História, sentar e balançar é o que devemos fazer. A paciência, a paz e o balanço renovam as idéias. Só o ato de entreter uma idéia e a paciência para embalá-la são o que algumas mulheres poderiam chamar de grande prazer. A Mulher Selvagem o considera uma necessidade.

Isso é algo que os lobos conhecem inteiramente. Quando um intruso aparece, os lobos podem rosnar, latir ou até mesmo mordê-lo, mas eles também podem, a uma boa distância, recuar para o interior do grupo, sentando-se todos juntos como uma família faria. As costelas se enchem e se esvaziam, sobem e descem. Eles estão tomando rumo, estão se reposicionando, voltando ao centro de si mesmos e resolvendo o que é importante e o que fazer em seguida. Estão decidindo que “não vão fazer nada agora mesmo, que só vão ficar ali sentados, respirando, embalando-se juntos”.

Ora, muitas vezes quando as idéias não estão funcionando bem, ou quando nós não as estamos trabalhando bem, perdemos nosso rumo. Isso faz parte de um ciclo natural e ocorre porque a idéia ficou ultrapassada, ou porque nós perdemos a capacidade de vê-la por um ângulo novo. Nós mesmas ficamos velhas e desconjuntadas como o velho em "Três cabelos de ouro". Embora haja muitas teorias sobre "bloqueios" criativos, a verdade é que bloqueios brandos vêm e voltam como as condições atmosféricas e como as estações do ano — com as exceções dos bloqueios psicológicos de que falamos anteriormente, como não mergulhar na própria verdade, como o medo da rejeição, o medo de dizer o que se sabe, a preocupação com a própria competência, a poluição da correnteza básica, entre outros.

Essa história é tão admirável por delinear todo o ciclo de uma idéia, a ínfima luz que lhe é concedida, que é obviamente a própria idéia, o fato de ela se cansar e praticamente se extinguir, tudo como parte do seu ciclo natural. Nos contos de fadas, quando acontece algo de mau, isso significa que algo novo precisa ser tentado, uma nova energia precisa ser aplicada, uma força mágica, de cura e ajuda precisa ser consultada.

Aqui mais uma vez vemos a velha La Que Sabé, a mulher, de dois milhões de anos. Ela é "aquela que sabe". Ser mantido diante do seu fogo é algo revigorante, reparador. É para esse fogo e para os braços dela que o velho se arrasta, pois sem eles ele morreria.

O velho está cansado de passar tempo demais dedicado ao trabalho que lhe demos. Vocês alguma vez viram uma mulher trabalhar como se o diabo estivesse agarrado no seu dedão do pé, só para de repente entrar em colapso e não dar mais um passo sequer? Você alguma vez viu uma mulher totalmente dedicada a alguma questão social que um belo dia virou as costas e mandou tudo para o inferno? É que seu animus está esgotado. Ele precisa ser embalado por La Que Sabé. A mulher cujas idéias ou energias feneceram, murcharam ou cessaram completamente precisa saber o caminho até a velha curandera e precisa levar o animus exausto até lá para que ele se recupere.

No final, porém, a mulher precisa descansar agora, ser embalada, recuperar seu rumo. Ela precisa rejuvenescer, recuperar sua energia. Ela acha que não pode fazer isso, mas pode sim, pois o círculo de mulheres, sejam elas mães, alunas, artistas ou ativistas, sempre se dispõe a suprir a falta das que saem de licença. A mulher criativa precisa de descanso agora para voltar ao seu trabalho intenso mais tarde. Ela precisa ir visitar a velha na floresta, a revitalizadora, a Mulher Selvagem numa das suas muitas apresentações. A Mulher Selvagem já espera que o animus fique exausto com certa regularidade. Ela não se espanta quando ele lhe cai porta adentro. Ela está pronta. Ela não virá correndo até nós em pânico. Ela simplesmente nos apanha e nos segura até que recuperemos nossas forças.

Levar a cabo longas empreitadas, tais como diplomar-se, concluir um original, completar uma obra, cuidar de uma pessoa enferma, todas essas atividades apresentam momentos em que a energia que um dia foi jovem fica velha e cai prostrada sem conseguir ir adiante. Para as mulheres, é melhor que elas tenham conhecimento disso desde o início porque as mulheres costumam ser surpreendidas pela fadiga. É então que elas uivam, resmungam, sussurram, queixando-se do fracasso, da incompetência e coisas semelhantes. Não, não. Essa perda de energia é o que é. Ela faz parte da natureza.

A suposição da força eterna no masculino é equivocada. Trata-se de uma introjeção cultural que precisa ser desviada da psique. Esse engano faz com que tanto as energias masculinas no cenário interior quanto os homens de verdade na cultura se decepcionem. Todos por natureza precisam de uma trégua para recuperar as forças. O modus operandi da natureza da vida-morte-vida é cíclico e se aplica a todo mundo e a todas as coisas.

Na história, três fios de cabelo são jogados ao chão, como no ditado, "Jogue um pouco de ouro no chão". Esse ditado provém de desprender las palabras, que na tradição dos contadores de histórias, dos cuentistas, significa jogar fora algumas das palavras da história para torná-la mais forte.

O cabelo simboliza o pensamento, aquilo que emana da cabeça. Jogar cabelo no chão ou fora torna o menino de certo modo mais leve, faz com que ele brilhe ainda mais. Da mesma maneira, sua idéia ou iniciativa desgastada pode brilhar ainda mais se você tirar um pouco dela para jogar fora. É a mesma idéia de um escultor removendo mais mármore a fim de revelar mais a forma oculta. Um meio poderoso de renovar ou reforçar nossa intenção ou nossa ação que ficou extenuada consiste em jogar algumas idéias fora e concentrar nossa atenção.

Arranque três fios de cabelo da sua iniciativa, jogando-os os ao chão. Eles se transformarão num alarme de despertador. Jogá-los ao chão gera um ruído psíquico, um repique, uma ressonância no espírito da mulher que faz com que a atividade retome. O som da queda de algumas das nossas muitas idéias se transforma numa espécie de proclamação de uma nova era ou de uma nova oportunidade.

Na realidade, a velha La Que Sabé está podando ligeiramente o lado masculino. Sabemos que o corte dos galhos secos ajuda a árvore a crescer com mais força. Sabemos também que a eliminação das flores de certas plantas faz com que elas fiquem mais vigorosas, mais exuberantes. Para a mulher selvagem, o ciclo de desenvolvimento e redução do animus é natural. Trata-se de um processo arcaico, antiqüíssimo. Desde tempos imemoráveis, é assim que as mulheres abordam o mundo das idéias e suas manifestações objetivas. É assim que as mulheres agem. A velha no conto de fadas dos três cabelos de ouro nos ensina, na verdade volta a nos ensinar, como é que se faz.

Portanto, qual é o objetivo desse resgate e dessa concentração, desse chamado ao falcão para que volte, dessa corrida com os lobos? É procurar a jugular, chegar direto ao miolo e aos ossos de tudo que existe na sua vida, porque é ali que está o seu prazer, é ali que está a sua alegria, é ali que está o Éden da mulher, aquele local onde há tempo e liberdade de ser, de perambular, de se maravilhar, de escrever, cantar e criar sem medo. Quando os lobos pressentem prazer ou perigo, a princípio eles ficam totalmente imóveis. Ficam parados como estátuas, em total concentração para poderem ver, ouvir, perceber o que exatamente está ali, perceber o que está ali na sua forma mais essencial.

É isso o que a Mulher Selvagem nos oferece: a capacidade de ver o que está diante de nós com a concentração de atenção, com a imobilidade para ver, ouvir, sentir com o tato, com o olfato, com o gosto. A concentração é o uso de todos os nossos sentidos, incluindo-se a intuição. É desse mundo que as mulheres vêm resgatar suas próprias vozes, seus próprios valores, sua imaginação, sua clarividência, suas histórias e suas antigas recordações. São esses os resultados do trabalho da concentração e da criação. Se você perdeu o rumo para se concentrar, sente-se e fique imóvel. Segure a idéia e a embale. Mantenha uma parte dela, jogue outra parte fora, e ela se renovará. Não é preciso fazer mais nada.

A menininha dos fósforos

A concentração e o moinho da fantasia

Na América do Norte, o conto intitulado "A menininha dos fósforos" é mais conhecido na versão de Hans Christian Andersen. Ele descreve as conseqüências da falta de alimento e da falta de concentração. Trata-se de uma história muito antiga, contada pelo mundo afora, em versões diferentes. Às vezes ela fala de um carvoeiro que usa seus últimos carvões para se aquecer enquanto sonha com tempos passados.

A primeira vez que ouvi essa versão de '’A menininha dos fósforos" foi da minha tia Katerina, que veio para os Estados Unidos depois da Segunda Guerra Mundial. Durante a guerra, sua humilde aldeia de lavradores da Hungria havia sido dominada e ocupada por três nações hostis. Ela sempre começava a história dizendo que sonhos agradáveis sob circunstâncias difíceis não fazem bem; que nos tempos árduos precisamos ter sonhos fortes, reais, sonhos que possam se realizar se trabalharmos com afinco e bebermos nosso leite à saúde da Virgem.

A menininha dos fósforos

Chegou o vento, e ficou muito frio. Ela não tinha sapatos, e seu casaco era tão fino que chegava a ser transparente. Seus pés há muito haviam passado do ponto de estar azuis de frio. Seus dedos dos pés estavam brancos, assim como os dedos das mãos e a ponta do nariz. Ela perambulava pelas ruas, implorando a desconhecidos que comprassem fósforos dela. Mas ninguém parava e ninguém prestava a mínima atenção a ela. Por isso, uma noite ela se sentou dizendo para si mesma que tinha fósforos e que podia acender uma fogueira para se aquecer. Só que ela não tinha nem gravetos nem lenha. Resolveu acender os fósforos assim mesmo.

Ela se sentou com as pernas esticadas para a frente e acendeu o primeiro fósforo. Ao fazê-lo, pareceu-lhe que o frio e a neve desapareciam por completo. O que ela viu no lugar da neve rodopiante foi uma sala, uma linda sala com um enorme fogão de cerâmica verde-escuro, com uma porta de ferro trabalhado em arabescos.

Tanto calor emanava do fogão que o ar chegava a ondular. Ela se aconchegou junto a ele e se sentiu no paraíso. De repente, porém, o fogão se apagou, e ela estava mais uma vez sentada na neve, tremendo tanto que os ossos do seu rosto retiniam. E assim ela acendeu o segundo fósforo. A luz iluminou a parede do edifício ao lado de onde ela estava sentada, e ela subitamente pôde ver através da parede. Na sala por trás da parede, havia uma toalha alvíssima sobre a mesa, e ali na mesa havia porcelana do branco mais branco. Numa travessa, um ganso, que acabava de ser preparado. E, exatamente quando ela esticou a mão para alcançar o banquete, a miragem desapareceu.

Ela estava novamente na neve, mas agora seus joelhos e quadris não doíam mais. Agora o frio abria caminho pelo seu torso e pêlos braços com formigamentos e ardências, e por isso ela acendeu o terceiro fósforo. E na chama do terceiro fósforo havia uma linda árvore de Natal, com uma belíssima decoração de velas brancas, babados de renda e maravilhosos enfeites de vidro, além de milhares e milhares de pequenos pontos de luz que ela não conseguia discernir direito.

Ela olhou para o alto dessa árvore enorme que crescia cada vez mais e avançava cada vez mais na direção do teto até que se transformou nas estrelas do céu lá em cima. Uma estrela atravessou brilhante o céu, e ela se lembrou de suai mãe lhe ter dito que, quando morre uma alma, uma estrelai cai.

E do nada surgiu sua avó, tão carinhosa e delicada, e ai menina se sentiu feliz ao vê-la. A avó levantou o avental, envolveu nele a criança, abraçou-a bem apertado, e a menina sei sentiu contente. Mas a avó também começou a desaparecer. A menina acendia cada vez mais fósforos para manter a avó consigo... cada vez mais fósforos para mantê-la consigo... cada vez mais... e elas começaram a subir juntas para o céu, onde não havia nem frio, nem fome, nem dor. E pela manhã, entre as casas, encontraram a menina imóvel e morta.
============================

Afugentando a fantasia criativa
Essa criança está num ambiente em que as pessoas não se importam com ela. Se você está num ambiente desses, saia daí. Essa criança está num meio no qual o que ela tem, foguinhos em palitos — o início de toda possibilidade criativa — não é valorizado. Se você estiver numa aflição semelhante, vire as costas e vá embora. Essa criança está numa situação psíquica na qual há poucas opções. Ela se resignou ao seu "lugar" na vida. Se isso aconteceu com você, pare de se resignar e saia.

O que a menina dos fósforos deve fazer? Se os seus instintos estivessem intactos, suas opções seriam inúmeras. Caminhe até uma outra cidade, esconda-se numa carroça, abrigue-se num depósito de carvão. A Mulher Selvagem saberia o que fazer em seguida, mas a menina dos fósforos não conhece mais a Mulher Selvagem. A pequena criança selvagem está morrendo de frio; tudo o que resta dela é uma pessoa que se movimenta como se em transe.

Estar com pessoas reais que nos aqueçam, que apóiem e elogiem nossa criatividade, é essencial para a corrente da vida criativa. Do contrário, acabamos congeladas. O ambiente propício é um coro de vozes tanto interiores quanto exteriores que observa o estado do ser da mulher, tem o cuidado de incentivá-lo e, se necessário, também a conforta. Não tenho certeza do número de amigos de que precisamos, mas decididamente um ou dois que considerem o seu talento, qualquer que ele seja, pan de cielo, o pão dos céus. Toda mulher tem direito a um coro de elogios.

Quando as mulheres estão ao relento, no frio, elas costumam viver de fantasias em vez de ação. Fantasias desse tipo são o grande anestésico. Conheço mulheres dotadas de vozes maravilhosas. Conheço mulheres contadoras inatas de histórias. Quase tudo que lhes sai da boca é de improviso e bem elaborado. No entanto, elas se sentem isoladas ou de algum modo destituídas dos seus direitos. Elas são tímidas, o que muitas vezes é um disfarce para um animus esfaimado. Elas têm dificuldade para perceber que recebem apoio de dentro, de amigos, da família ou da comunidade.

Para evitar o destino da menininha dos fósforos, há um importante passo que você deve dar. Qualquer um que não apóie sua arte, sua vida, não é digno do seu tempo. É duro mas é verdade. Se não pensarmos assim, adotamos direto os trapos da menina dos fósforos e somos forçadas a viver uma fração de vida que mata pelo frio todo pensamento, toda esperança, talentos, escritos, alegrias, projetos e danças.

O calor deveria ser o principal alvo da menininha dos fósforos. Na história, porém, ele não é. Pelo contrário, ela tenta vender os fósforos, suas fontes de calor. Essa atitude não deixa o feminino nem um pouco mais quente, rico ou sábio, e impede seu desenvolvimento futuro.

O calor é um mistério. Ele de certo modo nos cura e nos gera. Ele é quem solta o que está preso demais, propicia o movimento livre, o misterioso impulso de ser, o primeiro vôo das idéias novas. Não importa o que o calor seja, ele aproxima as pessoas cada vez mais.

A menina dos fósforos não está num ambiente em que possa se desenvolver. Não há calor, não há gravetos, não há lenha. Se estivéssemos no seu lugar, o que poderíamos fazer? Para começar, poderíamos não acalentar a terra de fantasia que a menina cria ao acender os fósforos.

Existem três tipos de fantasias. O primeiro é a fantasia do prazer: uma espécie de sorvete mental, exclusivamente destinada à fruição, como quando sonhamos de olhos abertos. O segundo tipo de fantasia é a formação intencional de imagens. Essa fantasia é como uma sensação de planejamento. Ela é usada como veículo para nos levar a agir. Todos os sucessos — psicológicos, espirituais, financeiros e criativos — começam com fantasias dessa natureza. E existe ainda o terceiro tipo, aquela fantasia que paralisa tudo. É o tipo de fantasia que impede a ação adequada nos momentos críticos.

Infelizmente, é essa a fantasia criada pela menina dos fósforos. É uma fantasia que não tem nada a ver com a realidade. Ela está relacionada, sim, à sensação de que não há nada a ser feito mesmo e que não faz diferença se mergulhamos numa fantasia vã. Às vezes, essa fantasia está na mente da mulher. Às vezes, ela lhe chega numa garrafa de bebida, numa seringa, ou na falta dessas coisas. Às vezes, a fumaça de um alucinógeno é o meio de transporte; ou ainda muitos quartos descartáveis, mobiliados com uma cama e um desconhecido. As mulheres nessas situações estão representando a menininha dos fósforos em cada noite de fantasias e de mais fantasias, acordando congeladas e inertes a cada amanhecer. Existem muitas formas de perder o rumo, de perder nosso foco de atenção.

E o que poderá reverter essa situação e restaurar a auto-estima e o amor próprio? Temos de descobrir algo muito diferente do que o que a menina dos fósforos tinha. Precisamos levar nossas idéias para um lugar onde elas encontrem apoio. Esse é um passo enorme concomitante com a volta ao foco de atenção: encontrar um lugar propício. Pouquíssimas mulheres têm condição de criar apenas com o próprio gás.

Precisamos de todos os estímulos que pudermos encontrar. A maior parte do tempo as pessoas têm idéias fantásticas. Vou pintar aquela parede de uma cor que eu aprecie; vou bolar um projeto com o qual toda a cidade se envolva; vou fazer uns azulejos para meu banheiro e, se eu realmente gostar deles, vou vender alguns; vou voltar a estudar; vou vender a casa para viajar, vou ter um filho, deixar isso e começar aquilo, seguir o meu caminho, me organizar, ajudar a corrigir essa ou aquela injustiça, proteger os desassistidos.

Esses tipos de projeto precisam ser acalentados e alimentados. Eles precisam de apoio vital — de pessoas carinhosas. A menininha dos fósforos está aos frangalhos. Como diz a velha canção folclórica, esteve por baixo tanto tempo que até lhe parece que está por cima. Nada pode vicejar nesse nível. Queremos nos colocar em situações nas quais, como as plantas e as árvores, possamos nos voltar para o sol.

Mas é preciso que haja um sol. Para conseguir isso temos de nos mexer, não simplesmente ficar ali sentadas. Temos de fazer alguma coisa para tornar diferente nossa situação. Se não nos mexermos, estaremos de volta às ruas vendendo fósforos.

Amigos que a amem e que tenham carinho pela sua vida criativa são os melhores sóis do mundo. Quando uma mulher, como a menininha dos fósforos, não tem nenhum amigo, ela também se sente congelada de angústia bem como, às vezes, de raiva. Mesmo que se tenha amigos, eles podem não ser sóis. Eles podem confortá-la em vez de mantê-la informada das suas circunstâncias cada vez mais gélidas. Eles a consolam — mas isso é muito diferente do cuidado e carinho. O cuidado e o carinho levam a mulher de um lugar para outro. Eles são como cereais matinais psíquicos.

A diferença entre o consolo e o cuidado e carinho é a seguinte: se você tem uma planta que está doente porque vocês a mantém num armário escuro e você lhe diz palavras tranqüilizadoras, isso é consolo. Se você tira a planta do armário e a põe ao sol, lhe dá algo para beber e depois conversa comi ela, isso é cuidado e carinho.

Uma mulher enregelada sem cuidado e sem carinho tem a propensão a se voltar para incessantes fantasias hipotéticas. No entanto, mesmo que ela esteja nessa condição de enregelamento, especialmente se ela estiver numa situação dessas, ela deve recusar a fantasia consoladora. É que esse tipo de fantasia nos deixará mortas sem a menor dúvida. Você sabe como essas fantasias letais se apresentam, "Um dia quem sabe...","Se ao menos eu tivesse...", "Ele vai mudar..." e "Se eu só aprender a meu controlar... quando eu realmente estiver pronta, quando eu tiver XYZ suficiente, quando as crianças crescerem, quando eu me sentir mais segura, quando eu encontrar outra pessoa e logo que eu...", e assim por diante.

A menininha dos fósforos tem uma avó interna que em vez de gritar com ela "Acorde! Levante-se! Não importa a que custo, descubra um lugar quente!", prefere levá-la para uma vida de fantasia, levá-la para o "céu". Mas o céu não vai ajudar a Mulher Selvagem, a criança selvagem acuada ou a menininha dos fósforos nessa situação. Essas fantasias consoladoras devem ser detonadas. Elas são distrações sedutoras e letais que nos afastam do trabalho verdadeiro.

Vemos a menina dos fósforos fazer uma espécie de permuta, um tipo de comércio maléfico, quando ela vende os fósforos, os únicos objetos que possui que poderiam aquecê-la. Quando as mulheres estão desconectadas do amor benéfico da mãe selvagem, elas estão vivendo com o equivalente a uma dieta de subsistência no mundo exterior. O ego mal consegue se manter vivo, recebendo o mínimo de alimento de fora e voltando a cada noite do ponto de onde começou, sem parar. Ali a menina adormece, exausta.

Ela não pode despertar para uma vida com um futuro porque sua desgraça é como um gancho no qual ela se pendura todos os dias. Nas iniciações, passar algum tempo sob condições difíceis faz parte de uma separação forçada da acomodação e do conforto. Como transição iniciática, esse período tem seu término, e a mulher "recém-preparada" começa uma vida criativa e espiritual revitalizada e esclarecida.

No entanto, poderia ser dito que as mulheres na situação da menininha dos fósforos foram envolvidas numa iniciação que deu errado. As condições hostis não servem para um aprofundamento, só para dizimar. É preciso que elas escolham um outro local, outro ambiente, com tipos diferentes de apoio e de orientação.

Seria possível dizer que a menina dos fósforos chegou muito perto e no entanto ficou longe demais do estágio transicional de movimento e de ação que teria completado sua iniciação. Embora ela possua os meios para uma experiência iniciática na sua vida miserável, não há ninguém nem dentro nem fora dela que oriente seu processo psíquico.

Em termos psíquicos, no sentido mais negativo possível, o inverno traz o beijo da morte — ou seja, uma frieza — a tudo o que toca. A frieza representa o fim de um relacionamento. Se você quiser matar alguma coisa, basta agir com frieza. Assim que vemos congelados nosso sentimento, nosso pensamento ou nossa atividade, o relacionamento não é mais possível. Quando os seres humanos querem abandonar alguma coisa dentro de si mesmos ou pretendem dar um "gelo" em alguém, eles os ignoram, deixam de convidá-los, isolam-nos, fazem o maior esforço para não ter nem mesmo de ouvir sua voz ou pôr os olhos sobre eles. É essa a situação na psique da menina dos fósforos.

A menina dos fósforos perambula pelas ruas e implora a desconhecidos que comprem fósforos dela. Essa cena mostra um dos aspectos mais desconcertantes quanto ao instinto ferido das mulheres, a entrega da luz por um preço baixo. As pequenas luzes nos palitos são semelhantes às luzes maiores às caveiras nas pontas das varas, na história de Vasalisa. Elas representam a sabedoria mas, o que é mais importante, elas acionam a conscientização, substituindo o escuro pela luz, recendendo o que acabou se apagando. O fogo é o principal símbolo da revivificação na psique.

Temos aqui a menina dos fósforos em extrema necessidade de, mendigando, oferecendo na realidade algo de valor muito maior — uma luz — do que o valor recebido em troca — um pêni. Quer esse "grande valor dado em troca de um valor menor" esteja dentro da nossa psique, quer ele seja vivenciado por nós no mundo objetivo, o resultado é o mesmo: maior perda de energia. Nessas circunstâncias, a mulher não consegue suprir suas próprias necessidades. Algo que quer viver implora pela vida, mas não obtém resposta. Temos, aqui, alguém que como Sofia, o espírito grego da sabedoria, tira a luz das profundezas, mas a revende em espasmos de fantasia inútil. Maus amantes, patrões execráveis, situações de exploração, complexos ardilosos de todos os tipos atraem a mulher para essas escolhas.

Quando a menina dos fósforos resolve acender os fósforos, ela está usando seus recursos para fantasiar em vez de usá-los para agir. Ela queima sua energia de um modo quase que instantâneo. Isso aparece com evidência na vida da mulher. Ela está determinada a entrar para a faculdade, mas demora três anos para decidir qual prefere. Ela vai fazer aquela série de quadros mas, como não tem um lugar em que possa exibir o conjunto, não dá prioridade à pintura. Ela quer fazer isso ou aquilo, mas não reserva tempo para aprender, para desenvolver bem sua sensibilidade ou sua técnica. Ela tem dez cadernos cheios de sonhos, mas fica enredada no seu fascínio pela interpretação e não consegue pôr em ação seu significado. Ela sabe que deve sair, começar, parar, avançar, mas não faz nada disso.

E assim compreendemos seus motivos. Quando a mulher tem seus sentimentos congelados, quando ela não consegue mais se sentir, quando seu sangue, sua paixão, não mais atingem as extremidades da sua psique, quando ela está desesperada; em todos esses casos, uma vida de fantasia é muito mais agradável do que qualquer outra coisa ao alcance dos seus olhos. A pequena chama dos seus fósforos, por não ter nenhuma lenha a queimar, acaba queimando sua psique com se ela fosse uma grande acha seca. A psique começa a se iludir. Ela agora vive no fogo de fantasia da satisfação de todos os anseios. Esse tipo de fantasia é como uma mentira. Se você a repetir com bastante freqüência, começará a acreditar nela.

Esse tipo de angústia de conversão, na qual os problemas ou questões são minimizados com a entusiástica fantasia de soluções irrealizáveis ou de tempos melhores, não ataca apenas as mulheres; ele é o maior obstáculo enfrentado pela humanidade. O fogão na fantasia da menina dos fósforos representa pensamentos calorosos. Ele é também um símbolo do centro, do coração, da lareira. Ele nos diz que sua fantasia está à procura do self verdadeiro, do coração da psique, do calor de um lar interno.

De repente, porém, o fogão se apaga. A menina dos fósforos, como todas as mulheres nesse tipo de aflição psíquica, descobre que está novamente sentada na neve. Vemos aqui que esse tipo de fantasia é momentâneo e destrutivo. Ele não tem nada a queimar, a não ser nossa energia. Muito embora a mulher possa usar suas fantasias para se manter aquecida, ela mesmo assim acaba num frio profundo.

A menina dos fósforos acende outros palitos. Cada fantasia se extingue, e a criança volta a congelar na neve. Quando a psique está gelada, a pessoa se volta para si mesma e para ninguém mais. Ela risca um terceiro fósforo. Ele é o número três dos contos de fadas, o número mágico, o ponto no qual algo de novo pode acontecer. Nesse caso, porém, como a fantasia supera a ação, nada de novo ocorre.

É irônico que haja uma árvore de Natal na história. A árvore de Natal evoluiu de um símbolo pré-cristão da vida eterna — a árvore que mantinha suas folhas verdes mesmo no inverno. Seria possível dizer que isso era o que poderia salvá-la, a idéia da psique da alma sempre verde, sempre crescendo, sempre em movimento. Mas o quarto não tem teto. A idéia da vida não pode ser contida na psique. A ilusão assumiu o comando.

A avó é tão carinhosa, tão dedicada, e no entanto ela é a morfina final, o último trago de cicuta. Ela atrai a criança para o sono da morte. Em seu sentido mais negativo, esse é o sono da acomodação, o sono do entorpecimento — "Tudo bem, dá para eu agüentar"; o sono da negação — "Basta que eu olhe para o outro lado". Esse é o sono da fantasia maligna, no qual esperamos que todo sofrimento físico desapareça como que por mágica.

Trata-se de um fato psíquico que, quando a libido ou a energia definha ao ponto de não mais se ver a respiração no espelho, a natureza da vida-morte-vida aparece, representada aqui pela avó. É sua a tarefa de chegar no momento da morte de alguma coisa, de incubar a alma que deixou sua casca para trás e de cuidar dessa alma até que ela possa renascer.

Essa é a bênção da psique de todo mundo. Mesmo diante de um final doloroso quanto o da menina dos fósforos, há um raio de luz. Quando se reúnem tempo, insatisfação e pressão suficientes, a Mulher Selvagem da psique lançará vida nova na mente da mulher, dando-lhe a oportunidade de agir em seu próprio interesse mais uma vez. Como podemos ver pelo sofrimento envolvido, é muito melhor curar nossa dependência da fantasia do que aguardar, com desejo e esperança, que sejamos ressuscitadas dos mortos.
Era uma vez uma menininha que não tinha nem pai nem mãe e que morava na floresta negra. Havia nas proximidades da floresta uma aldeia, e ela havia aprendido que podia comprar lá fósforos por meio pêni que podiam ser vendidos na rua por um pêni inteiro. Se ela vendesse fósforos em quantidade suficiente, poderia comprar uma fatia de pão, voltar para sua meia-água na floresta e ali dormir com as únicas roupas que possuía.

10 - La Llorona

CAPITULO 10
As águas claras: O sustento da vida criativa
A criatividade é um mutante. Num momento, ela assume uma forma; no instante seguinte, uma outra. Ela é como um espírito deslumbrante que aparece para todas nós, sendo, porém, difícil de descrever já que não existe acordo a respeito do que as pessoas vislumbram no seu clarão cintilante. Será que o emprego de pigmentos e telas, ou de lascas de tinta e papel de parede, é comprovação da sua existência? (...)Tocar com amor as folhas de uma planta, reduzir a importância de certas preocupações, dar nós no tear, descobrir a própria voz, amar alguém profundamente? Também. Segurar o corpo morno do recém-nascido, criar um filho até a idade adulta, ajudar a reerguer uma nação derrotada? Também. Cuidar do casamento como do pomar que ele é, escavar à procura do ouro psíquico, descobrir a palavra perfeita, fazer uma cortina azul? Tudo isso pertence à vida criativa. Todos esses atos provêm da Mulher Selvagem, de Río Abajo Río, do rio abaixo do rio, que não pára de correr para dentro da nossa vida.

Alguns dizem que a vida criativa está nas idéias; outros, que ela está na ação. Na maioria dos casos, ela parece estar num ser simples. Não se trata do virtuosismo, embora não haja nada de errado com ele. Trata-se de amor por algo, de sentir tanto amor por algo — seja por uma pessoa, uma palavra, uma imagem, uma idéia, pelo país ou pela humanidade — que tudo o que pode ser feito com o excesso é criar. Não é uma questão de querer; não é um ato isolado da vontade. Simplesmente é o que se precisa fazer.

A força criadora escorre pelo terreno da nossa psique à procura de depressões naturais, os arroyos, os canais que existem em nós. Nós nos tornamos seus afluentes e sua bacia. Somos suas piscinas naturais, suas represas, córregos e santuários.

Uma vez que esse imenso rio subterrâneo tenha encontrado seus estuários e afluentes na nossa psique, nossa vida criadora tem cheias e vazantes, sobe e desce com as estações, exatamente como um rio natural. Esses ciclos propiciam que as coisas sejam criadas, alimentadas, que recuem e definhem, tudo a seu próprio tempo e repetidas vezes.

Se ansiamos pela energia criadora; se temos problemas para alcançar os aspectos férteis, imaginativos, formadores de idéias; se temos dificuldade para nos concentrarmos no nosso sonho pessoal, para agir de acordo com ele ou para garantir sua execução, então alguma coisa deu errado no ponto de união das águas das cabeceiras e dos afluentes de um rio. Ou pode ser que as águas criadoras estejam correndo por um meio poluente no qual as formas de vida da imaginação são eliminadas antes que possam atingir a maturidade. Com enorme freqüência, quando uma mulher se vê despojada da sua vida criativa, todas essas circunstâncias estão no cerne da questão.

Já que a Mulher Selvagem é Río Abajo Río, o rio por baixo do rio, quando ela corre dentro de nós, nós corremos. Se a abertura dela até nós for bloqueada, nós ficamos bloqueadas. Se sua corrente estiver envenenada pelos nossos próprios complexos negativos internos ou pelas pessoas que nos cercam, os delicados processos que forjam nossas idéias também ficam poluídos. Passamos, então, a ser como um rio que morre. Isso não é coisa ínfima, a ser ignorada. A perda do nítido fluxo criador constitui uma crise psicológica e espiritual.

Quando a criatividade fica estagnada de uma forma ou de outra, o resultado é sempre o mesmo: uma fome desesperada pelo novo, um enfraquecimento da fecundidade, uma falta de espaço para as formas menores de vida se localizarem nos interstícios das formas maiores de vida, uma impossibilidade de que uma idéia fertilize uma outra, nenhuma ninhada, nenhuma vida nova. Nessas circunstâncias, sentimo-nos doentes e queremos seguir adiante. Vagueamos sem destino, fingindo poder sobreviver sem a exuberância da vida criativa, mas não podemos nem devemos. Para trazer de volta a vida criativa, as águas têm de ficar claras e límpidas de novo. Precisamos entrar na lama, purificá-la dos elementos contaminadores, reabrir passagens, proteger a corrente de danos futuros.

La Llorona
Um rico hidalgo, fidalgo, corteja uma moça pobre, mas muito bonita, e conquista seu afeto. Ela lhe dá dois filhos, mas ele não se dispõe a casar com ela. Um dia, ele comunica que vai voltar para a Espanha, onde se casará com uma moça rica escolhida por sua família, e que vai levar seus filhos para lá. A jovem mãe fica fora de si e age no estilo das célebres loucas enfurecidas de todos os tempos. Ela arranha o rosto do homem e arranha seu próprio rosto. Rasga as vestes dele e rasga as suas próprias vestes. Ela apanha os dois meninos pequenos, corre para o rio com eles e lá os joga na correnteza. As crianças morrem afogadas, e La Llorona cai às margens do rio, cheia de dor, e morre.
hidalgo volta para a Espanha e se casa com a mulher rica. A alma de La Llorona sobe aos céus. Lá o porteiro-mor diz que ela pode entrar nos céus, já que sofreu, mas que não pode lá entrar sem antes resgatar do rio as almas das duas crianças.
E é por isso que se diz hoje em dia que La Llorona vasculha as margens dos rios com seus longos cabelos, que mergulha seus dedos compridos na água para arrastá-los no fundo à procura dos filhos. É também por isso que as crianças vivas não devem se aproximar dos rios depois de anoitecer, porque La Llorona pode confundi-las com seus próprios filhos e levá-las embora para sempre.

____________________________________________________

A poluição da alma selvagem

Embora eu às vezes conte essa história de duas versões em outros contextos, quando é compreendida como uma imagem da deterioração do fluxo criador, ela faz com que as mulheres se arrepiem por bem saber do que se trata. Se considerarmos essa história como a condição da psique de uma única mulher, poderemos ter uma boa compreensão do enfraquecimento e definhamento do processo criativo da mulher. Como outras histórias com finais trágicos, essa tem a função de ensinar à mulher o que não fazer e como voltar atrás, no caso de escolhas infelizes, para reduzir o impacto negativo. Em geral, ao assumir uma postura psicológica oposta àquela adotada pela protagonista da história, podemos aprender a viajar com a onda em vez de nos afogarmos nela.

Esse conto emprega as imagens da bela mulher e do puro rio da vida para descrever o processo criador da mulher num estado normal. Aqui, porém, quando ele interage com um espírito destrutivo, tanto a mulher quanto o rio decaem. É então que a mulher cuja vida criativa está definhando vivencia, como La Llorona, uma sensação de envenenamento, de deformação, um impulso para acabar com tudo. Em seguida, ela é levada a uma procura aparentemente interminável do seu potencial criativo original, em meio aos destroços.

Para a correção do seu ambiente psíquico, o rio precisa voltar a ficar limpo. Nessa história, não estamos preocupadas com a qualidade das produtos da nossa criação, mas com a determinação e os cuidados para com nossa vida criativa. Sempre por trás do ato de escrever, de pintar, de pensar, de curar, de fazer, de cozinhar, de falar, de sorrir, de criar, está o rio, o Río Abajo Río. O rio debaixo do rio alimenta tudo o que criamos.

Na simbologia, os grandes volumes de água representam o lugar em que se crê que a própria vida teve origem. Nas regiões hispânicas do sudoeste dos Estados Unidos, o rio simboliza a capacidade de viver, de viver realmente. Ele é considerado a mãe, La Madre Grande, a Grande Mulher, cujas águas não só correm nas valas e leitos de rios mas que se derramam de dentro do corpo das próprias mulheres quando seus filhos nascem. O rio é visto como a Gran Dama que passeia pela terra com uma saia rodada e esvoaçante, azul ou prateada e às vezes dourada, que se deita com o solo para prepará-lo para o plantio.

Algumas das minhas velhas amigas do sul do Texas dizem que El Río Grande não poderia jamais ser um rio-homem, mas um rio-mulher. Elas riem e dizem, como um rio poderia ser outra coisa a não ser La Dulce Acequia, a doce fenda, entre as coxas da terra? No norte do Novo México, o rio na tempestade, no vendaval, nas inundações repentinas, é visto como aquela que está excitada, aquela que no cio corre para tocar tudo o que puder para fazer com que cresça.

Vemos, então, que o rio simboliza aqui uma forma de generosidade feminina que desperta, excita e cria paixão. Os olhos das mulheres cintilam quando elas criam; suas palavras saem melodiosas; seu rosto fica ruborizado; seu próprio cabelo parece brilhar mais. Elas ficam excitadas com a idéia, interessadas pelas possibilidades, apaixonadas pelo próprio pensamento, e a essa altura, como o grande rio, espera-se que elas se derramem continuamente no seu próprio caminho criativo. É desse jeito que as mulheres se sentem realizadas. E são essas as condições do rio junto ao qual La Llorona vivia antes que a destruição ocorresse.

No entanto, como na história, pode acontecer que a vida criativa da mulher seja dominada por algo que deseje fabricar apenas produtos do ego, que não têm nenhum valor psicológico duradouro. Às vezes existem pressões originadas na sua cultura que lhe dizem que suas idéias são inúteis, que ninguém vai se interessar por elas, que é vão o esforço de continuar. Isso é poluição. Isso equivale a derramar chumbo no rio. É isso o que envenena a psique.

A satisfação do ego é permissível e importante por si só. O problema reside no fato de que o derramamento de complexos negativos ataca tudo o que significar novidade, tudo o que for novo, que tenha potencial, que tenha acabado de nascer, tudo o que esteja no estado de crisálida, de lacuna, bem como o que estiver já crescido, tudo o que for velho e venerado. Quando há um excesso de fabricação sem alma, os resíduos tóxicos escorrem para o rio límpido, eliminando tanto o impulso criador quanto a energia.
 
O veneno no rio

O efeito mais comum da poluição na vida criativa da mulher é a perda da vitalidade. Isso prejudica a capacidade mulher de criar ou agir no mundo "lá fora". Embora existam épocas nos ciclos da vida criativa saudável da mulher nas quais o rio da criatividade desaparece no subsolo temporariamente, algo está se desenvolvendo do mesmo jeito. Nessas ocasiões, estamos em incubação. A sensação é muito diferente da de uma crise espiritual.

Num ciclo natural, existe inquietação e impaciência, talvez, mas não ocorre jamais uma sensação de que a alma selvagem esteja morrendo. Podemos saber a diferença através da avaliação da nossa expectativa: mesmo quando nossa energia criativa está envolvida num longo processo de incubação, nós ainda ansiamos pelo resultado. Sentimos os estalos e ondulações dessa nova vida que gira e zumbe dentro de nós.

No entanto, quando a vida criativa morre porque não estivemos cuidando da saúde do rio, a situação é inteiramente outra. Sentimo-nos exatamente como o rio que morre. Sentimos a perda de energia; sentimo-nos cansadas. Não há nada rastejando, incomodando, levantando folhas, refrescando, aquecendo. Nós nos tornamos turvas, lentas de um modo negativo, envenenadas pela contaminação ou por um refluxo e estagnação de todas as nossas riquezas. Tudo dá a impressão de estar poluído, impuro e envenenado.

Como pode a vida criativa da mulher ser poluída? Esse enlameamento da vida criativa invade todas as cinco fases da criação: a inspiração, a concentração, a organização, a implementação e a manutenção. As mulheres que perderam uma ou mais dessas fases relatam que não "conseguem pensar" em nada de novo, de útil ou que desperte sua empatia. Elas se vêem facilmente ''perturbadas" por casos de amor, pelo excesso de trabalho, pelo excesso de lazer, pela fadiga ou pelo receio de fracassar.

Por vezes, elas não conseguem dominar a mecânica da organização, e seus projetos acabam espalhados por aí em centenas de lugares, aos pedaços. Às vezes, os problemas se originam da ingenuidade da mulher acerca da sua própria extroversão. Ela acha que, ao fazer alguns movimentos no mundo exterior, realmente fez alguma coisa. Isso equivale a fazer os braços de alguma coisa, mas não as pernas nem a cabeça, e considerá-la pronta. Ela se sente necessariamente incompleta.

Às vezes, a mulher tropeça na própria introversão e quer simplesmente que as coisas existam só porque ela deseja. Ela pode acreditar que basta pensar que a idéia é suficientemente boa e que não há necessidade de nenhuma manifestação externa. Só que ela se sente despojada e incompleta do mesmo jeito. Todas essas são manifestações de poluição no rio. O que está sendo fabricado não é a vida, mas algo que inibe a vida.

Outras vezes, ela sofre agressões por parte daqueles que a cercam ou das vozes que lhe soam na cabeça: "O que você faz não está bem certo, não é bom o suficiente, não é suficientemente isso ou aquilo. É pretensioso demais, ínfimo demais, insignificante demais, demora demais, é fácil ou difícil demais." Isso equivale a derramar cádmio no rio.

Essa poluição literal também pode ser compreendida em termos figurados com uma frieira de complexos internos à psique, cuja única razão de ser consiste em atrapalhar. Essa história é decididamente um temblón, uma história de arrepiar. Ela nos dá arrepios de reconhecimento já que todas nós passamos por isso. A "Síndrome das Harpias" destrói através do menosprezo aos nossos talentos e esforços e através de um diálogo interior de enorme depreciação. A mulher propõe uma idéia, e a Harpia caga sobre ela. A mulher diz, "Bem, acho que eu devia fazer isso e aquilo." A Harpia responde, "Que idéia idiota. Ninguém vai ligar para isso. É ridiculamente simplista. Ora, ouça o que lhe digo, suas idéias são todas estúpidas, as pessoas vão rir, você realmente não tem nada a dizer." E assim que a Harpia fala.

As desculpas são outra forma de poluição. De escritoras, pintoras, bailarinas e outras artistas, ouvi todo tipo de desculpa inventada desde que a Terra esfriou. "Bem, um desses dias vou arranjar tempo para meu trabalho." Enquanto isso não acontece, ela se mantém numa depressão sorridente. "Estou ocupada, é, consigo um tempinho aqui e ali para escrever, ora, escrevi dois poemas no ano passado, é, e terminei um quadro e parte de outro nos últimos dezoito meses. É, a casa, as crianças, o marido, o namorado, o gato, o bebê precisam de minha total atenção. Vou conseguir me dedicar ao meu trabalho. Não tenho dinheiro, não tenho tempo, não consigo encontrar tempo, não consigo criar tempo, não posso começar sem ter os melhores e mais caros instrumentos ou experiências, simplesmente não estou com vontade agora, ainda não estou com a disposição de ânimo certa. Só preciso de pelo menos um dia para conseguir, só preciso de uns dias para conseguir. Só preciso de algumas semanas comigo mesma para conseguir. Eu só, eu só..."

O rio em chamas

Um excesso de complexos psíquicos em atividade ao mesmo tempo pode causar um dano imenso ao rio. Complexos psicológicos negativos se erguem e questionam seu valor, sua intenção, sua sinceridade e seu talento. Eles também lhe enviam mensagens no sentido de afirmar inequivocamente que você deve trabalhar para "ganhar a vida", fazendo coisas que a deixam exausta, que não lhe permitem nenhum tempo para criar, que destroem sua vontade de imaginar.

Alguns dos castigos e das sabotagens preferidos dos complexos malévolos perpetrados contra a criatividade das mulheres giram em torno da promessa feita ao self da alma de que terá "tempo para criar" em algum ponto no futuro remoto. Ou da promessa de que, quando tivermos alguns dias livres, a agitação afinal começará. Isso é tolice. O complexo não tem nenhuma intenção semelhante. É apenas um meio de abafar o impulso criativo.

Já vi mulheres cumprindo longos expedientes em empregos que desprezam só para poder comprar objetos caríssimos para a casa, o parceiro, os filhos, enquanto deixam em segundo plano outros talentos consideráveis. Já vi mulheres insistindo em limpar tudo dentro de casa antes de poder se sentar para escrever... e todas sabemos que há algo de curioso na limpeza doméstica... ela nunca termina. Um jeito perfeito para paralisar uma mulher.

A mulher precisa ter o cuidado de não permitir que o excesso de responsabilidade (ou de respeitabilidade) roubem o tempo necessário para seus êxtases, improvisos e repousos criativos. Ela deve simplesmente fincar o pé e dizer não à metade do que ela acredita ser seu "dever". A arte não foi feita para ser criada somente em momentos roubados.

A dispersão de planos e projetos, como se pela ação do vento, ocorre quando a mulher tenta organizar uma idéia criadora, e esta de certo modo não pára de ser espalhada, ficando cada vez mais confusa e desorganizada. A mulher não controla a idéia de um modo mais concreto porque, mais uma vez, não tem tempo para fazer todas as anotações e organizá-las, ou pode ser que ela esteja sendo requisitada por tantas outras coisas que acaba perdendo o fio da meada e não consegue voltar a ele.

Pode também acontecer de o processo criador da mulher ser mal compreendido ou desrespeitado pelos que a cercam. Cabe a ela informar-lhes que, quando ela está com "aquela expressão" nos olhos, isso não quer dizer que ela seja um terreno baldio à espera de que o ocupem. Quer dizer que ela está equilibrando um grande castelo de cartas de idéias na ponta de um único dedo, que está unindo cuidadosamente todas as cartas usando minúsculos ossos cristalinos e um pouquinho de saliva e que, se ao menos conseguir levar tudo até a mesa sem que caia ou se desmorone, ela poderá trazer à luz uma imagem do mundo invisível. Falar com ela nesse momento equivale a criar um vento de Harpia que, com um sopro, destrói toda a estrutura. Falar com ela nesse momento equivale a partir seu coração.

No entanto, a mulher pode agir assim consigo mesma ao descartar suas idéias até que toda a animação se esgote, ao não fazer questão quando outras pessoas se esgueiram levando seus materiais e instrumentos de criação, ao cometer o simples deslize de não comprar os equipamentos corretos para executar corretamente o trabalho criativo, ao parar e recomeçar tantas vezes, permitindo que todo mundo a interrompa à vontade, que o projeto acaba em ruínas.

Se a cultura na qual a mulher vive agride a função criadora dos seus membros, se ela parte ou esfacela qualquer arquétipo ou deturpa sua intenção ou significado, eles serão incorporados em seu estado esfacelado nas psiques dos seus membros da mesma forma; como uma força alquebrada, e não como uma força sã, cheia de vitalidade e potencial.

Quando esses elementos prejudicados, acerca de como permitir a vida criadora e de como promovê-la, são ativados dentro da psique da mulher, é difícil ter um insight mínimo quanto ao que está errado. Estar dentro de um complexo é o mesmo que estar dentro de um saco preto. Ali dentro é escuro, não conseguimos ver o que nos capturou, só sabemos que fomos apanhadas por alguma coisa. Dessa forma, ficamos temporariamente incapazes de organizar nossos pensamentos ou nossas prioridades e, como animais presos dentro de sacos, começamos a agir sem refletir.

Embora a ação sem reflexão possa ser útil ocasionalmente, como no princípio que diz que a "primeira idéia é a melhor idéia", nessas circunstâncias ele não se aplica. No processo de criação envenenado ou paralisado, a mulher oferece ao belo self da alma "comida de mentirinha". Ela tenta ignorar a condição do espírito. Assim, ela consegue freqüentar um "seminariozinho" aqui, um "cursinho" ali, arranja um "tempinho" para ler mais adiante. Mas, no final das contas, falta a substância. A mulher não está enganando ninguém a não ser a si mesma.

Portanto, quando esse rio morre, ele já não tem sua correnteza, sua força vital. Os hindus dizem que sem Shakti, a personificação da força vital feminina, Shiva, que abrange a capacidade de agir, se torna um cadáver. Ela é a energia vital que anima o princípio masculino; e o princípio masculino, por sua vez, estimula a ação no mundo.

Vemos, por conseguinte, que o rio precisa apresentar um equilíbrio razoável entre suas poluições e suas purificações, ou tudo resultará em nada. No entanto, a fim de proceder dessa forma, o ambiente imediato precisa ser propício e acessível. É fato que, quanto menos disponíveis os elementos essenciais, como o alimento e a água, o abrigo e a segurança, menores serão as opções. E, quanto menores as opções, menos criativa será a vida, pois a criatividade prospera nas combinações inúmeras e ilimitadas de todas as coisas.

O hidalgo destrutivo na história é a parte profunda mas imediatamente reconhecível da mulher ferida. Ele é o seu animus, o que faz com que ela se esforce, não para criar — muitas vezes ela não consegue sequer chegar a esse ponto — mas, sim, para obter uma permissão inequívoca, um sólido sistema interno de apoio para que crie à vontade. Espera-se que um animus saudável se envolva com o funcionamento do rio, e é assim que deve ser. Ele é o auxiliar que observa para ver se é preciso fazer algo. Na história de La Llorona, porém, ele assume o comando, impedindo a nova vida essencial. A mulher tem, então, um número cada vez menor de opções criativas. O animus conquista o poder de mandar na mulher, de depreciar seu trabalho. Isso ele consegue através da destruição do rio.

Examinemos, em primeiro lugar, os parâmetros do animus em geral. Passaremos, em seguida, à compreensão de como a vida criativa da mulher se deteriora quando ocorre uma influência negativa do animus, bem como ao que ela pode e deve fazer a respeito. A criatividade deve ser um ato de nítida consciência. Um ato que reflita a clareza do rio. O espírito é o homem do rio. Ele é o encarregado. É quem cuida da água e a protege.

O homem do rio

Antes de podermos entender o que o homem da história de La Llorona fez ao poluir o rio, precisamos ver como o que ele representa deve ser um constructo positivo na psique da mulher. Na definição junguiana clássica, o animus é a força da alma nas mulheres e é considerado masculino. No entanto, muitas psicanalistas, entre as quais me incluo, através de suas próprias observações, chegaram a uma conclusão contrária ao ponto de vista clássico e afirmam, em vez disso, que a fonte de revitalização da mulher não é masculina e alheia a ela, mas feminina e bem conhecida.

Seja como for, creio que o conceito masculino do animus tenha ampla aplicação. Existe uma forte correlação entre as mulheres que têm medo de criar, de manifestar suas idéias ao mundo, e as imagens de homens feridos ou que ferem nos seus sonhos. Por outro lado, os sonhos das mulheres com boa capacidade de manifestação externa muitas vezes apresentam uma forte figura masculina que aparece com regularidade sob diversos disfarces.

Ele importa e exporta bens e conhecimentos. Ele escolhe o melhor entre o que é oferecido, negocia o melhor preço, faz o acompanhamento e completa a transação. Outro meio de se interpretar essa imagem consiste em considerar a Mulher Selvagem, o Self da alma, como o artista, e o animus, como o braço do artista. A Mulher Selvagem é o motorista; o animus acelera o veículo. Ela compõe a canção; ele escreve a partitura. Ela imagina; ele dá conselhos. Sem ele, a peça fica escrita na nossa imaginação, mas nunca é escrita e nunca é representada. Sem ele, o palco pode estar repleto, mas as cortinas nunca se abrem e a portaria permanece sem iluminação.

Portanto, o animus trafega pela estrada entre dois territórios e às vezes entre três: o mundo subterrâneo, o mundo interior e o mundo exterior. Todas as idéias e sentimentos da mulher são amontoados e transportados de um ponto a outro — nas duas direções — pelo animus, que tem uma afinidade com todos os mundos. Ele traz idéias de "lá de fora" de volta para dentro dela e transfere idéias do Self da alma pela ponte para a fruição e "para o mercado". Sem o construtor e o zelador dessa ponte, a vida interior da mulher não pode se manifestar com determinação no mundo objetivo.

Portanto, em vez de ser a natureza da alma da mulher, o animus, ou natureza contra-sexual da mulher, é uma profunda inteligência psíquica com capacidade para agir, que viaja de um lado para o outro entre os mundos. Essa força tem a capacidade de expressar e encenar os desejos do ego, de executar os impulsos e idéias da alma, de despertar a criatividade da mulher de uma forma manifesta e concreta. O aspecto principal do desenvolvimento do animus é a real manifestação de pensamentos, impulsos e idéias muito particulares.

Esses atributos masculinos não se originam do temperamento psíquico instintivo das mulheres com a mesma forma ou tom daqueles da sua natureza feminina. Portanto, por vivermos, como vivemos, num mundo que exige tanto a ação meditativa quanto a ação concreta, considero muito útil o emprego do conceito de uma natureza masculina ou animus na mulher. Quando em perfeito equilíbrio, o animus atua como auxiliar, companheiro, amante, irmão, pai, rei. Isso não quer dizer que o animus seja rei da psique da mulher, como poderia sustentar um ponto de vista patriarcal doentio. Quer dizer, sim, que existe um aspecto majestoso na psique da mulher, o de um rei que serve com carinho à natureza selvagem, que deve trabalhar para defender a mulher e seu bem-estar, governando o que ela lhe designar, reinando sobre os territórios psíquicos que ela lhe conceder.

Pois é assim que deve ser, mas na história o animus persegue outras metas em detrimento da natureza selvagem e, à medida que o rio se enche de detritos, a própria corrente passa a envenenar outros aspectos da psique criativa, especialmente os futuros filhos da mulher.

Esperamos corrigir a turvação com a maior rapidez e abrangência possível. Mas, e se algo assumir o controle do fluxo criador, tornando-o cada vez mais enlameado? E se ficarmos presas nessa armadilha? E se de algum modo começarmos obstinadamente a extrair frutos dessa situação, a não só gostar dela mas nela confiar, a ganhar nosso pão com ela, a nos sentirmos vivas através dela? E se a usarmos para levantar da cama pela manhã, para nos levar a qualquer lugar, para fazer de nós alguém aos nossos próprios olhos? Essas são as armadilhas que esperam por todas nós.

O hidalgo nessa história representa um aspecto da psique da mulher que, para usar uma linguagem coloquial, "apodreceu". Ele se corrompeu. Ele extrai vantagem de fabricar veneno e, de certo modo, está vinculado à vida insalubre. Ele é como um rei que governa por meio de uma fome mal orientada. Ele nem é sábio nem jamais poderá ser amado pela mulher que ele simula servir.

Quando o animus se transformou numa ameaça, como vemos na história, a mulher perde a confiança nas suas decisões. À medida que seu animus se vê enfraquecido pela sua parcialidade, a água do rio passa de algo que é essencial à vida para algo a ser abordado com a mesma precaução com que abordamos um assassino de aluguel. Ocorre, então, a fome na terra e a poluição no rio.

Criar é creare em latim, significando produzir, fazer (vida), produzir algo onde antes não havia nada. É o ato de beber água do rio poluído que provoca a suspensão da vida interior e, por conseguinte, da exterior. Na história, essa poluição gera a deformação dos filhos, e esses filhos simbolizam as novas idéias e ideais. Os filhos representam nossa capacidade de produzir algo onde antes não havia nada.

Podemos reconhecer que essa deformação do novo potencial está ocorrendo quando começamos a questionar nossa capacidade, e especialmente nosso direito, de pensar, agir ou ser. Mulheres talentosas, mesmo quando resgatam sua vida criativa, mesmo quando obras lindas saem das suas mãos, da sua caneta, do seu corpo, continuam a questionar se são realmente escritoras, pintoras, artistas, gente, gente de verdade. E é claro que elas são reais, muito embora possam gostar de se atormentar quanto ao que constitui a realidade.

O desenvolvimento do animus varia de mulher para mulher. Não se trata de uma criatura perfeitamente formada que salta do ventre dos deuses. Ele parece ter uma qualidade inata, mas também precisa "crescer", ser ensinado e treinado. Ele se destina a ser uma força poderosa e direta. No entanto, quando o animus sofre danos por parte de todas as inúmeras forças da cultura, algo de desgastante, de mesquinho, ou uma espécie de entorpecimento, que algumas pessoas chamam de "neutralidade", se interpõe entre o mundo interno da psique e o mundo externo da página em branco, da tela intocada, da pista de dança, da sala da diretoria, da platéia à espera.

Esse "algo" coagula o rio, impede o pensamento, emperra a caneta e o pincel, trava as articulações por um tempo interminável, abafa as novas idéias e, assim, sofremos. Ocorre um estranho fenômeno com a psique. Quando a mulher sofre de um animus negativo, qualquer esforço no sentido de um ato criativo aciona esse animus para que ele a agrida. Ela apanha a caneta para escrever, e a fábrica vomita seu veneno sobre o rio. Ela pensa em se matricular num curso, ou começar aulas, mas pára no meio, sufocada com a falta de apoio e alimento interiores. A mulher acelera, mas não pára de recuar. Há mais desenhos de bordado não-terminados, mais canteiros de flores não-concretizados, mais caminhadas não-feitas, mais bilhetes não-escritos só para dizer "Eu me importo com você", mais línguas estrangeiras jamais aprendidas, mais aulas de música abandonadas, mais tecidos suspensos no tear numa espera interminável...

Essas são as formas deterioradas da vida. São os filhos envenenados de La Llorona. E todas elas são jogadas no rio; são jogadas de volta às águas poluídas que tanto as afligiam desde o início. Nas melhores circunstâncias arquetípicas, elas deveriam borbulhar por algum tempo e, como uma fênix, deveriam renascer das cinzas sob uma nova forma. Aqui, porém, algo está errado com o animus e, portanto, com a capacidade de manifestar e implementar nossas idéias no mundo. E o rio está tão cheio de excrementos de complexos que nada pode nascer dele para uma nova vida.

E assim chegamos à parte mais difícil. Temos de entrar na lama e procurar por isso tudo. Como La Llorona, temos de dragar o rio à procura da nossa vida da alma, da nossa vida criativa. E ainda mais uma tarefa, também árdua: precisamos purificar o rio para que La Llorona possa ver, para que ela e nós possamos encontrar a alma das crianças e nos sentirmos em paz para criar novamente.

A cultura torna piores suas "fábricas" e sua poluição através do seu imenso poder de desvalorização do feminino — e sua incompreensão quanto à natureza mediadora do masculino. Infelizmente a cultura muitas vezes mantém o animus da mulher no exílio insistindo para que seja resolvida uma daquelas perguntas insolúveis e disparatadas que os complexos querem dar a entender que são válidas e diante das quais muitas mulheres se intimidam. "Mas será que você é mesmo uma escritora [artista, mãe, filha, irmã, esposa, amante, trabalhadora, dançarina, pessoa] de verdade?" "Será que você realmente é talentosa [prendada, valiosa]?" "Será que você realmente tem algo a dizer que valha a pena [que seja esclarecedor, que irá ajudar a humanidade, que irá descobrir uma cura para o antraz]? Não é de surpreender que, quando o animus da mulher é dominado por uma fabricação psíquica de natureza negativa, a produção da mulher se reduz, à medida que vão definhando sua confiança e sua força criadora. Mulheres nesse tipo de aflição afirmam "não conseguir ver uma saída" do chamado bloqueio de escritor, ou da sua causa. Seu animus está extraindo todo o oxigênio do rio, e elas se sentem "extremamente cansadas" e sofrem uma "tremenda perda de energia", parecem não conseguir "dar o primeiro passo", sentem-se refreadas por alguma coisa.

Reassumindo o rio

A natureza da vida-morte-vida faz com que o destino, o relacionamento, o amor, a criatividade e tudo o mais se movimentem em coreografias amplas e selvagens, uma atrás da outra na seguinte ordem: criação, crescimento, poder, dissolução morte, incubação, criação, e assim por diante. A sabotagem ou a ausência de idéias, pensamentos, sentimentos é o resultado de uma corrente tumultuada. Eis como reassumir o rio.

Aceite o alimento para começar a limpeza do rio. Elementos contaminadores que perturbam o rio ficam óbvios quando a mulher rejeita elogios sinceros acerca da sua vida criativa. Pode ser que haja apenas um pouquinho de poluição, como no despreocupado "Ah, como você está sendo simpático com esse elogio", ou pode ser que os problemas com o rio sejam graves: "Ora, essa velharia" ou "Você deve estar ficando louco." Além da atitude defensiva: "É claro que eu sou maravilhosa. Como você poderia deixar de perceber?" Todas essas expressões são sinais de um animus enfermo. Podem chegar coisas boas à mulher, mas elas são imediatamente envenenadas.

Para reverter o fenômeno, a mulher treina aceitar elogios (mesmo que a princípio ela dê a impressão de estar se jogando ao cumprimento para, dessa vez, ficar com ele). Ela o saboreia e repele o animus maligno que quer responder "Isso é o que você pensa. Você na verdade não sabe todos os erros que ela fez. Você não sabe como ela é chata...", e assim por diante.

Para criar é preciso que sejamos capazes de nos sensibilizar. A criatividade é a capacidade de ser sensível a tudo que nos cerca, a escolher em meio às centenas de possibilidades de pensamento, sentimento, ação e reação, e a reunir tudo isso numa mensagem, expressão ou reação inigualável que transite ímpeto, paixão e determinação. Nesse sentido, a perda do nosso ambiente criativo significa que nos encontramos listadas a uma única opção, que fomos despojadas dos nossos sentimentos e pensamentos, ou que os reprimimos ou censuramos, sem agir, sem falar, sem fazer, sem ser.

Seja selvagem. É assim que se limpa o rio. O rio não começa já poluído; isso é nossa responsabilidade. O rio não fica seco; nós o represamos. Se quisermos lhe permitir sua liberdade, precisamos deixar que nossa vida ideativa se solte, corra livre, permitindo a vinda de qualquer coisa, a princípio sem censurar nada. Essa é a vida criativa. Ela é composta do paradoxo divino. Para criar, precisamos estar dispostas a ser rematadas idiotas, a nos sentar num trono em cima de um imbecil, cuspindo rubis pela nossa boca. Só assim o rio correrá, e nós poderemos nos postar na correnteza.

Podemos estender nossas saias e blusas para apanhar o que pudermos carregar. Comece. É assim que se limpa o rio poluído. Se você tiver medo, tiver receio de fracassar, digo-lhe que comece já, fracasse se for preciso, recupere-se, recomece. Se fracassar de novo, fracassou. E daí? Comece novamente. Não é o fracasso que nos detém, mas é a relutância em recomeçar que nos faz estagnar. Se você estiver apavorada, qual é o problema? Se você estiver com medo de que algo vá dar um salto para mordê-la então pelo amor de Deus, resolva isso imediatamente. Deixe que seu medo surja e a morda para que você possa superá-lo e seguir adiante. Você irá superá-lo. O medo acaba passando. Nesse caso, é melhor que você o encare de frente, que o sinta e que o supere, do que continuar a usá-lo como pretexto para evitar limpar o rio.

Proteja seu tempo. É assim que se eliminam os poluentes. Conheço uma pintora muito impetuosa nas Montanhas Rochosas que pendura o seguinte cartaz na porta de casa quando ela está disposta a pintar ou a pensar. "Hoje estou trabalhando e não vou receber visitas. Sei que você pensa que isso não se aplica a você porque você é o gerente da minha conta no banco, meu agente ou meu melhor amigo. Mas se aplica sim.’’

Esses complexos negativos são eliminados ou transformados — seus sonhos irão guiá-la no trecho final do caminho — quando você finca o pé, de uma vez por todas, e afirma, "Amo a minha vida criativa mais do que amo cooperar com a minha própria opressão." Nós somos as únicas a cuidar do Self da alma e do animus heróico. É uma enorme crueldade regá-los apenas uma vez por semana, uma vez por mês ou mesmo uma vez por ano. Cada um deles tem seu ritmo circadiano. Eles precisam de nós e da água da nossa atividade todos os dias.

Proteja sua vida criativa. Se você quiser evitar a hambre del alma, a alma faminta, chame o problema pelo seu verdadeiro nome e trate de consertá-lo. Pratique sua atividade todos os dias. E então, não permita que nenhum homem, mulher, parceiro, amigo, religião, emprego ou voz resmungona venha forçá-la a passar fome. Se necessário, arreganhe os dentes.

Forje seu verdadeiro trabalho. Construa aquele abrigo de carinho e conhecimento. Transfira sua energia de um lado para o outro. Insista em atingir um equilíbrio entre a responsabilidade prosaica e o êxtase pessoal. Proteja a alma. Insista numa vida criativa de qualidade. Não permita que seus próprios complexos, sua cultura, os dejetos intelectuais ou que qualquer papo-furado político, pedagógico, aristocrático ou pretensioso lhe roubem essa vida.

Ofereça alimentos para a vida criativa. Embora muitas coisas sejam boas e nutritivas para a alma, a maioria recai num dos quatro grupos básicos de alimentos da Mulher Selvagem: o tempo, a sensação de integração, a paixão e a soberania. Faça estoque deles. Eles mantêm o rio limpo.

Quando o rio estiver novamente limpo, ele estará livre para correr. A produção criativa da mulher aumenta e daí em diante continua em ciclos naturais de aumento e redução. Nada será enlameado ou destruído por muito tempo. Quaisquer agentes de contaminação que ocorram naturalmente serão neutralizados com eficácia. O rio volta a ser nosso sistema de realimentação, um sistema no qual penetramos sem medo, do qual podemos beber sem preocupação, junto ao qual podemos tranqüilizar a alma atormentada de La Llorona, curando seus filhos e os devolvendo para ela.

Podemos então desmontar o mecanismo poluente da fábrica, instalar um novo animus. Podemos viver nossa vida como desejarmos e como nos for conveniente, ali ao lado do rio, com nossos filhinhos no colo, mostrando-lhes seu reflexo na água limpíssima.