Nós, a matilha

domingo, 16 de agosto de 2009

8 - A Mulher Braba - Os Sapatinhos Vermelhos

QUERO DEDICAR ESTE CONTO A NOSSA COMPANHEIRA DE MATILHA LOBA ADRIANA, QUE VEM AJUDANDO A FORTALER A INICIATIVA DESTE BLOG, OBRIGADA LOBINHA!

CAPÍTULO 8
A preservação do Self: A identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas

A mulher braba

Segundo o Oxford English Dictionary, a palavra feral, em inglês, deriva do latim fer... que significa "animal selvagem". No emprego mais comum da palavra, um animal "brabo" é aquele que um dia foi selvagem, foi depois domesticado e voltou ao estado natural ou indomado.
A mulher braba é aquela que um dia viveu num estado psíquico natural — ou seja, em perfeito estado mental selvagem — e que depois se tornou cativa de alguma reviravolta dos acontecimentos, passando, assim, a ser excessivamente domesticada e amortecida nos seus instintos próprios. Quando essa mulher tem a oportunidade de voltar à sua natureza selvagem original, quase sempre ela é vítima de todos os tipos de armadilhas e venenos. Como seus ciclos e seus sistemas de proteção foram manipulados, ela corre riscos naquele que costumava ser seu estado selvagem natural. Já não mais alerta e desconfiada, ela se torna presa fácil.
Nos bosques psíquicos, há muitas armadilhas enferrujadas que ficam escondidas por baixo das folhas verdes do chão da floresta. Em termos psicológicos, o mesmo vale para o mundo objetivo. Existem vários chamarizes aos quais somos suscetíveis: relacionamentos, pessoas e empreitadas tentadoras. Dentro da isca sedutora há, porém, algo afiado, algo que acabará com nosso espírito no momento em que dermos a primeira mordida.
As mulheres brabas de todas as idades, e especialmente as jovens, têm uma enorme vontade de compensar períodos de fome e de isolamento. Elas se arriscam quando fazem esforços excessivos e irracionais para se aproximar de pessoas e objetivos que não são benéficos, concretos ou duradouros. Não importa onde ou em que época elas vivam, há sempre arapucas à sua espera. Há sempre vidas menores para onde as mulheres se vêem forçadas ou atraídas.
Se você alguma vez foi capturada, se você alguma vez sofreu de hambre del alma, uma fome da alma, se você alguma vez se sentiu num alçapão e especialmente se você tem uma compulsão a criar, é bem provável que você tenha sido ou seja uma mulher braba. A mulher braba tem em geral uma fome extrema por algo profundo e, muitas vezes, pode ingerir qualquer veneno disfarçado na ponta de uma flecha, na crença de que ele é aquilo pelo qual sua alma anseia.
Para evitar esses ardis e engodos propiciados pelo tempo que a mulher passa no cativeiro e na fome, precisamos ter a capacidade de prevê-los e de nos desviarmos deles. Temos de voltar a desenvolver o insight e a prudência. Temos de aprender a nos desviar. Para poder distinguir as opções corretas, temos de poder ver as erradas.
Existe uma história ilustrativa contada por velhas a respeito das aflições da mulher esfaimada e braba. Ela é conhecida pelos títulos diversos de "As sapatilhas do Diabo", "Os sapatos ardentes do Diabo" e "Os sapatinhos vermelhos". Hans Christian Andersen escreveu um conto de fadas baseado nessa antiga história, dando-lhe este último título. Como um verdadeiro contador de histórias, ele envolveu o enredo básico com uma boa parte da sua própria inteligência e sensibilidade étnica, mas o esqueleto da história é o mesmo.

Os sapatinhos vermelhos


Segue-se uma versão germânico-magiar que minha tia Tereza costumava nos
contar quando éramos crianças. Na sua versão da história, ela sempre começava
dizendo: "Olhem para seus sapatos e agradeçam por eles serem sem graça... porque é preciso que se viva com muito cuidado quando os sapatos são vermelhos demais."




Era uma vez uma pobre órfã que não tinha sapatos. Essa criança guardava os trapos que pudesse encontrar e, com o tempo, conseguiu costurar um par de sapatos vermelhos. Eles eram grosseiros, mas ela os adorava. Eles faziam com que ela se sentisse rica, apesar de ela passar seus dias procurando alimento nos bosques espinhosos até muito depois de escurecer.

Um dia, porém, quando ela vinha caminhando com dificuldade pela estrada, maltrapilha e com seus sapatos vermelhos, uma carruagem dourada parou ao seu lado. Dentro dela, havia uma senhora de idade que lhe disse que ia levá-la para casa e tratá-la como se fosse sua própria filhinha. E assim lá foram elas para a casa da rica senhora, e o cabelo da menina foi lavado e penteado. Deram-lhe roupas de baixo de um branco puríssimo, um belo vestido de lã, meias brancas e reluzentes sapatos pretos. Quando a menina perguntou pelas roupas velhas, e em especial pelos sapatos vermelhos, a senhora disse que as roupas estavam tão imundas e os sapatos eram tão ridículos que ela os jogara no fogo, onde se reduziram a cinzas.

A menina ficou muito triste, pois, mesmo com toda a fortuna que a cercava, os modestos sapatos vermelhos feitos por suas próprias mãos haviam lhe dado uma felicidade imensa. Agora, ela era obrigada a ficar sentada quieta o tempo todo, a caminhar sem saltitar e a não falar a não ser que falassem com ela, mas uma chama secreta começou a arder no seu coração e ela continuou a suspirar pelos seus velhos sapatos vermelhos mais do que por qualquer outra coisa.

Como a menina tinha idade suficiente para ser crismada no dia do sacramento, a senhora levou-a a um velho sapateiro aleijado para que ele fizesse um par de sapatos especiais para a ocasião. Na vitrina do sapateiro havia um par de lindíssimos sapatos vermelhos do melhor couro. Eles praticamente refulgiam. Pois, apesar de sapatos vermelhos serem escandalosos para se ir à igreja, a menina, que só sabia decidir com seu coração faminto, escolheu os sapatos vermelhos. A vista da velha senhora era tão fraca que ela, sem perceber a cor dos sapatos, pagou por eles. O velho sapateiro piscou para a menina e embrulhou os sapatos.

No dia seguinte, os membros da congregação ficaram alvoroçados com os sapatos da menina. Os sapatos vermelhos brilhavam como maçãs polidas, como corações, como ameixas tingidas de vermelho. Todos olhavam carrancudos. Até os ícones na parede, até as estátuas não tiravam os olhos reprovadores dos sapatos. A menina, no entanto, gostava cada vez mais deles. Por isso, quando o bispo começou a salmodiar, o coro a cantarolar, o órgão a soar, a menina não achou que nada disso fosse mais belo que os seus sapatos vermelhos.

Antes do final do dia, a velha senhora já estava informada dos sapatos vermelhos da sua protegida.

— Nunca, nunca mais use esses sapatos vermelhos! — ameaçou a velha. No domingo seguinte, porém, a menina não conseguiu deixar de preferir os sapatos vermelhos aos pretos, e ela e a velha senhora caminharam até a igreja como de costume.

À porta do templo estava um velho soldado com o braço numa tipóia. Ele usava uma jaqueta curta e tinha a barba ruiva. Ele fez uma mesura e pediu permissão para tirar o pó dos sapatos da menina. Ela estendeu o pé, e ele tamborilou na sola dos sapatos uma musiquinha compassada que lhe deu cócegas nas solas dos pés.

— Lembre-se de ficar para o baile — disse ele, sorrindo e piscando um olho para ela. Mais uma vez, todos lançaram olhares reprovadores para os sapatos vermelhos da menina. Ela, no entanto, adorava tanto esses sapatos que brilhavam como o carmim, como framboesas, como romãs, que não conseguia pensar em mais nada, que mal prestou atenção no culto. Estava tão ocupada virando os pés para lá e para cá para admirar os sapatos que se esqueceu de cantar.

— Que belas sapatilhas! — exclamou o soldado ferido quando ela e a velha senhora saíam da igreja. Essas palavras fizeram a menina dar alguns rodopios ali mesmo. No entanto, depois que seus pés começaram a se movimentar, eles não queriam mais parar; e ela atravessou dançando os canteiros e dobrou a esquina da igreja até dar a impressão de ter perdido totalmente o controle de si mesma. Ela dançou uma gavota, depois uma csárdás e saiu valsando pelos campos do outro lado da estrada.

O cocheiro da velha senhora saltou do seu banco e correu atrás da menina. Ele a segurou e a trouxe de volta para a carruagem, mas os pés da menina, nos sapatos vermelhos, continuavam a dançar no ar como se ainda estivessem no chão. A velha senhora e o cocheiro começaram a puxar e a forçar, na tentativa de arrancar os sapatos vermelhos dos pés da menina. Foi um horror. Só se viam chapéus caídos e pernas que escoiceavam, mas afinal os pés da menina se acalmaram.

De volta à casa, a velha senhora enfiou os sapatos vermelhos no alto de uma prateleira e avisou a menina para nunca mais calçá-los. No entanto, a menina não conseguia deixar de olhar para eles e ansiar por eles. Para ela, eles eram o que havia de mais lindo no planeta.

Não muito tempo depois, o destino quis que a velha senhora caísse de cama e, assim que os médicos saíram, a menina entrou sorrateira no quarto onde eram guardados os sapatos vermelhos. Ela os contemplou lá no alto da prateleira. Seu olhar tornou-se fixo e provocou nela um desejo tão forte que a menina tirou os sapatos da prateleira e os calçou, na crença de que eles não lhe fariam mal algum. Só que, no instante em que eles tocaram seus calcanhares e seus dedos, ela foi dominada pelo impulso de dançar.

E saiu dançando porta afora e escada abaixo, primeiro uma gavota, depois uma csárdás e em seguida giros arrojados de valsa em rápida sucessão. A menina estava num momento de glória e não percebeu que enfrentava dificuldades até que teve vontade de dançar para a esquerda e os sapatos insistiram em dançar para a direita.

Quando ela queria dançar em círculos, os sapatos teimavam em seguir em linha reta. E, como eram os sapatos que comandavam a menina, em vez do contrário, eles a fizeram dançar estrada abaixo, atravessar os campos enlameados e penetrar na floresta soturna e sombria.

Ali, encostado numa árvore, estava o velho soldado de barba ruiva, com o braço na tipóia e usando sua jaqueta curta.

— Puxa — disse ele —, que belas sapatilhas!

Apavorada, a menina tentou tirar os sapatos, mas por mais que puxasse, eles continuavam firmes. Ela saltava primeiro num pé, depois no outro, para tentar tirálos, mas o pé que estava no chão continuava dançando assim mesmo e o outro pé na sua mão também fazia seu papel na dança.

E assim, ela dançava e dançava sem parar. Por sobre os montes mais altos e pelos vales afora, na chuva, na neve e ao sol, ela dançava. Ela dançava na noite mais escura, no amanhecer e continuava dançando também ao escurecer. Só que não era uma dança agradável. Era terrível, e não havia descanso para a menina.

Ela entrou no adro de uma igreja e ali um espírito guardião não quis permitir que ela entrasse.

— Você irá dançar com esses sapatos vermelhos — proclamou o espírito — até que fique como uma alma penada, como um fantasma, até que sua pele pareça suspensa dos ossos, até que não sobre nada de você a não ser entranhas dançando.

Você irá dançar de porta em porta por todas as aldeias e baterá três vezes a cada porta. E, quando as pessoas espiarem quem é, verão que é você e temerão que seu destino se abata sobre elas. Dancem, sapatos vermelhos. Vocês devem dançar. A menina implorou misericórdia mas, antes que pudesse continuar a suplicar, os sapatos vermelhos a levaram embora. Ela dançou por cima das urzes, através dos riachos, por cima de cercas-vivas, sem parar. Ainda dançava quando voltou à sua antiga casa e viu pessoas de luto. A velha senhora que a havia abrigado estava morta.

Mesmo assim, ela passou dançando. Dançava porque não podia deixar de dançar. Totalmente exausta e apavorada, ela entrou dançando numa floresta onde morava o carrasco da cidade. E o machado na parede começou a tremer assim que pressentiu que ela se aproximava.

— Por favor! — implorou ela ao carrasco quando passou pela sua porta. — Por favor, corte fora meus sapatos para me livrar desse destino horrível.

O carrasco cortou fora as tiras dos sapatos vermelhos com o machado, mas os sapatos não se soltaram dos pés da menina. Ela se lamentou, então, dizendo que sua vida não valia mesmo nada e que ele deveria amputar-lhe os pés. Foi o que ele fez.

Com isso, os sapatos vermelhos com os pés neles continuaram dançando floresta afora e morro acima até desaparecerem. A menina era, agora, uma pobre aleijada e teve de descobrir um jeito de sobreviver no mundo trabalhando como criada. E nunca mais ansiou por sapatos vermelhos.



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A perda brutal nos contos de fadas

A imagem brutal é um velho recurso para fazer com que o self emotivo preste atenção a uma mensagem muito séria.
"Os sapatinhos vermelhos" nos mostra como tem início uma deterioração e o estado a que chegamos se não tomamos qualquer iniciativa em defesa da nossa própria natureza selvagem. Que não reste dúvida, quando a mulher se esforça por intervir e combater seus próprios demônios, quaisquer que sejam eles, essa é uma guerra das mais valiosas, tanto em termos arquetípicos quanto nos da realidade consensual.
Apesar de os contos de fadas acabarem ao final de dez páginas, nossas vidas não acabam junto. Nós somos coleções de muitos volumes. Na nossa vida, mesmo que um episódio represente um desastre total, sempre há um outro episódio à nossa espera e depois mais outro. Há sempre outras oportunidades para acertar, para moldar nossa vida do jeito que merecemos que ela seja. Não percam tempo amaldiçoando alguma derrota. O fracasso é um mestre mais eficaz do que o sucesso. Ouçam, aprendam, insistam.

Os sapatinhos vermelhos feitos à mão

O símbolo dos sapatos pode ser interpretado como uma metáfora psicológica. Eles protegem e defendem o que é a nossa base — os nossos pés. No simbolismo dos arquétipos, os pés representam mobilidade e liberdade. Nesse sentido, ter sapatos para cobrir os pés é ter convicção nas nossas crenças e ter os meios necessários para segui-las. Sem sapatos psíquicos, a mulher é incapaz de transpor ambientes subjetivos ou objetivos que exijam perspicácia, bom senso, cautela e firmeza.
O fato de os sapatos serem vermelhos indica que o processo será de uma vida vibrante, o que inclui o sacrifício. Isso é justo e correto. O fato de esses sapatos serem feitos à mão e formados de retalhos demonstra que a criança simboliza o espírito criativo, que, sendo órfã e não tendo recebido ensinamentos por quaisquer motivos, conseguiu reunir os pedacinhos e formar os sapatos usando sua percepção inata. Muito bem! Uma bela e veemente afirmação.
Contudo, se a criança for deixada em paz, ela fará outro par de sapatos vermelhos, mais um e ainda outro, até que eles não saiam tão grosseiros. Ela irá progredir. No entanto, ainda superior à sua maravilhosa exibição de engenhosidade e à capacidade de prosperar em circunstâncias difíceis, o fato notável é que esses sapatos feitos por ela lhe proporcionaram uma alegria imensa, e a alegria é a seiva da vida, o alimento do espírito e a vida da alma reunidos num só.
No entanto, na história, como preferiu o destino, um dia, para se contrapor diretamente aos modestos sapatos vermelhos feitos de retalhos, à simples alegria de viver, chega rolando e estalando à vida da menina uma carruagem dourada.

As armadilhas

Armadilha n° l: A carruagem dourada, a vida desvalorizada

Do ponto de vista clássico, esse tipo de veículo de "transporte" é compreendido como a disposição central da psique, que nos transporta de um lado da psique para o outro, de uma idéia para outra, de um pensamento para outro e de uma iniciativa para outra.
O ato de subir na carruagem dourada da velha senhora nesse ponto é muito parecido com a entrada na gaiola dourada. Ela supostamente oferece algo mais confortável, menos estressante, mas na realidade sua função é a de cativeiro. Ela prende de um jeito imperceptível de imediato, já que a princípio os dourados costumam ser ofuscantes.
Isso ocorre muitas vezes na vida das mulheres. Estamos no meio de um empreendimento e não importa como nos sintamos a respeito dele. Estamos simplesmente criando nossa vida à medida que avançamos e fazendo o melhor possível. Logo, porém, somos inundadas por algo que nos diz, isso é muito difícil, mas olhe só aquela beleza logo ali; aquele negócio todo enfeitado parece ser mais fácil, mais bonito, mais irresistível. De repente, uma carruagem dourada se aproxima, a porta se abre, a escadinha cai e nós subimos. Fomos seduzidas. Essa tentação ocorre com regularidade, às vezes diariamente. E às vezes é difícil dizer não.
O desejo de facilitar a vida não é a armadilha, pois é natural que o ego tenha esse desejo. Ah, mas o preço. O preço é que é a armadilha. A armadilha se fecha quando a menina vai morar com a senhora velha e rica. Nessa casa, ela deverá ficar bem-comportada e em silêncio... Não lhe será permitido verbalizar nenhum anseio e, mais especificamente, não lhe será permitida a realização desse anseio. É o início da fome da alma para o espírito criativo.
O fato psíquico crucial continua a ser o de que nosso vínculo com o significado, com a paixão, com o envolvimento e com a natureza profunda é algo que precisamos proteger. Existem muitas coisas que tentam nos forçar, nos arrastar, nos seduzir para longe dos sapatos feitos à mão, que aparentam ser simples como quando dizemos: "numa outra hora, eu danço, planto, abraço, procuro, planejo, aprendo, faço as pazes, limpo... numa outra hora." Só armadilhas.

Armadilha n° 2: A velha secarrona, a força senescente


Na psicologia junguiana tradicional, a figura arquetípica do idoso é às vezes chamada de força "senex". Em latim, senex significa "velho". Com maior propriedade e sem a atribuição de gênero, o símbolo do idoso pode ser compreendido como a força senescente: aquilo que age de um modo peculiar aos idosos.
A velha senhora nessa história não é sábia, mas se dedica, sim, à repetição de um único valor sem experimentos nem renovação.
Através de todas as cenas localizadas na igreja, concluímos que esse valor único é o de que a opinião do coletivo importa mais do que qualquer coisa e deveria superar as necessidades da alma selvagem individual.
Independente de quaisquer influências ou afiliações com grupos, nosso desafio em defesa da alma selvagem e do nosso espírito criador consiste em não nos fundirmos com o coletivo, mas em nos distinguirmos dos que nos cercam, construindo pontes até eles à nossa escolha. Nós vamos decidir quais pontes irão se solidificar e ter muito movimento, e quais permanecerão em esboço e vazias. E os grupos com os quais devemos nos relacionar serão aqueles que proporcionarem maior apoio à nossa alma e à vida criativa.
A separação da vida e da mente de uma mulher de um pensamento coletivo nivelador e o desenvolvimento dos seus talentos exclusivos estão entre as realizações mais importantes que a mulher pode alcançar, pois esses atos impedem que tanto a psique quanto a alma caiam na escravidão. Uma cultura que promova genuinamente o desenvolvimento individual não pode jamais ter uma classe de escravos de qualquer grupo ou sexo.
Se nos afastarmos da nossa vida real e pulsante e entrarmos na carruagem dourada da velha senhora sem vida, estaremos na verdade adotando a persona e as ambições dessa frágil perfeccionista. Então, como todo animal em cativeiro, caímos numa tristeza que leva a uma anseio obsessivo, muitas vezes caracterizado como uma inquietação sem nome. Daí em diante, corremos o risco de nos agarrar à primeira coisa que promete fazer com que voltemos a nos sentir vivas.
É importante que mantenhamos os olhos abertos e que consideremos com cuidado as ofertas de uma existência mais fácil, de uma estrada sem problemas, especialmente se nos for pedido em troca que entreguemos a nossa própria alegria criadora a um forno crematório em vez de aquecê-la num fogo criado por nós mesmas.

Armadilha n° 3: A queima do tesouro, hambre del alma, a fome da alma


Existe o fogo que acompanha a alegria, e o fogo que acompanha a destruição. Um é o fogo da transformação; o outro, o fogo apenas da dizimação. No entanto, muitas mulheres renunciam aos seus sapatos vermelhos e concordam em se tornar limpas demais, educadas demais, submissas demais à visão de mundo das outras pessoas. Estamos entregando nossos alegres sapatos vermelhos ao fogo destrutivo quando digerimos valores, propagandas e filosofias por atacado, incluindo-se aí as de natureza psicológica. Os sapatos vermelhos são reduzidos a cinzas quando pintamos, atuamos, escrevemos, agimos e somos de qualquer modo que diminua as nossas vidas, que enfraqueça a nossa visão, que alquebre os ossos do nosso espírito.
É então que a vida da mulher é dominada pela palidez porque ela está com hambre del alma; é uma alma faminta. Tudo o que ela quer é ter de volta sua vida profunda. Tudo o que ela quer é aquele par de sapatos vermelhos feitos à mão. A enorme alegria que eles representam poderia ter sido extinta no fogo da falta de uso ou no da desvalorização do nosso próprio trabalho. Eles também poderiam ter ardido nas chamas do silêncio que impomos a nós mesmas.
Viver no estado de hambre del alma, de alma faminta, é sentir uma fome insaciável. Nessa situação, a mulher arde de fome por qualquer coisa que a faça voltar a se sentir viva. A mulher que foi capturada não sabe o que fazer e aceita alguma coisa, qualquer coisa, que lhe pareça semelhante ao tesouro original, seja para o seu bem ou não. A mulher que foi privada da sua verdadeira vida da alma pode dar a impressão de estar "limpa e penteada", mas por dentro ela está repleta de dezenas de mãos que imploram e de bocas vazias.
A aniquilação através de excessos, ou seja, os comportamentos exagerados, é a reação da mulher que está faminta por uma vida que tenha significado e faça sentido para ela. Quando uma mulher passou longos períodos sem seus ciclos ou sem suprir suas necessidades criativas, ela começa a se exceder — seja no que for —: álcool, drogas, raiva, espiritualidade, opressão generalizada, promiscuidade, gravidezes, estudo, criação, controle, instrução, organização, forma física, comidas pouco saudáveis, para citar apenas algumas áreas em que os excessos são comuns. Quando a mulher age assim, ela está procurando compensar a perda dos ciclos regulares de expressão de si mesma, expressão da alma, da satisfação da alma.
A mulher recém-liberta da fome só quer gozar a vida, para variar. Suas percepções embotadas no que diz respeito aos limites financeiros, espirituais, físicos, racionais e emocionais necessários para a sobrevivência colocam em risco sua existência. Para ela, há em algum lugar um belo e perigoso par de sapatos vermelhos. Ela os apanhará onde os encontrar. É esse o problema da privação. Se alguma coisa der a impressão de preencher o anseio, a mulher a agarrará, sem fazer perguntas.

Armadilha n° 4: Danos aos instintos básicos, a conseqüência do
cativeiro

Etimologicamente, a palavra instinto deriva do latim instinguere, que significa incitar ou induzir uma inspiração inata, bem como de instinctus, que significa "impulso". A idéia do instinto pode ser valorizada como alguma coisa interna que quando mesclada com a previsão e a consciência, orienta os seres humanos no sentido de um comportamento integral. A mulher nasce com todos os instintos intactos.

E quando a velha senhora, uma presença inibidora, considera a obra do espírito criador um lixo, em vez de um bem, e queima os sapatos vermelhos, a menina fica mais do que calada. Ela se entristece, que é o estado esperado quando o espírito criativo é isolado da vida profunda natural. Pior que isso, o instinto da criança para fugir dessa aflição fica embotado a ponto de desaparecer. Em vez de ter como objetivo uma nova vida, ela fica presa numa poça de cola psíquica. A recusa a tentar fugir, quando essa atitude é plenamente justificada, causa a depressão. Mais uma armadilha.

No entanto, o excesso de domesticação se assemelha a proibir que a essência vital saia dançando. Em seu estado saudável e característico, o Self selvagem não é dócil e vazio. Ele é alerta e sensível a qualquer movimento ou momento. Ele não se prende a um modelo absoluto e repetitivo para toda e qualquer circunstância. Ele tem opções criativas. A mulher cujos instintos estão prejudicados não tem escolha. Ela simplesmente fica impossibilitada de prosseguir.

Com o comportamento restrito ao "bom", não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa. Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico; a suspeitar do que for novo e incomum; a evitar o que for inovador, vital, veemente; a despersonalizar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.

A recuperação do instinto ferido começa com o reconhecimento de que a captura ocorreu, de que uma fome da alma se seguiu, de que os limites normais de insight e proteção foram perturbados. É preciso reverter o processo que causou a captura da mulher e a conseqüente fome. Antes de mais nada, porém, muitas mulheres passam pêlos estágios que se seguem, como está descrito na história.


Armadilha nº 5: A tentativa de ocultar uma vida secreta, a divisão


Nesse momento na história, ocorre um dos episódios mais reveladores da repressão psíquica. O voraz desejo da criança pela alma destrói as trancas do seu comportamento reprimido. Na sapataria, ela faz passar os estranhos sapatos vermelhos sem que a velha senhora note. Uma fome devoradora pela vida da alma veio à tona na sua psique, apanhando qualquer coisa que lhe caia nas mãos, pois ela sabe que logo voltará a ser reprimida.

Segundo a psicologia analítica, a repressão de sentimentos, instintos e impulsos tanto negativos quanto positivos, forçando-os para o fundo do inconsciente, faz com que eles ocupem o reino da sombra. Embora o ego e superego continuem tentando censurar os impulsos da sombra, a própria pressão causada por essa repressão se assemelha muito a uma bolha na lateral de um pneu. Com o tempo, à medida que o pneu gira e se aquece, a pressão por trás da bolha aumenta e provoca uma explosão, que libera todo o ar do seu interior.

Esses aspectos rejeitados, desvalorizados e "inaceitáveis" da alma e do self não ficam simplesmente ali parados nas trevas, mas conspiram para decidir quando e como farão uma tentativa para alcançar a liberdade. Eles borbulham ali no inconsciente, em fervilhante ebulição, até que um dia, não importa se a tampa que os cobre esteja bem fechada ou não, explodem em todas as direções num caudal descontrolado e com vontade própria.

Quando quem cria pára pelo motivo que seja, a energia que chega naturalmente a ela é desviada para o mundo oculto, a partir do qual ela vem à tona quando e onde consegue. Como a mulher percebe que não pode se dedicar abertamente àquilo que deseja, ela começa a levar uma estranha vida dupla, simulando um comportamento à luz do dia, agindo de outro modo quando tem a oportunidade.

Pode-se dar o nome que se quiser, mas ter uma vida secreta porque a vida real não tem espaço suficiente para vicejar é prejudicial à vitalidade da mulher.

Na história, a menina consegue fazer passar os sapatos pela velha senhora de pouca visão. Nesse ponto afirma-se que o próprio sistema de valores rígido e perfeccionista não possui a capacidade de ver bem, de estar alerta para o que acontece ao seu redor. É típico da psique ferida, assim como da cultura nas mesmas condições, não perceber a aflição pessoal do self. E assim a jovem faz mais uma escolha infeliz em meio a uma série de outras.

Quando a mulher se sente obrigada a viver às ocultas, ela está pondo para funcionar um modo de subsistência mínima. Ela oculta a vida para que "eles" não ouçam, quem quer que "eles" sejam na sua vida. Superficialmente, ela aparenta desinteresse e tranqüilidade mas, sempre que surge uma réstia de luz, sua alma esfaimada dá um salto, persegue a forma de vida mais próxima, alegra-se, dá coices, avança loucamente, dança como uma boba, fica exausta e depois tenta se esgueirar de volta à cela sombria antes que alguém perceba sua ausência.

Na história, o sapateiro é um prenúncio do velho soldado, que mais tarde transmite vida aos sapatos que dançam até enlouquecer quem os calça. Há muitos pontos coincidentes entre esse personagem e o que sabemos da simbologia antiga para que o consideremos um mero espectador. O predador natural no interior da psique (e também aquele pertencente à cultura) é um mutante, uma força capaz de se disfarçar, da mesma forma que as armadilhas, arapucas e iscas envenenadas são disfarçadas para seduzir os desavisados. Devemos levar em consideração que ele transforma em brincadeira o ato de enganar a velha senhora. Não, é provável que ele seja cúmplice do soldado, que é obviamente uma descrição do diabo disfarçado. Nos velhos tempos, o diabo, o soldado, o sapateiro, o corcunda e outros eram imagens usadas para retratar as forças negativas tanto na natureza da terra quanto na natureza humana.

A partir dessa perspectiva, é preciso que perguntemos a cada estágio como acabou acontecendo que qualquer mulher específica tenha a sensação de precisar ser servil, retrair-se, humilhar-se e implorar por uma vida que, para começo de conversa, já lhe pertence. Um exame das pressões criadas em cada camada do mundo objetivo e do subjetivo irá evitar que a mulher imagine ser uma opção construtiva apanhar em segredo os sapatinhos do diabo.

Armadilha nº 6: O recuo diante do coletivo, a rebelião na sombra

A menina calça os sapatos vermelhos às escondidas, vai até a igreja, não presta nenhuma atenção ao alvoroço ao seu redor, é desprezada pela comunidade. Os habitantes da aldeia a denunciam. Ela é repreendida. Os sapatos vermelhos são retirados. É, porém, tarde demais. Ela foi fisgada. Não se trata ainda de uma obsessão, mas a questão é que o coletivo inspira e reforça sua fome interna ao exigir que ela capitule diante de seus valores estreitos.

Pode-se tentar levar uma vida secreta, mas mais cedo ou mais tarde o superego, um complexo negativo e/ou a própria cultura a atacarão. E difícil esconder algo proibido que lhe inspira voracidade. É difícil ocultar prazeres furtivos mesmo quando eles não são benéficos.

Ocasionalmente, o coletivo pressiona a mulher para ser uma santa, ser uma pessoa esclarecida, ser politicamente correta, ser controlada, para que cada uma das suas iniciativas resulte numa obra-prima. Se recuarmos diante do coletivo, cedendo às pressões no sentido de um conformismo irracional, estaremos protegidas do isolamento, mas, ao mesmo tempo, estaremos também traindo nossas vidas selvagens e as colocando em risco.

Para uma criança selvagem nascida numa comunidade de valores rígidos, a conseqüência normal é a de passar pela vergonha de ser evitada. É uma atitude em que a vítima é tratada como se não existisse. O ostracismo retira da pessoa que dele é vítima o interesse espiritual, o amor e outras necessidades psíquicas. A idéia é de forçar a vítima a se ajustar, e se isso não acontecer, destruí-la espiritualmente e/ou expulsá-la da aldeia para que definhe e morra nos ermos.

Precisamos lembrar que não se trata de a mulher reprimida se recusar a se ajustar, mas ela não poder se ajustar sem morrer. Sua integridade espiritual está em jogo, e ela tentará se livrar de todas as formas possíveis, mesmo daquelas que a coloquem em risco.

Não é só o ato singular que reformula uma coletividade encarquilhada, mas também a continuidade desses atos. Como me disse uma vez uma monja budista, "A água consegue furar a pedra".

Quando a mulher se recusa a dar apoio à coletividade árida, ela está se recusando a reprimir seu raciocínio selvagem, e seus atos seguem o mesmo caminho.

A história dos sapatinhos vermelhos na sua essência nos ensina que a psique selvagem precisa ser devidamente protegida — através de uma inequívoca valorização de nós mesmas, com uma defesa veemente dos seus interesses, com uma recusa a se submeter a situações psíquicas pouco saudáveis. Aprendemos, também, que o lado selvagem, por sua energia e beleza, está sempre na mira de alguém, de alguma instituição, de algum grupo, seja com o objetivo de transformá-lo em troféu, seja com o objetivo de submetê-lo a limitação, alteração, domínio, eliminação, reformulação ou controle. O lado selvagem precisa sempre de um guarda junto ao portão, ou poderá ser utilizado para fins impróprios.

Quando o coletivo é hostil à vida natural da mulher, em vez de aceitar os rótulos desrespeitados ou pejorativos que lhe são aplicados, ela pode e deve, como o patinho feio, resistir, agüentar e procurar aquilo a que ela pertence — e preferivelmente sobreviver a quem a rejeitou, vicejando e criando mais do que eles.

O fascínio da menina pelos sapatinhos vermelhos na realidade impede uma rebeldia significativa, uma que promova a mudança, que transmita uma mensagem, que provoque um despertar.

É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.


Armadilha nº 7: A simulação, a tentativa de ser boa, a trivialização do
anormal

Segundo a história, a menina é punida por usar os sapatos vermelhos para ir à igreja. Agora, embora ela fique olhando para os sapatos no alto da prateleira, ela não os toca. Até então ela tentou sem sua vida profunda, o que não funcionou. Em seguida, ela tentou ocultar uma vida dupla, o que também não funcionou. Agora, num último recurso, ela "tenta ser boazinha".

O problema com a decisão de "ser boazinha" está em que essa atitude não resolve a questão sombria subjacente, e mais uma vez ela se erguerá como um tsunami, como uma onda gigantesca, que desce veloz, destruindo tudo o que estiver à frente. Ao "ser boazinha", a mulher fecha os olhos a tudo que for empedernido, deformado ou maléfico à sua volta e simplesmente tenta "conviver" com esses aspectos. Seus esforços no sentido de aceitar esse estado anormal prejudicam ainda mais seus instintos selvagens para reagir, mostrar, mudar, combater o que não está certo, o que não é justo.

Tentar ser boa, disciplinada e submissa diante do perigo interno ou externo, ou a fim de esconder uma situação crítica psíquica ou no mundo objetivo, elimina a alma da mulher. É uma atitude que a isola do que sabe; que a isola da sua capacidade de agir. Como a criança na história, que não expressa em voz alta suas objeções, que tenta esconder sua privação, que tenta dar a impressão de que nada está dentro dela, as mulheres modernas passam pela mesma perturbação, a trivialização do que é anormal. Esse distúrbio está disseminado em todas as culturas. A trivialização do anormal faz com que o espírito, que em circunstâncias normais saltaria para corrigir a situação, afunde no tédio, na complacência e acabe, como a velha senhora, na cegueira.

A trivialização do que é anormal, mesmo quando existem claros indícios de que essa atitude seja prejudicial a nós mesmas, aplica-se a todos os maus-tratos infligidos às naturezas instintiva, espiritual, criativa, emocional e física. As mulheres enfrentam essa questão sempre que são desorientadas de modo a fazer qualquer coisa que não seja a defesa da sua vida profunda de projeções invasivas, culturais, psíquicas ou de outra natureza.

Com a recuperação do instinto ferido, rejeita-se essa trivialização do que é revoltante e violento. À medida que o instinto se restaura, a Mulher Selvagem retorna. Em vez de entrar dançando na floresta usando os sapatos vermelhos até que toda a sua vida passe a ficar torturada e desprovida de significado, podemos voltar à vida feita à mão, à vida plenamente atenta, podemos refazer os nossos próprios sapatos, caminhar o nosso caminho, falar a nossa própria fala.

Embora seja verdade que há muito a se aprender com a dissolução das nossas projeções (você é perverso, você me magoa) e com o exame de como somos perversas com nosso próprio self, como magoamos a nós mesmas, definitivamente esse não deveria ser o final da investigação.

A armadilha escondida dentro da armadilha consiste em Pensar que tudo está resolvido com a dissolução da projeção e com a descoberta da conscientização em nós mesmas. Isso às vezes é verdade; e às vezes não. Em vez de aplicar esse paradigma de exclusão — ou há algo de errado lá fora, ou algo de errado comigo — é mais útil aplicar um modelo de acréscimo. Essa é a questão interna, e essa é a questão externa.

Esse paradigma permite um exame completo e é muito mais saudável em todos os sentidos. Esse paradigma dá apoio às mulheres para que questionem o status quo com confiança e para que não olhem apenas para si mesmas, mas também para o mundo que as está pressionando por acaso, inconscientemente de propósito. O paradigma do acréscimo não se destina a ser usado como um modelo para atribuir culpa a si mesma ou a outros, mas é, sim, um meio de avaliar e julgar a responsabilidade, tanto interna quanto externa, e o que precisa ser alterado, procurado, esboçado. Ele impede a fragmentação da mulher que procura restaurar tudo que está ao seu alcance, sem negligenciar suas necessidades e sem se isolar do mundo.


Armadilha nº 8: A dança descontrolada, a obsessão e dependência

O velho de barba ruiva tamborilou nas solas dos sapatos da menina, e a vibração dessas cócegas pôs os pés da menina a dançar. Ela dança agora, ah, como dança, só que não consegue parar. Tanto a velha senhora, que supostamente deveria agir como guardião da psique, quanto a menina, que deveria exprimir a alegria da psique, estão completamente desvinculadas de todo instinto e bom senso.

A menina já tentou tudo: adaptar-se à velha senhora, não se adaptar, ser dissimulada, "ser boazinha", perder o controle e sair dançando, dominar-se e tentar voltar a ser boazinha. Nesse ponto, sua terrível privação do espírito e do significado mais uma vez a força a apanhar os sapatinhos vermelhos, a calçá-los e a começar sua última dança, a dança que a levará para o vazio da inconsciência.

Quando ela tenta entrar rodopiando no adro de uma igreja, há ali um espírito guardião que não lhe permite a entrada [...] O espírito guardião a encerra, portanto, numa obsessão que é análoga a uma dependência física.

Ela precisava somente de uma sábia imagem interna à qual pudesse se agarrar, um resquício de instinto que durasse até que ela pudesse dar início ao longo trabalho de reformulação do instinto e da percepção íntima. Ela só precisava dar ouvidos à voz selvagem que vive dentro de todas nós, a que sussurra, "fique aqui o bastante... fique o tempo necessário para reanimar sua esperança, para abandonar seu sangue-frio terminal, para renunciar a meias-verdades defensivas, para se insinuar, para abrir caminho com precisão ou com violência; fique aqui o suficiente para ver o que é bom para você, para se fortalecer, para fazer aquela tentativa que terá sucesso; fique aqui o suficiente para completar a corrida, não importa quanto tempo demore ou de que forma isso ocorra".


A dependência

Quando a mulher não tem consciência da própria privação, das conseqüências do uso de veículos e substâncias mortíferas, ela está dançando, dançando sem parar. Sejam eles o negativismo, os relacionamentos infelizes, as situações de exploração, sejam eles as drogas ou o álcool — eles são como os sapatos vermelhos; é dificílimo livrar a pessoa deles depois que eles se instalaram.

Nessa dependência compensatória dos excessos, a velha senhora da psique desempenha um papel importantíssimo. Ela foi cega como ela só. Agora adoece. Fica imóvel, deixando um perfeito vazio na psique. Agora não há mais ninguém para dar uns conselhos à psique desvairada. A velha senhora acaba morrendo mesmo, não deixando absolutamente nenhum local seguro na psique. E a menina dança. A princípio, ela vira os olhos de êxtase mas, logo, quando os sapatos a deixam exausta de tanto dançar, seus olhos viram de horror.

A natureza instintiva nos diz quando basta. Ela é prudente e protege a vida. A mulher não pode compensar toda uma vida de traições e mágoas entregando-se a excessos de prazer, de raiva ou de rejeição. Espera-se que a velha senhora na psique marque o tempo, espera-se que ela diga quando. Nessa história, a velha senhora está liquidada, arrasada.

A dependência e a ferocidade estão relacionadas. A maioria das mulheres esteve em cativeiro pelo menos por um curto período, e algumas por um tempo interminável. Algumas só foram livres in utero. Todas perdem parte do instinto durante esse período. Em algumas, fica prejudicado o instinto a respeito de quem é uma boa pessoa, e com freqüência essa mulher é induzida ao erro. Em outras, a capacidade de reagir à injustiça se vê radicalmente reduzida, e elas muitas vezes se transformam em mártires relutantes, prontas para a retaliação. Em outras ainda, o instinto de fugir ou enfrentar é enfraquecido, e elas se transformam em vítimas. A lista ainda continua. Por outro lado, a mulher em pleno uso de sua mente selvagem rejeita as convenções que não sejam propícias nem sensatas.

A dependência de substância química é uma verdadeira armadilha. As drogas e o álcool são muito parecidos com um amante violento que nos trata bem a princípio e depois nos espanca; pede desculpas, é gentil por algum tempo e de repente volta a nos espancar. A armadilha consiste em tentar ficar levando em conta o lado bom, enquanto procuramos ignorar o lado negativo. Isso está errado. Nunca poderia funcionar.

Uma mulher braba não tem força suficiente para assumir, no lugar de todo mundo, um arquétipo extremamente almejado sem entrar em colapso. A mulher braba está em processo de cura. Não costumamos pedir a um convalescente que carregue um piano escada acima. A mulher que está voltando precisa ter tempo para se fortalecer.

As pessoas que são apanhadas e levadas pelos sapatos vermelhos sempre começam pensando que qualquer substância da qual estejam dependentes representa uma forma ou outra de salvação. Às vezes isso lhes dá uma sensação de poder fantástico, ou uma falsa sensação de que têm energia para ficar acordadas a noite inteira, para criar até o amanhecer, para ficar sem comer. Ou talvez a dependência permita que elas durmam sem temer demônios internos, acalme seus nervos, ajude a que elas não se importem tanto com tudo aquilo com que tanto se importam ou, talvez, as ajude a não querer mais amar nem ser amada. No entanto, no final das contas, a dependência só cria, como vemos na história, uma paisagem borrada que gira com tal velocidade que no fundo não se está vivendo uma vida de verdade. A dependência é uma Baba Yaga enlouquecida que devora crianças perdidas e as deixa à porta do carrasco.

Na casa do carrasco

A tentativa de tirar os sapatos, tarde demais

Quando a natureza selvagem quase foi exterminada, nos casos mais extremos, é possível que uma deterioração esquizóide e/ou uma psicose possam dominar a mulher. De repente ela pode simplesmente ficar na cama, recusar-se a se levantar, vaguear de um lado para outro de roupão, esquecer distraída cigarros acesos, três em cada cinzeiro, chorar sem conseguir parar, passear descabelada pelas ruas, abandonar a família de repente para vaguear por aí. Ela pode ter tendências suicidas; ela pode se matar acidentalmente ou de propósito. No entanto e muito mais comum é o fato de a mulher simplesmente ficar entorpecida. Ela não se sente nem bem nem mal; apenas não sente nada.

E o que acontece com a mulher quando suas vibrantes cores psíquicas são mescladas? O que acontece quando se misturam o vermelho-escarlate, o azul-safira e o amarelo-topázio? Os pintores sabem. Quando alguém mistura cores vibrantes, o resultado é uma cor chamada lama. Não a lama que é fértil, mas uma lama que é estéril, sem cor, estranhamente pálida, que não emite luz. Quando o pintor cria lama na tela, ele precisa começar tudo de novo.

Essa é a parte difícil; é aí que os sapatos têm de ser arrancados à força. Dói o movimento de se isolar da dependência destrutiva. Ninguém sabe por quê. Seria de se esperar que as pessoas sentissem alívio. Seria de se esperar que elas se sentissem salvas no último instante. Seria de se esperar que elas se alegrassem. Mas não, elas entram em pânico, ouvem dentes rangendo e descobrem que são os seus próprios dentes que fazem esse barulho. Sentem que estão sangrando de certo modo, apesar de não se ver nenhum sangue. No entanto, é essa dor, essa separação, essa situação de não ter em que se afirmar, de não ter uma casa para onde voltar, é exatamente isso que é necessário para recomeçar, para voltar à vida feita à mão, aquela elaborada por nós com cuidado e atenção a cada dia.

É, a dor chega quando a pessoa se vê separada dos sapatinhos vermelhos. Essa separação é, porém, a nossa única esperança. Ela vem repleta de bênçãos incondicionais. Os pés vão crescer de novo; vamos descobrir nosso próprio caminho; vamos nos recuperar; um dia vamos voltar a correr, saltar e pular. Quando isso acontecer, a nossa vida feita à mão estará pronta. Nós a assumiremos e nos encheremos de espanto por termos tido a sorte de ter mais uma oportunidade.


O retorno à vida feita à mão, a cura dos instintos feridos

Em termos psíquicos, é bom criar um local intermediário, uma estação secundária, um lugar bem-escolhido, quando se escapa da fome. Não é demais tirar um ano ou dois, para avaliar os nossos ferimentos, procurar orientação, ministrar os medicamentos, meditar sobre o futuro. Um ano ou dois é um tempo limitado. A mulher braba é aquela que está tentando voltar. Ela está aprendendo a acordar, a prestar atenção, a parar de ser ingênua, desinformada. Ela apanha a vida nas próprias mãos. Para reaprender os instintos femininos profundos, é essencial, para começar, que se veja como eles foram destituídos.

Quer os danos tenham sido sofridos pela sua arte, pelas suas palavras, estilos de vida e pensamentos, quer pelas suas idéias, e se você tiver tricotado um pulôver de muitas mangas para si mesma, acabe com esse emaranhado e siga adiante. Para além dos anseios e desejos, para além dos métodos cuidadosamente ponderados que adoramos discutir e urdir, há uma simples porta à espera de que a cruzemos. Do outro lado, há pés novos. Vá até lá. Rasteje até lá se for necessário. Pare de falar e de se atormentar. Simplesmente aja.

Não temos controle sobre quem nos põe neste mundo. Não podemos influenciar a fluência com a qual nos criam; não podemos forçar a cultura a se tomar hospitaleira instantaneamente. No entanto, as boas notícias consistem em podermos reviver nossas vidas, mesmo depois de feridas, mesmo num estado feroz, mesmo que estejamos no cativeiro.

O projeto psicológico para voltar ao nosso self de direito é o seguinte: tenha extrema prudência e cuidado no sentido de se soltar aos poucos na selva, instalando uma estrutura ética ou de proteção com a qual você tenha acesso a meios para medir se há um excesso de alguma coisa. (Geralmente você já é bastante sensível para detectar quando há falta de alguma coisa.)

Portanto, a volta à psique livre e selvagem deve ser empreendida com ousadia, mas também com ponderação. Em psicanálise, gostamos de dizer que, para que alguém possa realmente ajudar/promover curas, é tão importante aprender o que não fazer quanto o que fazer. A volta ao estado selvagem depois do cativeiro exige as mesmas precauções. Examinemos esse movimento mais de perto.

A recuperação do instinto perdido e a cura do instinto ferido estão realmente ao nosso alcance, pois tudo volta quando a mulher presta mais atenção, ouvindo, olhando e pressentindo o mundo ao seu redor e, depois, agindo como vê os outros agindo, com competência, eficácia e dedicação. A oportunidade de observar outros que tenham instintos intactos é vital para esse resgate. Com o tempo, a observação, a atenção e o comportamento integrado transformam-se num modelo de ritmo próprio, um ritmo que se pratica até que ele seja reaprendido e volte a se tornar automático.

Se a nossa natureza selvagem foi ferida por alguma coisa, nós nos recusamos a nos deitar para morrer. Nós nos recusamos a trivializar esse ferimento. Invocamos os nossos instintos e fazemos o que tem de ser feito. A Mulher Selvagem é, por natureza, veemente e talentosa. No entanto, por ter sido separada dos seus instintos, ela é também ingênua, acostumada à violência, adaptável a ficar isolada tanto do pai quanto da mãe. Os amantes, as drogas, a bebida, o dinheiro, a fama e o poder não têm como abrandar os danos sofridos. No entanto, uma volta gradativa à vida instintiva tem condição de fazer isso. Para tal, a mulher precisa de uma mãe, uma mãe selvagem "boa o suficiente". E adivinhem quem está esperando para ser essa mãe? A Mulher Selvagem gostaria de saber o que está fazendo com que você demore tanto para chegar até ela, para realmente estar com ela, não apenas de vez em quando, mas com regularidade.

Se você estiver lutando para fazer algo a que dê valor, é importantíssimo que se cerque de pessoas que dêem apoio inequívoco ao seu trabalho. É tanto uma armadilha quanto um veneno ter supostos amigos que sofrem dos mesmos males mas não têm nenhum desejo verdadeiro de se curar. Esses tipos de amigos incentivam a pessoa a agir de modo escandaloso, fora dos seus ciclos naturais, fora de sincronia com suas necessidades profundas.

Uma mulher braba não pode se dar o luxo de ser ingênua. Por estar voltando à sua vida inata, ela deve considerar os excessos com um olhar cético e ficar alerta para os custos que eles representam para a alma, a psique e o instinto. Como os filhotes de lobo, vamos decorar as armadilhas, como são feitas e de que modo são armadas. É dessa forma que permanecemos livres.

Para corrigir tudo isso, vamos ressuscitar a Mulher Selvagem na nossa natureza inúmeras vezes, sempre que o pêndulo estiver muito inclinado numa direção ou na outra. Vamos saber quando há motivos para preocupação, pois em geral o equilíbrio amplia a nossa vida enquanto o desequilíbrio a limita.

Para manter a nossa alegria, às vezes temos de lutar por ela. Temos de nos fortalecer e ir fundo, combatendo da forma que considerarmos mais astuta. A fim de nos prepararmos para o sítio, podemos ter de abdicar de muitos confortos por algum tempo. Podemos viver sem a maioria das coisas por longos períodos, praticamente sem qualquer coisa, mas não sem a nossa alegria, não sem aqueles sapatos vermelhos feitos à mão.

O verdadeiro milagre da individuação e resgate da Mulher Selvagem está em que todas nós começamos o processo antes de estarmos prontas, antes de termos a força suficiente, o conhecimento suficiente. Começamos um diálogo com pensamentos e sentimentos que tanto nos tocam com delicadeza quanto trovejam dentro de nós. Reagimos antes de saber falar a língua, antes de saber as respostas e antes de saber exatamente com quem estamos falando.

No entanto, à semelhança da mãe loba que ensina seus filhotes a caçar e a ter cuidado, é essa a forma pela qual a Mulher Selvagem ganha corpo através de nós. Começamos a falar com a sua voz, adotando seu ponto de vista e seus valores. Ela nos ensina a enviar a mensagem da nossa volta a quem for como nós.

Conheço alguns escritores que têm este lema colado acima da sua escrivaninha. Conheço uma que o leva dobrado dentro do sapato. É um trecho de um poema de Charles Simic que serve de orientação definitiva para todas nós. "Quem não sabe uivar não encontrará sua matilha."

Se você quiser reconvocar a Mulher Selvagem, recuse-se a ficar no cativeiro. Com os instintos aguçados para ter equilíbrio, salte para onde bem entender, uive à vontade, apanhe o que estiver à mão, descubra tudo o que puder, deixe que seus olhos revelem seus sentimentos, examine tudo, veja o que puder ver. Dance usando sapatos vermelhos, mas certifique-se de que eles sejam os que você mesma fez à mão. Você será uma mulher cheia de vida.




terça-feira, 23 de junho de 2009

7 - La Mariposa, a Mulher-borboleta

CAPÍTULO 7
O corpo jubiloso: a carne selvagem



"Limitar a beleza e o valor do corpo a qualquer coisa inferior a essa magnificência é forçar o corpo a viver sem seu espírito de direito, sem sua forma legítima, seu direito ao regozijo. Ser considerada feia ou inaceitável porque a nossa beleza está fora da moda atual fere profundamente a alegria natural que pertence à natureza selvagem."

"É claro que a natureza instintiva das mulheres valoriza o corpo e o espírito muito mais por capacidade de vitalidade, sensibilidade e resistência do que por qualquer avaliação da aparência. Esse ponto de vista não pretende descartar aquilo que seja considerado belo por qualquer segmento da cultura, mas, sim, traçar um círculo mais amplo que inclua todas as formas de beleza, forma e função. "




"Para falar sobre o porder do corpo de um outro ângulo, tenho de lhes contar uma história, uma verdadeira e bem longa.

Há anos, os turistas atravessam barulhentos o enorme deserto norte-americano, cobrindo às pressas o 'circuito espiritual': Monument Valley, Chaco Canyon, Mesa Verde, Kayenta, Keams Canyon, Painted Desert e Canyon de Chelly. Eles espiam pela pelve do Mother Grand Canyon, abanam a cabeça, encolhem os ombros e voltam correndo para casa, só para no verão seguinte atravessar de novo o deserto, olhando, olhando um pouco mais, espiando, observando um pouco mais.

Subjacente a tudo isso está a mesma fome de experiência espiritual que os seres humanos sentiram desde o início dos tempos. Em alguns casos, porém, essa fome é exacerbada pois muitas pessoas perderam o contato com seus antepassados. É muito comum que elas não saibam os nomes dos que vieram antes dos seus avós. Perderam, em especial, as histórias das suas famílias. Em termos espirituais, essa situação provoca tristeza... e fome. Por isso, muitos estão tentando reciar algo de importante para o bem da alma.

Há anos, os turistas també vêm a Puyé, uma grande mesa poeirenta no 'fim do mundo', no Novo México. Aqui os Anasazi, os antigos, costumavam se chamar de uma mesa para a outra. Diz-se que na pré-história foi o mar que entalhou os milhares de bocas e olhos, sorridentes, debochados e queixosos, nas paredes rochosas daquele lugar.

Os descendentes dos navajos, dos jicarilla apaches, dos utes do sul, dos hopis, zunis, Santa Clara, Santa Domingo, Laguna, Picuris, Tesuque, de todas essas tribos do deserto, reúnem-se aqui. É aqui que eles conseguem voltar, através da dança, a pinheiros nativos, aos cervos, às águias e Katsinas, espíritos poderosos.
Para aqui também vêm visitantes, alguns dos quais estão privados dos seus mitos genealógicos, isolados da sua placenta espiritual. Eles também já se esqueceram dos seus deuses ancestrais. Por isso, vêm observar os que não se esqueceram.

A estrada que sobe até Puyé foi construída para cascos de cavalos e para os mocassins. Com o tempo, no entanto, os automóveis foram ficando mais potentes, e agora tanto os habitantes do local quanto os turistas chegam em todo tipo de carro, picape, caminhonete e conversível. Os veículos sobem pela estrada, guinchando o soltando fumaça, num desfile lento e empoeirado.

Todos estacionam trochimochi, de qualquer jeito, no terreno irregular. Antes do meio-dia, a borda da mesa dá a impressão de um angavetamento de mil carros. Há quem estacione bem junto a pés de malva-rosa de um metro e oitenta de altura, pensando que basta afastar os galhos da planta para sair do carro. Só que esses pés de malva-rosa são centenários e parecem feitos de ferro. Quem estaciona junto a eles fica preso dentro do carro.

Antes mesmo do meio-dia, o sol é uma fornalha acesa. Todos caminham pesadamente com sapatos que queimam os pés, carregando guarda-chuvas caso chova (o que vai acontecer), uma cadeira de armar de alumínio caso eles se cansem (o que também vai acontecer) e, se forem turistas, talvez uma máquina fotográfica (se lhes for permitido) e latinhas de filme penduradas no pescoço como se fossem fieiras de alho.

Os turistas vêm com todo tipo de expectativa, desde as sagradas até as profanas. Vêm ver algo que nem todos conseguirão ver, um exemplo do mais selvagem dentre os selvagens, um espírito vivo, La Mariposa, a Mulher-borboleta.

O último evento é a Dança da Borboleta. Todos aguardam com imenso prazer a tal dança de uma só pessoa. Ela é apresentada por uma mulher, e que mulher! Quando o sol começa a se pôr, aparece um velho resplandecente no seu traje de cor turquesa que deve pesar uns vinte quilos. Com os alto-falantes guinchando como um pintinho que detectou um falção, ele sussurra no microfone de cromo da década de 1930, 'E nossa próxima atração vai ser a Dança da Borboleta'. Ele se afasta arrastando no chão e bainha dos jeans.

Ao contrário de uma apresentação de balé, na qual o número é anunciado, as cortinas se abrem e os bailarinos aparecem, inseguros, aqui em Puyé, como em outras danças tribais, o anúncio formal da dança pode preceder a aparição da dançarina em desde vinte minutos a uma eternidade. Onde está ela? Arrumando seu trailer, quem sabe. Aqui são comuns temperaturas superiores a 40 graus centígrados, e são necessários retoques de última hora na maquiagem do corpo desmanchada pelo suor. Se um cinto da dança, que pertenceu ao avô da dançarina, se partir no caminho até a area, ela simplesmente não faria sua apresentação pois o espírito do cinto precisaria descansar. Os dançarinos também podem se atrasar porque está tocando uma ótima música na 'Hora índia de Tony Lujan' na rádio Taos, KKIT (em homenagem a Kit Carson).

Pode acontecer de um dançarino não ter ouvido o alto-falante e precisar ser chamado por mensageiro a pé. E depois é claro que o dançarino precisa falar com todos os parentes no caminho até a arena, e com a maior certeza deve parar para que seus sobrinhos e sobrinhas dêem uma boa olhada. Como as crianças ficam assombradas de ver um imponente espírito Katsina que desperta a suspeita de se parecer, pelo menos um pouco, com tio Tomás ou uma participante da dança do milho que dá a impressão de ser mesmo muito parecida com tia Yazie. Afinal, existe a possibilidade sempre presente de que o dançarino ainda esteja lá na rodovia de Tesuque, com as pernas balançando da goela escancarada de uma picape enquanto o escapamento polui o ar por mais de quilômetros a favor do vento.

Enquanto esperam a Dança da Borboleta num estado de agitação irrefreada, todos tagarelam acerca das virgens das borboletas e sobre a beleza das meninas zunis que dançaram num antigo traje vermelho e preto, de um ombro só, e com vibrantes círculos cor-de-rosa pintados nas faces. Elogiam, também, os rapazes da dança do cervo que se apresentaram com galhos de pinheiro amarrados aos braços e às pernas.

O tempo passa.

Passa.

E passa.

As pessoam sacodem moedas nos bolsos. Chupam os dentes. Os turistas ficam impacientes para ver essa maravilhosa bailarina borboleta.

Inesperadamente, já que todos estão pra lá de entediados, os braços do tocados de tambor começam a fazer soar o sagrado ritmo da borboleta, e os cantores do coiro começam a gritar para os deuses com toda a alma.

Para os turistas, uma borboleta é algo delicado. 'Ah, a frágil beleza", sonham eles. Por isso, ficam necessariamente abalados quando surge aos saltos Maria Lujan. E ela é grande, grande mesmo, como a Vênus de Willendorf, como a Mãe dos Dias, como a mulher heróica de Diego Rivera, que construiu a cidade do México com um simples voltear do seu pulso.

E Maria Lujan é velha, muitíssimo velha, como uma mulher que voltou do pó; velha como um rio velho; velha como os pinheiros nos pontos mais altos das montanhas. Um dos seus ombros está nu. Sua manta vermelha e preta, um vestido-saco, pula de um lado para o outro com ela dentro. Seu corpo pesado e suas pernas muito finas fazem com que ela lembre uma aranha saltitante envolta numa pamonha.

Ela salta num pé só, e depois no outro. Ela abana seu leque de penas por toda parte. Ela é A Borboleta que chegou para dar forças aos fracos. Ela é o que a maioria considera não ser forte; a velhice, a borboleta, o feminino.

O cabelo da Donzela Borboleta cai até o chão. Ele é denso como dez feixes de milho e é de um cinza de pedra. E ela usa asas de borboleta do tipo que se vê nas crianças que fazem papel de anjos em peças de escola. Seus quadris são como duas enormes cestas balouçantes e a parte carnuda do alto das nádegas é larga o suficiente para carregar duas crianças.

Ela salta, salta e salta, não como um coelho, mas em passinhos que ecoam.

- Estou aqui, aqui, aqui...

- Estou aqui, aqui, aqui...

- Acordem. Acordem. Acordem!

Ela abana o leque para cima e para baixo, salpicando a terra e o povo da terra com o espírito polinizador da borboleta. Suas pulseiras de conchas chocalham como cascavéis; suas ligas provisas de sinos produzem o som da chuva. Sua silhueta com sua grande barriga e pernas pequenas dança de um lado do círculo para o outro. Seus pés deixam pequenos remoínhos de poeira.

As tribos ficam reverentes, envolvidas. No entanto, alguns turistas olham uns para os outros, perguntando, aos sussurros, de aquilo é a Donzela Borboleta.

Eles estão perplexos, alguns até mesmo decepcionados. Parecem não mais lembrar de que o mundo dos espíritos é um lugar em que os lobos são mulheres, os ursos são maridos e as velhas de dimensões avantajadas são borboletas.

É, é apropriado que a Mulher Selvagem/Mulher-borboleta seja velha e corpulenta, pois ela traz o mundo dos trovões num seio, e o mundo subterrâneo no outro. Suas costas são a curva do planeta Terra com todos os seus frutos, alimentos e animais. Na sua nuca, ela traz o sol nascente e poente. Sua coxa esquerda guarda todos os pinheiros; sua coxa direita, todas as lobas do mundo. Em seu ventre estão todos os bebês que um dia ainda irão nascer.

A Donzela Borboleta é a força feminina fertilizadora. Ao transportar o pólen de um lugar para outro, ela fecunda por cruzamento, da mesma forma que os arquétipos fesrtilizam o mundo concreto. Ela é o centro. Ela aproxima os opostos ao tirar um pouco daqui e levá-lo para lá. A transformação não é nem um pouco mais complicada que isso. É essa a sua lição. É assim que a borboleta faz. É assim que a alma atua.

A Mulher-borboleta corrige a idéia equivocada de que a transformação é só para os torturados, para os santos, ou apenas para os tremendamente fortes. O elf não precisa mover montanhas para se transformar. Um pouco basta. Um pouco vai longe. Um pouco muda muita coisa. A força fertilizadorea substitui a movimentação de montanhas.

A Donzela Borboleta poliniza as almas da terra. É mais fácil do que vocês pensam, diz ela. Ela abana seu leque de penas e saltita porque está derramando pólen espiritual sobre todos os presentes, índios norte-americanos, criancinhas, turistas, todo mundo. Ela está usando seu corpo inteiro como uma bênção, esse seu corpo velho, frágil, grande, manchado, de pernas curtas e quase sem perscoço. Essa é a mulher vinculada à natureza selvagem, a intérprete da força instintiva, fertilizante, a que conserta, aque rcorda antigas idéias. Ela é La Voz Mitológica. Ela é a encarnação da Mulher Selvagem.

A intérprete da dança da borboleta tem de ser velha por representar a alma que é velha. Ela é larga da coxas e ancas por carregar tantas coisas. Seu cabelo grisalho garante que ela não precisa mais obedecer a tabus ligados ao contato com outras pessoas. É permitido que ela toque a todos: meninos, bebês, homens, mulheres, meninas, os idosos, os enfermos, os mortos. A Mulher-borboleta pode tocar qualquer pessoa. É seu privilégio de tocar a todos, afinal. Esse é o seu poder. Seu corpo é o de La Mariposa, a borboleta."

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"O corpo é como um planeta. Ele é uma terra por si só. Como qualquer paisagem, ele é vulnerável ao excesso de construções, a ser retalhado em lotes,e se ver isolado, esgotado e alijado do seu poder. A mulher mais selvagem não será facilmente influenciada por tentativas de urbanização. Para ela,as questões não são de forma, mas de sensação. O seio em todos os seus formatos tem função de sentir e de amamentar. Ele amamenta? Ele é sensível? Então é um seio bom.

Já os quadris são largos por um motivo. Dentro deles há um berço de marfim acetinado para a nova vida. Os quadris da mulher são estabilizadores para o corpo acima e abaixo deles. Eles são portais, são uma almofadinha opulenta, suportes para as mãos no amor, lugar para as crianças se esconderem. As pernas foram feitas para nos levar, às vezes para nos empurrar. Elas são as roldanas que nos ajudam a subir; são o anillo, o anel que abraça o amado. Elas não podem ser criticadas por serem muito isso ou muito aquilo. Elas simplesmente são.

No corpo não existe nada que 'devesse ser' de algum jeito. A questão não está no tamanho, no formato ou na idade, nem mesmo no fato de ter tudo aospares, pois algumas pessoas não têm. A questão selvagem está em saber se esse corpo sente, se ele tem um vínculo adequado com o prazer, com o coração, com a alma, com o mundo selvagem. Ele tem alegria, felicidade? Ele consegue ao seu modo se movimentar, dançar, gingar, balançar, investir? É só isso que importa."

"Há um verso em for colores girls who have considered suicide/ when the rainbow is enough, de Ntozake Shange. Na peça, a mulher de roxo fala depois de lutar para lidar com todos os aspectos físicos e psíquicos de si mesma que a cultura ignora ou deprecia. Ela resume com estas palavras sábias e pacíficas:


here is what i have...
poems
big thighs
lil tits
&
so much love

(é isso o que tenho.../poemas/coxas grossas/peito pequeno/&/tanto amor)

É esse o poder do corpo, o nosso poder, o poder da Mulher Selvagem. Nos mitos e contos de fadas, as divindades e outros espíritos poderosos testam o coração dos seres humanos ao aparecer sob diversas formas que disfarçam sua natureza divina. Aparecem usando mantos farrapos, faixas de prata ou com os pés enlameados. Aparecem com a pele morena como madeira escura, ou em escamas feitas de pétalas de rosas, como uma frágil criança, como uma velha de um amarelo-esverdeado, com um homem que não sabe falar ou como um animal que sabe. Os grandes poderes estão querendo descobrir se os seres humanos já aprenderam a reconhecer a grandeza da alma em todas as variações.

A Mulher Selvagem aparece em muitos tamanhos, formas, cores e condições. Mantenha-se alerta para poder reconhecer a alma selvagem em todos os seus inúmeros disfarces."

quinta-feira, 7 de maio de 2009

6 - O Patinho Feio

Capitulo 6
A procura da nossa turma: a sensação da integração como uma bênção.
O patinho feio: a descoberta daquilo a que pertencemos.

"Trata-se de uma história básica em termos psicológicos e espirituais. Uma história básica é aquela que contém uma verdade tão fundamental para o desenvolvimento humano que, sem a incorporação desse fato, o avanço se torna duvidoso e ninguém consegue prosperar sob aspecto psicológico enquanto não perceber essa verdade."




Já estava quase na época da colheita. As velhas faziam bonecas verdes com a palha do milho. Os velhos remendavam cobertores. As moças bordavam flores de um vermelho vivo nos seus vestidos brancos. Os rapazes cantavam enquanto empilhavam o feno dourado. As mulheres tricotavam blusões ásperos para o inverno que viria. Os homens ajudavam a colher, arrancar, cortar e ceifar os frutos que os campos haviam produzido. O vento apenas começava a soltar as folhas um pouco mais, e mais um pouco a cada dia que passava. E lá para os lados do rio, uma pata chocava uma ninhada de ovos.

Tudo estava indo como deveria para essa mãe pata e, afinal, um a um, os ovos começaram a tremer e sacudir até que as cascas racharam e deles saíram cambaleantes seus novos filhotes. Restava, porém, um ovo, um ovo muito grande. Ele estava ali parado como uma pedra.

Uma velha pata veio visitar, e a mãe pata exibiu seus filhotes.

- Eles não são lindos? - gabou-se ela. Mas o ovo ainda sem rachar chamou a atenção da velha pata, e esta tentou dissuadir a mãe de continuar a chocar aquele ovo.

- É um ovo de peru - exclamou a velha pata - Absolutamente não serve como ovo. Não se pode levar um peru para dentro d'água, você sabia? - Ela sabia, porque já havia tentado.

A mãe pata, no entanto, achou que estava chocando há tanto tempo que mais um pouquinho não ia fazer mal.

- Não estou preocupada com isso - disse ela. - Mas você sabia que o safado do pai desses patinhos ainda não veio me visitar uma vez sequer?

Afinal, o ovo grande começou a estremecer e a rolar. Acabou quebrando, e dele saiu uma criatura grande e desajeitada. Sua pele era marcada por veias sinuosas azuis e vermelhas. Seus pés eram de um roxo claro. Seus olhos, de um rosa transparente.

A mãe pata inclinou a cabeça, esticou o pescoço e o contemplou. Não pôde se conter: ele era feio mesmo. "Talvez seja mesmo um peru", preocupou-se ela. Contudo, quando o patinho feio entrou na água acompanhando os outros filhotes, a mãe pata viu que ele nadava muito bem. "É, ele é dos meus, apesar de ter essa aparência tão estranha. No fundo, porém, do ângulo certo... ele é quase bonito."

E assim ela o apresentou às outras criaturas do quintal da fazenda, mas, antes que percebesse, outro pato atravessou o quintal a toda e bicou o patinho feio bem no pescoço.

- Pare com isso! - gritou a mãe pata.

- Ora, ele é tão feio e esquisito. Ele precisa que o maltratem - retrucou o valentão.

- Oh, mais uma ninhada! Como se já não tivéssemos bocas demais a alimentar! - exclamou a pata rainha com o trapo vermelho na perna - E aquele lá, aquele grandão e feio. Bem, aquilo sem dúvida é um engano.

- Ele não é um engano - disse a mãe pata. - Ele vai ser muito forte. Foi só que ele ficou tempo demais dentro do ovo e ainda está meio deformado. Mas ele vai se recuperar. Vocês vão ver. - Ele limpou com o bico as penas do patinho feio e lambeu seu topete.

Os outros, no entanto, faziam o que podiam para importunar o patinho feio. Voavam para atacá-lo, bicavam-no e gritavam com ele. E à medida que o tempo passava, eles o atormentavam cada vez mais. Ele se escondia, se desviava, saía em ziguezague, mas não conseguia escapar. O patinho era a mais infeliz das criaturas.

A princípio, sua mãe o defendia, mas com o tempo até ela cansou daquilo tudo.

- Como eu queria que você fosse embora - exclamou exasperada. E foi assim que o patinho feio fugiu. Com a maior parte das suas penas arrancada e todo enlameado, ele correu e correu até chegar num pântano. Ali ele se deitou à beira d'água com o pescoço esticado e sorvia um pouco d'água de vez em quando.

Dos juncos dois gansos o observavam. Eram jovens e cheios de si.

- Ei, você aí, criatura horrorosa - disseram, rindo à socapa. - Quer vir conosco até o próximo condado? Há um bando de gansas solteiras por lá, prontas para serem escolhidas.

De repente ecoaram tiros. Os gansos caíram com um baque e a água do pântano ficou vermelha com seu sangue. O patinho feio mergulhou para se abrigar, e por toda a parte só havia tiros, fumaça e cães latindo.

Afinal, o pântano ficou tranquilo, e o patinho saiu correndo e voando a maior distância possível. Perto do anoitecer, ele chegou a um pobre casebre. A porta estava pendurada de um barbante, e havia mais fendas do que paredes. Ali vivia uma velha esfarrapada com seu gato desgrenhado e sua galinha vesga. O gato fazia jus a morar com a velha por apanhar camundongos. A galinha, por botar ovos.

A velha achou que estava com sorte por ter encontrado um pato. Talvez fosse uma pata e também botasse ovo sem se não fosse, podemos matá-lo para comer. E assim o pato ficou, mas ele era perseguido pelo gato e pela galinha.

- Para que você serve se não bota ovos e não sabe apanhar camundongos? - perguntavam-lhe os dois.

- O que mais gosto de fazer - disse o patinho com um suspiro - é ficar "debaixo", quer seja debaixo da amplidão azul do céu, quer debaixo do frescor azul da água. - O gato não via nenhum sentido em querer ficar debaixo d'água e criticou o patinho pelos seus sonhos idiotas. A galinha não conseguia ver a graça de ficar com as penas molhadas e também debochou do patinho. No final das contas, ficou claro que aqui também não haveria paz para o patinho, e por isso ele partiu para ver se as coisas podiam ser melhores mais adiante.

Ele encontrou por acaso um laguinho e, enquanto estava nadando, foi ficando cada vez mais frio. Um bando de aves passou voando lá em cima, as mais lindas que ele já havia visto. Elas gritaram para cumprimentá-lo, e ouvir suas vozes fez com que o coração do patinho saltasse e se apertasse ao mesmo tempo. Ele gritou de volta com uma voz que nunca havia emitido antes. Ele havia visto criaturas mais lindas, e nunca havia se sentido mais desolado.

Ele gritou e gritou na água para observá-las enquanto desapareciam nos céus e depois mergulhou até o fundo do lado e se aninhou trêmulo. Estava fora de si por sentir um amor desesperançado por aqueles enormes pássaros brancos, um amor que ele não conseguia entender.

Um vento mais frio começou a soprar e foi ficando cada vez mais forte com o passar dos dias. E a neve caiu sobre o gelo. Os velhos quebravam o gelo nos baldes de leite, e as velhas fiavam até tarde da noite. As mães alimentavam três bocas de cada vez à luz de velas, e os homens saíam à procura de ovelhas sob o céu branco da meia-noite. Os jovens entravam na neve até a cintura para ir ordenhar, e as moças imaginavam ver o rosto de rapazes bonitos nas chamas do fogão enquanto cozinhavam. E no lago ali por perto, o patinho precisava nadar casa vez mais rápido em círculos para manter um lugar aberto no gelo.

Um dia de manhã, o patinho se descobriu preso no gelo e foi aí que ele sentiu que ia morrer. Dois patos selvagens vieram voando e chegaram escorregando no gelo. Eles observam o patinho.

- Como você é feio - Grasnaram - Que pena. É uma tristeza. Não se pode fazer nada por alguém como você. - E saíram voando.

Felizmente, um lavrador passou por ali e libertou o patinho quebrando o gelo com seu cajado. Ele levantou o patinho, abrigou-o no casaco e voltou para casa. Na casa do lavrador, as crianças quiseram pegar o patinho, mas ele teve medo. Voou até os caibros do telhado, fazendo com que toda a poeira caísse na manteiga. De lá de cima, ele mergulhou direto para dentro do balde de leite e, enquato ia saindo todo molhado e grudento, caiu no barril com uma vassoura enquanto as crianças riam a mais não poder.

O patinho saiu agitado pela porta do gato e, lá fora afinal, caiu quase morto na neve. Dali, ele se forçou a prosseguir até chegar a mais um lago, a mais uma casa, a outro lago, a outra casa, e o inverno inteiro transcorreu dessa forma, alternando entre a vida e a morte.

Mesmo assim, a brisa suave da primavera voltou. As velhas vieram arejar os acolchoados, e os velhos guardaram suas ceroulas compridas. Novos bebês chegavam no meio da noite, enquanto seus pais andavam de um lado para outro no quintal, debaixo do ceú estrelado. Durante o dia, as moças enfiavam narcisos nos cabelos, e os rapazes examinavam os tornozelos femininos. E num lago por ali, a àgua ficou mais agradável e o patinho feio que nela boiava abriu as asas.

Como eram grandes e fortes as suas asas. Elas o levaram bem para o alto acima da terra. Dos céus, ele via os pomares com seus mantos brancos, os lavradores arando, os jovens de toda a natureza saindo da casca, tropeçando, zumbindo e nadando. Também brincando na água do lago havia visto três cisnes, as mesmas criaturas maravilhosas que ele havia visto no outono; aquelas que lhe haviam causando um aperto tão forte no coração. Ele sentiu um impulso de se unir a elas.

E se fingissem que gostam de mim, e depois, assim que eu me aproximar, saírem voando às risadas? pensou o patinho. Ele desceu planando o pousou no lago, com o coração batendo forte.

Assim que o viram, os cisnes começaram a nadar na sua direção. Sem dúvida, estou a ponto de encontrar meu fim, pensou o patinho, mas, se tenho de ser morto, melhor que seja por essas lindas criaturas do que pela mão de caçadores, donas-de-casa ou longos invernos. E abaixou a cabeça para aguardar os golpes.

Que surpresa! Na imagem na água ele viu um cisne em traje a rigor: plumagem branca como a neve, olhos escuros e tudo mais. O patinho feio a princípio não se reconheceu porque era exatamente igual aos belos estranhos, igual àqueles que ele havia admirado de longe.

E acabou se revelando que ele era um deles no final das contas. Seu ovo por acaso havia rolado para um ninho de patos. Ele era um cisne, um cisne magnífico. E pela primeira vez sua própria família se aproximava dele, tocando-o com cuidado e carinho com as pontas das asas. Eles lhe limparam as penas com seus bicos e nadaram muito ao seu redor para cumprimentá-lo.

- Ei, tem mais um cisne! - gritaram as crianças que vinham trazer migalhas de pão para os cisnes. Como costumavam fazer as crianças de qualquer lugar, elas correram para contar a todos. As velhas vieram até a beira d'água, destrançando seus longos cabelos prateados. Os rapazes juntaram nas mãos em taça um pouco de água limpa e a atiravam na direção das moças, que enrubeciam como pétalas. Os homens tiraram uma folga da ordenha só para tomar um pouco daquele ar. As mulheres pararam um pouco de remendar só para rir com seus parceiros. E os velhos começaram a contar histórias sobre como a guerra é longa e a vida é curta.

E um a um, fosse pela vida, pela paixão, fosse porque o tempo estava passando, todos se afastaram dançando. Os rapazes, as moças, todos foram embora dançando. Os mais velhos, os maridos, as esposas, todos foram embora dançando. As crianças e os cisnes também se afastaram dançando... deixando alí só nós... a primavera... e mais uma mãe pata chocando seus ovos junto ao rio.

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"'O patinho feio' tem muitas versões, todas contendo o mesmo número de significados; mas cada uma, cercada de diferentes enfeites e franjas que refletem o meio cultural da história bem como o talento poético de cada narrador.

Os significados básicos que nos interessam são os seguintes: o patinho da história simboliza a natureza selvagem, que, quando forçada a enfrentar circunstâncias pouco propícias, luta instintivamente para continuar viva apesar de tudo. A natureza selvagem sabe instintivamente agüentar e resistir, às vezes com elegância, às vezes sem muito estilo, mas resistindo assim mesmo. Graças a Deus por esse aspecto. Para a mulher selvagem, a continuidade é uma das suas maiores forças.

Outro aspecto importante da história é o que, quando a vibração específica da alma de um indivíduo, que tem tanto uma identidade instintiva quanto uma espiritual, é cercada de aceitação e reconhecimento psíquico, a pessoa sente a vida e a força como nunca sentiu antes. Descobrir com certeza qual é a sua verdadeira família psíquica proporciona ao indivíduo a vitalidade e a sensação de pertencer a um todo."


A rejeição à criança diferente

"As meninas que demosntram ter uma forte natureza instintiva muitas vezes passam por sofrimentos significativos no início da vida. Desde a época em que são bebês, são mantidas presas, domesticadas, e ouvem dizer que são inconscientes ou teimosas. Suas naturezas selvagens revelam-se bem cedo. Elas são curiosas, habilidosas e possuem excentricidades leves de vários tipos, características estas que, se desenvolvidas, constituiriam a base para sua criatividade para o resto das suas vidas. Considerando-se que a vida criativa é o alimento e a água para a alma, esse desenvolvimento básico é de importância dolorosamente crítica.

Geralmente, o isolamento precoce começa sem que seja por nenhuma culpa da criança e é exacerbado pela incompreensão, pela crueldade da ignorância ou pela perversidade proposital dos outros. Nesse caso, o self básico da psique é ferido desde cedo. Quando isso acontece, a menina começa a acreditar que as imagens negativas dela mesma, refetida pela família e pela cultura em que vive, são não só verdadeiras mas também totalmente isentas de preconceito, de influência da opinião e de preferências pessoais. A menina começa a acreditar que ela é fraca, feia, inaceitável, e que isso continuará a ser verdade não importa o esforço que ela faça para reverter a situação.

A menina é rejeitada pelos mesmos motivos que vemos na história do patinho feio. Em muitas culturas, existe uma expectativa, quando nasce uma filha, de que ela é ou será um certo tipo de pessoa, que aja de um certo modo consagrado pelo tempo, que siga um certo conjunto de valores que, se não forem idênticos aos da família, pelo menos se baseiem nos valores da família, e que seja como for não abale os alicerces. Essas expectativas têm definições muito estritas quando um dos pais, ou ambos, sofre do desejo de ter um 'anjo de filha', a criança 'perfeita' e obediente."

"Nem a criança, nem sua psique, podem, aceitar essa situação. A pressão no sentido de se 'adequar', seja qual for a definição que a atutoridade dê ao padrão, pode perseguir a criança até que ela fuja para longe, para um mundo oculto ou para vaguear muito tempo à procura de um lugar para se abrigar e viver em paz.

Quando a cultura define detalhadamente no que consiste o sucesso ou a perfeição desejável sob qualquer aspecto - na aparência, na altura, na força, na forma física, no poder aquisitivo, na economia, na masculinidade, na feminilidade, na atitude de bom filho, no bom comportamento, na crença religiosa - existem ditames correspondentes e tendências à avaliação na psique de todos os seus membros. Portanto, as questões da mulher selvagem rejeitada geralmente são duplas: a íntima e pessoal, e a externa e cultural."

segunda-feira, 13 de abril de 2009

5 - A Mulher-esqueleto

Capitulo 5
A caçada: quando o coração é um caçador solitário.
A Mulher-esqueleto: encarando a natureza de vida-morte-vida do amor



"A Mulher-Esqueleto é uma história de caça a respeito do amor. Nas histórias do norte, o amor não é um encontro romântico entre dois amantes. As histórias são regiões próximas ao pólo descrevem o amor como a união entre dois seres cuja força reunida permite a um deles, ou a ambos, a entrada em comunicação com o mundo da alma e a participação no destino como uma dança com a vida e a morte."


"Para que se crie um amor duradouro, a Mulher-Esqueleto precisa ser aceita no relacionamento e abraçada pelos dois amantes. Aqui, nesta antiga história do povo inuit, estão os estágios psíquicos para o domínio desse abraço."




"Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as correntes.

Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de que a enseada era mal-assombrada.

O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu - logo em que! - nos ossos das costelas da Mulher-esqueleto. O pescador pensou: “Oba, agora peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!” Na sua imaginação, ele já via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá em baixo lutava para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície, puxada pelos ossos das próprias costelas.

O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado a superfície e caia suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos. - Agh! - gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho forte.

- Agh! - berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar loucamente na direção
da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o tempo todo até a praia.Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela continuava ali atrás.Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.


- Aaagggggghhhh! - uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um salto ele estava fora da embarcação e saia correndo agarrado a vara de pescar.E o cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso a linha de pescar, vinha aos solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou.Ele atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus mukluks.

O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito, muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou se direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses, Raven, é, graças a Raven, é, e também a todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.

Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela - aquilo - jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro,um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um que de delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.


- Oh, na, na, na. - Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.- Oh, na, na, na. - Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser humano.


Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra - não tinha coragem - para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá em baixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.

O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava sonhando.Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o homem.

A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima a luz do fogo, e de repente ela sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e retinindo,e pôs a boca junto a lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela bebeu,bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou a batucar dos dois lados do coração: Bom, Bomm!... Bom, Bomm!

Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.

- Carne, carne, carne! Carne, carne, carne!- E quanto mais cantava, mais seu corpo se revestia de carne.Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.

Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro,enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água.As pessoas garantem que é verdade e que é só isso o que sabem."

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"Essa história é uma imagem adequada para o problema do amor moderno, o medo da natureza da vida-morte-vida, em especial do aspecto morte. Em geral grande parte da cultura ocidental, o personagem original da natureza da morte foi encoberto por vários dogmas e doutrinas até o ponto em que se separou de vez da sua outra metade, a vida. Fomos ensinados, equivocadamente, a aceitar a forma mutilada de um dos aspectos mais básicos e profundos da natureza selvagem. Aprendemos que a morte é sempre acompanhada de mais morte. Isso simplesmente não é verdade. A morte está sempre no processo de incubar uma vida nova, mesmo quando nossa existência foi retalhada até os ossos.

Em vez de considerar os arquétipos da morte e da vida como opostos, devemos encará-los juntos como o lado esquerdo e direito de um único pensamento. É fato que dentro de um único relacionamento amoroso existem muitos finais. Mesmo assim, de algum modo e em algum ponto na delicadas camadas do ser criado quando duas pessoas se amam, existe um coração e um alento. Enquanto um coração esvazia, o outro enche. Quando uma respiração termina, outra se inicia."

As primeiras fases do amor

A descoberta acidental do tesouro

"...creio que essa história tem seu valor quando é compreendida como uma série de sete tarefas que ensinam uma alma a amar outra profundamente. São elas a descoberta da outra pessoa como uma espécie de tesouro espiritual, muito embora a princípio não se perceba exatamente o que foi encontrado. Em seguida, na maioria dos relacionamentos, vem a caça e a tentativa de ocultação, um tempo de esperanças e receios para os dois lados. Depois, vem a tarefa de desenredar e compreender os aspectos da vida-morte-vida do relacionamento e a compaixão dessa tarefa. Segue-se a confiança que gera o relaxamento, a capacidade de descansar na presença do outro e da sua boa vontade, acompanhada de um período de compartilhamento dos sonhos futuros bem como de tristezas passadas, sendo esse o início da cura de ferimentos arcaicos relacionados ao amor. Finalmente, o uso do coração para fazer brotar uma nova vida e a fusão do corpo e da alma."

"Repetidas vezes observo um fenômeno em amantes, independente do sexo. Seria mais ou menos assim: duas pessoas começam uma dança para ver se elas vão querer se amar. De repente, a Mulher-esqueleto é fisgada por acaso. Algo no relacionamento começa a diminuir e cai em entropia. Com frequência, o doloroso prazer da excitação sexual se abranda, um passa a perceber o lado frágil e ferido do outro, ou ainda um deixa de ver o outro como 'material digno de admiração', e é aí que a velha careca e de dentes amarelos vem à tona."


A perseguição e a tentiva de se ocultar

"A fase de correr e de se esconder é o período no qual os amantes tentam racionalizar seu medo dos ciclos de amor da vida-morte-vida. Eles dizem 'Posso me dar melhor com outra pessoa', 'Não quero renunciar a meu (preencha a lacuna) _____', 'Não quero mudar a minha vida', 'Não quero encarar minhas feridas, nem as de ninguém mais', 'Ainda não estou pronto' ou ainda 'Não quero ser transformado sem primeiro saber nos ínfimos detalhes como vou ficar/me sentir depois.'

É uma fase em que os pensamentos ficam todos confusos, quando se quer procurar um abrigo a todo custo e quando o coração bate, não tanto por amar ou por se sentir amado, quanto por um terror humilhante. Ser encurralado pela Morte! O horror de enfrentar a força da vida-morte-vida pessoalmente! Ai, ai!"

"Pois nesse ponto A Morte persegue o homem pelas águas, cruzando a fronteira entre o inconsciente e a terra firme da mente consciente. A psique consciente percebe o que fisgou e tenta desesperadamente correr mais do que a presa. Constantemente agimos assim nas nossas vidas. Algo de apavorante mostra sua cara. Nós não estamos prestando atenção e continuamos a puxar a linha, imaginando se tratar de uma boa pesca. É um achado, mas não do tipo que estávamos imaginando. É um tesouro que infelizmente aprendemos a temer. Por isso, tentamos fugir ou jogá-lo de volta; tentamos embelezá-lo ou torná-lo o que não é. Isso, porém, nunca funciona. No final todos temos de beijar a megera."


Desembaraçando o esqueleto

"O pescador demonstra sua boa intenção, sua força e seu envolvimento crescente com a Mulher-esqueleto ao desemaranhá-la. Ele olha para ela toda dobrada para um lado e para outro e vê nela um vislumbre de algo, ele nem sabe de quê. Ele havia fugido dela, ofegante e soluçante. Agora ele cogita tocar nela. Só por existir, ela de algum modo está tocando o coração do pescador. Quando compreendermos a solidão da natureza da vida-morte-vida, que é constantemente rejeitada, embora não por culpa sua... então talvez possamos nos sentir tocados pelo seu sofrimento.

Se for ao amor que estivermos nos dedicando, muito embora nos sintamos apreensivos ou assustados, estaremos dispostos a desembaraçar a linha dos ossos da natureza da morte. Estaremos dispostos a tocar o não-tão-belo no outro e em nós mesmos."

"Desemaranhar a Mulher-esqueleto é começar a quebrar o encanto -ou seja, o medo de sermos consumidos, de morrermos para sempre. Em termos arquetípicos, desemaranhar algo é empreender uma descida, seguir por um labirinto, penetrar no mundo subterrâneo ou no lugar em que as coisas são reveladas de uma forma inteiramente nova, ser capaz de acompanhar um processo complexo. Nos contos de fadas, soltar a faixa, desfazer o nó, desemaranhar e desenredar representam começar a entender algo, a entender suas aplicações e usos, a se tornar um mago, uma alma sábia."


O sono da confiança

"Nesse estágio do relacionamento, o amante volta ao estado de inocência, estado no qual ele ainda se amedronta com os elementos emocionais, no qual ele está cheio de desejos, esperanças e sonhos. A inocência é diferente da ingenuidade. No interior existe um ditado: 'A ignorância é não saber nada e ser atraído pelo bem. A inocência é saber tudo e ainda assim ser atraído pelo bem'.

Vejamos até onde chegamos. O pescador-caçador trouxe a natureza da vida-morte-vida para a superfície. Contra sua própria vontade, ele foi 'perseguido' por ela; mas ele também conseguiu encará-la. Sentiu pena do seu estado emaranhado e a tocou. Tudo isso o leva a uma participação plena. Tudo isso o leva a uma transformação, ao amor.

Embora a imagem do sono possa indicar o inconsciente, nesse caso ele simboliza a criação e a renovação. O sono é o símbolo do renascimento. Nos mitos da criação, as almas adormecem enquanto se realiza uma transformação de uma duração determinada, pois no sono nós nos recriamos, nos renovamos."

"Existe uma prudência que é verdadeira, quando o perigo está por perto, e uma prudência que não tem justificativa e que se origina de algum ferimento anterior. Esta última faz com que os homens ajam de modo irritadiço e desinteressado mesmo quando eles sentem que gostariam de demonstrar carinho e afeto. As pessoas têm medo de 'ser ludibriadas' ou de 'entrar num beco sem saída' - ou que não param de voiciferar seus direito de querer 'ser livre' - são as que deixam o ouro escapar por entre os dedos."

"Às vezes não existem palavras que estimulem a coragem. Às vezes é preciso simplesmente mergulhar. Tem de haver em algum ponto da vida de um homem um período em que ele confie na direção que o amor o levar, em que ele tenha mais medo de ficar confinado a algum leito rachado do rio seco da psique do que de estar solto num território exuberante porém inexplorado. Quando uma vida é excessivamente controlada, cada vez há menos vida a controlar.

Nesse estágio de inocência, o pescador volta a ser uma alma criança, pois no seu sono ele está ileso e não existe a recordação do que aconteceu ontem ou antes. No seu sono, ele não está lutando para assumir algum lugar ou posição. No sono, ele se renova."

"A única confiança necessária é a de saber que, quando ocorre um final, vai surgir um novo começo."

As fases posteriores do amor

O coração como tambor e o canto para criar a vida

"
Quando a Mulher-esqueleto se vale do coração do pescador, ela está usando o centro motor da psique interna, o único órgão de real importância, o único capaz de gerar sentimento puro e inocente. Diz-se que é a mente que pensa e cria. Essa história afirma o contrário, que é o coração que pensa e convoca as moléculas, átomos, sentimentos, anseios e o que mais seja necessário, até o único lugar a fim de gerar a matéria que realize a criação da Mulher-esqueleto.

A história contém uma promessa: permita que a Mulher-esqueleto se torne mais palpável na sua vida, e ela em troca engrandecerá sua vida. Quando a libertamos como mestra e amante, ela passa a ser uma aliada e uma parceira."

"Quando um homem entrega seu coração por inteiro, ele se torna uma força espantosa - ele se torna uma inspiração, papel que no passado era reservado apenas às mulheres. Quando a Mulher-esqueleto dorme com ele, ele se torna fértil. Ele é investido com poderes femininos num meio masculino. Ele passa a levar as sementes da nova vida e das mortes necessárias. Ele inspira novos trabalhos a si mesmo, mas também àqueles que estão por perto."


A dança do corpo e da alma

"Às vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos. Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços - todos no mesmo relacuionamento."

"Para fazer amor, se queremos amar, bailamos con La Muerte, dançamos com a Morte. Haverá enchentes, haverá secas; haverá recém-nascidos, natimortos e ainda renascimento de algo novo. Amar é aprender os passos. Fazer amor é dançar a dança."

"Nessa história há duas transformações, a do caçador e a da Mulher-esqueleto. Em termos modernos, a transformação do caçador sera mais ou menos como o que se segue. A princípio, ele é o caçador inconsciente. 'Oi, sou só eu. Estou pensando e cuidando da minha vida.' Depois ele passa a ser o caçador assustado, em fuga. 'O quê? Você me quer? Bem, acho que está na hora de eu ir andando.' Mais tarde, ele reconsidera, começa a desenredar seus sentimentos e descobre um meio de se relacionar com ela. 'Parece que a minha alma é atraída por você. Quem é você, no fundo? Qual é a sua estrutura?'

Em seguida, ele adormece. 'Vou confiar em você. Vou me permitir expôr minha inocência.' Com isso, sua lágrima de sentimento profundo é revelada e alimenta a Mulher-esqueleto. 'Esperei muito tempo por você.' Seu coração é emprestado para criá-la por inteiro. 'Pronto, tome meu coração e conquiste a vida na minha vida.' E assim o caçador-pescador é recompensado com o amor. Essa é a trsnformação típica de uma pessoa que aprende a amar."

"Deduzimos da história que a doação do corpo é uma das últimas fases do amor. É assim que deve ser. É bom dominar os primeiros estágios do encontro com a natureza da vida-morte-vida e deixar para depois as experiências práticas do corpo-a-corpo. Advirto as mulheres para que não aceitem um amante que salte de uma fisgada acidental para a doação do corpo. Insistam no cumprimento de todas as fases. Assim, a última fase virá por si só. A ocasião para a união dos corpos chegará na hora certa."

segunda-feira, 23 de março de 2009

4 - Manawee

Capitulo 4
O parceiro: a união com o outro
Um hino para o Homem Selvagem: Manawee






"Se as mulheres querem que os homens as conheçam, elas têm de lhes ensinar algo do seu conhecimento profundo. (...) Quando os homens demonstram essa disposição, é a hora de fazer revelações; não apenas a esmo, mas porque mais uma alma perguntou. Vocês verão que é assim. Seguem-se, portanto, alguns dos pontos que irão tornar mais fácil para um homem compreender, para que ele venha na direção da mulher. É uma linguagem, a nossa linguagem."





Era uma vez um homem que vinha cortejar duas irmãs gêmeas.
- Você não poderá se casar com elas a não ser que consiga adivinhar seus nomes - dizia, porém, o pai das moças.
Manawee tentava e tentava, mas não conseguia adivinhar os nomes das irmãs. O pai das moças abanava a cabeça e mandava Manawee embora todas as vezes.
Um dia Manawee levou seu cachorrinho junto numa visita de adivinhação, e o cachorro percebeu que uma irmã era mais bonita do que a outra e que a outra era mais delicada do que a primeira. Embora nenhuma das duas irmãs possuísse todas as virtudes, o cachorrinho gostou muito delas porque elas lhe deram petiscos e sorriam olhando fundo nos seus olhos.
Também naquele dia Manawee não conseguiu adivinhar os nomes das jovens e voltou irritado para casa. O cachorrinho, porém, voltou correndo para a choupana das irmãs. Ali ele enfiou a orelha por baixo de uma das paredes laterais e ouviu as moças dando risinhos e falando sobre como Manawee era bonito e másculo. Enquanto falavam, as irmãs se chamavam mutuamente pelo nome, e o cachorrinho, tendo ouvido, voltou correndo com a maior velocidade possível para seu dono para lhe passar a informação.
No caminho, porém, um leão havia deixado um grande osso ainda com carne perto do caminho, e o minúsculo cachorrinho sentiu imediatamente o cheiro, não pensou em mais nada e se desviou mato a dentro arrastando o osso. Ali, ele lambeu e mordiscou o osso com grande prazer até que todo o sabor desapareceu. Ah! O pequeno cãozinho de repente se lembrou da tarefa esquecida, mas infelizmente ele também havia esquecido os nomes das moças.
Por isso, ele correu de volta à choupana das gêmeas e dessa vez já era de noite e as jovens estavam passando óleo nos braços e pernas uma na outra e se arrumando como se fosse para uma festa. mais uma vez o cãozinho as ouviu chamando-se mutuamente pelo nome. Ele deu pulos de alegria e estava correndo pelo caminho afora na direção da choupana de Manawee quando do meio do mato veio o aroma de noz-moscada fresca.
Ora, não havia nada que o cachorrinho adorasse mais do que noz-moscada. Por isso, se desviou um pouco do caminho e correu para o lugar onde uma bela torta de laranjas estava esfriando em cima de uma tora. Bem, logo a torta já não existia mais, e o cachorrinho tinha um adorável hálito de noz-moscada. Enquanto trotava de volta para casa com a pança cheia, tentou pensar nos nomes das moças, mas, mais uma vez, ele os havia esquecido.
Finalmente, o cachorrinho tornou a voltar correndo até a choupana das irmãs, e dessa vez as irmãs estavam se preparando para casar. "Ah, não!" pensou o cachorrinho, "quase não tenho mais tempo." E, quando as irmãs se chamaram pelo nome, ele guardou os nomes na mente e saiu em disparada, com a determinação resoluta e absoluta de que nada iria impedi-lo de transferir os preciosos nomes a Manawee imediatamente.
O cãozinho vislumbrou caça pequena recém morta no caminho, mas a ignorou e saltou por cima dela. Por um instante, pareceu-lhe sentir o aroma de noz-moscada no ar, mas ele o ignorou e preferiu continuar correndo na direção da sua casa e do seu dono. No entando, ele não contava com a possibilidade de um estranho de negro saltar do mato, agarrá-lo pelo pescoço e sacudi-lo ao ponto de seu rabo quase cair. Pois, foi o que aconteceu.
- Diga-me aqueles nomes! Diga-me os nomes das moças para que eu as possa conquistar - gritava o estranho o tempo todo.
O cãozinho achou que ia desmaiar com aquele punho lhe apertando o pescoço, mas lutou com bravura. Ele rosnou, arranhou, esperneou e, afinal, mordeu o estranho entre os dedos. Os dentes do animal picavam como vespas. O estranho berrava como um búfalo-da-índia, mas o cãozinho não soltava. O estranho correu pelo mato adentro com o cãozinho pendurado numa das mãos.
- Solte-me, solte-me, cãozinho, e eu o soltarei - implorou o estranho de negro.
- Não volte por aqui - rosnou entre dentes o cãozinho - ou não verá mais a luz do dia. - E assim o estranho fugiu pelo mato, gemendo enquanto corria. O cachorrinho prosseguiu meio mancando, meio correndo, pelo caminho até encontrar Manawee.
Muito embora seu pêlo estivesse sujo de sangue e suas mandíbulas doessem, os nomes das jovens estavam bem nítidos na sua mente, e ele se aproximou de Manawee, claudicante, mas feliz da vida. Manawee correu de volta até a aldeia das moças com o cachorrinho nos ombros, e as orelhas do cachorro dançavam ao vento como rabos de cavalos.
Quando Manawee chegou até o pai com os nomes das filhas, as gêmeas receberam Manawee completamente vestidas para viajar com ele. Elas haviam estado à sua espera o tempo todo. Foi assim que Manawee conquistou duas das donzelas mais belas da região. E todos os quatro, as irmãs, Manawee e o cãozinho, viveram juntos em paz por muito tempo.
Krik Krak Krout, now this story is out.
Krik Krak Krun, now this story is done.

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A natureza dual das mulheres:
"A história decifra um segredo antiquíssimo das mulheres, que é o seguinte: para conquistar o coração de uma Mulher Selvagem, seu parceiro deve entender profundamente sua dualidade natural. (...) Essa história fala do mistério de duas poderosas forças femininas numa única mulher.
Qualquer um que seja íntimo de uma Mulher Selvagem está de fato na presença de duas mulheres: um ser exterior e uma criatura interior, um que habita o mundo terreno, e o outro que vive num mundo não tão visível. O ser exterior vive à luz do dia e é observado com facilidade. Muitas vezes é uma pessoa pragmática, aculturada e muito humana. Já a criatura costuma chegar à superfície vindo de muito longe e com frequência aparece e desaparece rapidamente, embora sempre deixe uma sensação: algo de surpreendente, original e sagaz."

A força de ser dois:
"Se a mulher esconde um dos lados ou privilegia um dos lado em demasia, ela tem uma vida desequilibrada que não lhe permite acesso ao seu pleno poder (...) É necessário desenvolver os dois lados."
"Em algumas culturas, existe toda uma disciplina dedicada ao equilíbrio da natureza dos gêmeos, pois eles são considerados como duas entidades que compartilham uma alma."
"O poder de ser dois é muito forte, e nenhum dos dois lados deve ser negligenciado.
Sozinho o self mais civilizado vive bem... mas sente certa solidão. Sozinho, o self selvagem também vive bem, mas anseia pelo relacionamento com o outro. A perda dos poderes psicológicos, emocionais e espirituais das mulheres tem como origem a separação dessas duas naturezas..."
"O poder de ser dois está em agir como uma entidade una."
"Manawee deseja tocar essa combinação misteriosíssima e onipresente da vida da alma na mulher, e ele dispõe de uma soberania própria. Já que ele próprio é um homem natural, ligado ao selvagem, ele tem uma sintonia com a mulher selvagem e sente atração por ela (...) Manawee, quer esteja no mundo interior, quer no mundo exterior, representa um amante novo mas cheio de fé, cujo desejo principal é o de indentificar e compreender o numinoso duplo na natureza feminina."

O poder do nome:
Nas culturas em que os nomes são escolhidos com cuidado pelo seu significado mágico ou auspicioso, saber o verdadeiro nome de uma pessoa representa conhecer a trajetória da vida e os atributos da alma daquela pessoa."
"Ele está interessado em saber seus nomes, não para se apoderar do poder delas, mas, sim, para conquistar um poder pessoal igual ao delas. Conhecer os nomes representa adquirir consciência acerca da natureza dual e retê-la."
"Quando nomeamos, descobrimos significados pessoais e ocultos bem como a beleza selvagem de ser mulher, não importando as personalidades dos aspectos opostos. Essa identificação e esse vínculo são chamados, em termos humanos, de amor a si mesmo. Quando ele ocorre entre dois indivíduos, é chamado de amor pelo outro."


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

3 - Vasalisa, a sabida

Capitulo 3
Farejando os fatos: o resgate da intuição como iniciação
A boneca de bolso: Vasalisa, a sabida








"Ele fala de como infundir nas mulheres o poder instintivo básico da Mulher Selvagem: a intuição."







Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cerana sacristia da igreja dali de perto. Sua filinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam parq eu Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo.
A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajuelhou-se ao lado da mãe.
- Essa boneca é para você, meu amor - sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalina, usava botas vermelhas, a vental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida.
- Estas são as minhas últimas palavras querida - disse a mãe. - Se você se perder ou precisar de ajuda, pergunte a boneca o que fazer. Você receberá ajuda. Guarde sempre a boneca. Não fale a ninguém sobre ela. Dê-lhe de comer quando ela estiver com fome. Essa é a minha promessa de mãe para você, minha bênção querida. - E, com essas palavras, a respiração da mãe mergulhou nas profundezas do seu corpo, onde recolheu sua alma, e saiu correndo pelos lábios; e a mãe morreu.
A criança e o pai choraram sua morte muito tempo. No entanto, como o campo arrasado pela guerra, a vida do pai voltou a verdejar por entre os sulcos e ele desposou uima viúva com duas filhas. Embora a nova madrasta e suas filhas fossem gentis e sorrissem como damas, havia algo de corrosivo por trás dos sorrisos que o pai de Vasalisa não percebia.
Realmemente, quando as três estavam sozinhas com Vasalisa, elas a atormentavam, forçavam-na a lhes servir de criada, mandavam-na cortar lenha para que sua pele delicada se ferisse. Elas a detestavam porque Vasalisa tinha uma doçura que não parecia deste mundo. Ela era também muito bonita. Seus seios eram fartos, enquanto os delas definhavam de maldade. Ela era solícita e não se queixava, enquanto a madrasta e as duas filhas eram, entre si mesmas, como ratos no monte de lixo à noite.
Um dia a madrasta e suas filhas simplesmente não conseguiam aguentar Vasalisa.
- Vamos... combinar de deixar o fogo se apagar e, então, vamos mandar Vasalisa entrar na floresta para ir pedir fogo para nossa lareira a Baba Yaga, a bruxa. E, quando ela chegar até Baba Yaga, bem, a velha irá matá-la e comê-la. - As três bateram palmas e guincharam como animais que vivem na escuridão.
Por isso, naquela noite, quando Vasalisa voltou para casa depois de catar lenha a casa estava completamente às escuras. Ela ficou muito preocupada e falou com a madrasta.
- O que aconteceu? Como vamos fazer para cozinhar? O que vamos fazer para oluminar as trevas?
- Sua imbecil - reclamou a madrasta. - É claro que não temos fogo. E eu não posso sair para o bosque devido à minha idade. Minhas filhas não podem ir porque têm medo. Você é a única que tem condições de sair floresta adentro para encontrar Baba Yaga e conseguir dela uma brasa para acender nosso fogo de novo.
- Ora, está bem - respondeu Vasalisa inocente. - É o que vou fazer. - E foi mesmo. A folresta ia ficando cada vez mais escura, e os gravetos estalavam sob seus pés, deixando-a assustada. Ela enfiou a mão bem fundo no bolso do avental, e ali estava a boneca que a mãe ao morrer lhe havia dado.
- Só de tocar nessa boneca, já me sinto melhor - disse Vasalisa, acariciando a boneca no bolso.
A cada bifurcação da estrada, vasalisa enfiava a mão no bolso e consultava a boneca. "Bem, eu devo ia para a esquerda ou para a direita?" A boneca respondia "Sim", "Não", "Para esse lado" ou "Para aquele lado". E Vasalisa dava à boneca um pouco de pão enquanto ia caminhando, seguindo o que sentia estar emanando da boneca.
De repente, um homem de branco num cavalo branco passou galopando, e o dia nasceu. Mais adiante, um homem de vermelho passou montado num cavalo vermelho, e o sol apareceu. Vasalisa caminhou e caminhou e, bem na hora em que estava chegando ao casebre de Baba Yaga, um cavaleiro vestido de negro passou trotando e entrou no casebre. Imediatamente fez-se noite. A cerca feita de caveiras e ossos ao redor da choupada começou a refulgir com um fogo interno de tal forma que a floresta ficou iluminada com a luz espectral.
Ora, Baba Yaga era uma criatura muito terrível. Ela viajava, não num coche, nem numa carruagem, mas num caldeirão com o formato de um gral que voava sozinho. Ela remava esse veículo com um remo que parecia um pilão e o tempo todo varria o rastro por onde passava com uma vassoura feita do cabelo de alguém morto há muito tempo.
E o caldeirão veio voando pelo céu, com o próprio cabelo sebento de Baba Yaga na esteira. Seu queixo comprido era curvado para cima e seu longo nariz era curvado para baixo, de modo que os dois se encontravam a meio caminho. Baba Yaga tinha um ínfimo cavanhaque branco e verrugas na pele adquiridas de seus contatos com sapos. Suas unhas manchadas de marrom eram grossas e estriadas como telhados, e tão compridas e recurvas que ela não conseguia fechar a mão.
Ainda mais estranha era a casa de Baba Yaga. Ela ficava em cima de enormes pernas de galinha, amarelas e escamosas, e andava de um lado para o outro sozinha. Ela às vezes girava como uma bailarina em transe. As cavilhas nas portas e janelas eram feitas de dedos humanos, das mãos e dos pés, e a tranca da porta da frente era um focinho com muitos dentes pontiagudos.
Vasalisa consultou a boneca. "É essa a casa que procurávamos?" E a boneca, a seu modo, respondeu: "É, é essa a que procurávamos." E antes que ela pudesse dar mais um passo, Baba Yaga no seu caldeirão desceu sobre Vasalisa, aos gritos.
- O que você quer?
- Vovó, vim apanhar fogo - respondeu a menina, estremecendo. - Está frio na minha casa... o meu pessoal vai morrer... preciso de fogo.
- Ah, sssssei - retrucou Baba Yaga, rabugenta. - Conheço você e o seu pessoal. Bem, criança inútil... você deixou o fogo se apagar. O que é muita imprudência. Além do mais, o que faz pensar que eu lhe daria uma chama?
- Porque eu estou pedindo - respondeu rápido Vasalisa depois de consultar a boneca.
- Você tem sorte - ronrolnou Baba Yaga - Essa é a resposta certa.
E Vasalisa se sentiu com muita sorte por ter acertado a resposta. Baba Yaga, porém, a ameaçou.
- Não há a menor possibilidade de eu lhe dar o fogo antes de você fazer algum trabalho para mim. Se você realizar essas tarefas para mim, receberá o fogo. Se não... - E nesse ponto Vasalisa viu que os olhos de Baba Yaga de repente se transformavam em brasas. - Se não, minha filha, você morrerá.
E assim Baba Yaga entrou pesadamente no casebre, deitou-se na cama e mandou que Vasalisa lhe trouxesse a comida que estava no forno. No forno havia comida suficiente para dez pessoas, e a Yaga comeu tudo, deixando uma pequena migalha e um dedal de sopa para Vasalisa.
- Lave minha roupa, carra a casa e o quintal, prepare minha comida, separe o milho mofado do milho bom e certifique-se que está tudo em ordem. Volto mais tarde para inspecionar seu trabalho. Se tudo não estiver pronto, você será meu banquete. - E com isso Baba Yaga partiu voando no seu caldeir]ao com o nariz lhe servindo de bitura e o cabelo, de vela. E anoiteceu novamente.
Vasalisa voltou-se para a boneca assim que Yaga se foi.
- O que vou fazer? Vou conseguir cumprir as tarefas a tempo? - A boneca disse que sim e recomendou que ela comesse algo e fosse dormir. Vasalisa deu algo de comer à boneca também e adormeceu.
Pela manhã, a boneca havia feito todo o trabalho, e só faltava preparar a refeição. Á noite, a Yaga voltou e não encontrou nada por fazer. Satisfeita, de certo modo, mas irritada por não conseguir encontrar nenhuma falha, Baba Yaga zombou de Vasalisa.
- Você é uma menina de sorte. - Ela, então, convocou seus fiéis criados para moer o milho, e três pares de mãos apareceram em pleno ar e começaram a respar e esmagar o milho. Os resíduos pairavam no ar como uma neve dourada. Finalmente o serviço terminou, e Baba Yaga se sentou para comer. Comeu horas a fio e deu ordens a Vasalisa que lavasse a roupa.
- Naquele monte de estrume - disse a Yaga, apontando para um enorme monte de estrume no quintal - há muitas sementes de papoula, milhões de sementes de papoula. Amanhã quero encontrar um monte de sementes de papoula e um monte de estrume, completamente separados um do outro. Compreendeu?
- Meu Deus, como vou fazer isso? - exclamou Vasalisa, quase desmaiando.
- Não se preocupe, eu me encarrego - sussurrou a boneca, quando a menina enfiou a mão no bolso.
Naquela noite, Baba Yaga adormeceu roncando, e Vasalisa tentou... catar... as... sementes de papoula... do... meio... do... estrume.
- Durma agora - disse-lhe a boneca, depois de algum tempo. - Tudo vai dar certo.
Mais uma vez, a boneca executou todas as tarefas e, quando a velha voltou, tudo estava pronto.
- Ora, ora! Que sorte a sua de conseguir acabar tudo! - disse Baba Yaga, falando sarcástica pelo nariz. Ela chamou seus criados para prensar o óleo das semantes, e novamente três pares de mãos apareceram e cumpriram a tarefa.
Enquanto a Yaga estava besuntando os lábios na gordura do cozindo, Vasalisa ficou parada por perto.
- E aí, o que é que você está olhando? - prguntou Baba Yaga, de mau humor.
- Posso lhe fazer umas perguntas, vovó? - perguntou Vasalisa.
- Pergunte - ordenou a Yaga -, mas lembre-se, saber demais envelhece as pessoas antes do tempo.
Vasalisa perguntou quem era o homem de branco no cavalo branco.
- Ah - respondeu a Yaga, com carinho. - Esse primeiro é o meu Dia.
- E o homem de vermelho no cavalo Vermelho?
- Ah, esse é o meu Sol Nascente.
- E o homem de negro no cavalo negro?
- Ah, sim, esse é o terceiro e ele é minha Noite.
- Entendi - disse Vasalisa
- Vamos, vamos, minha criança. Não queres fazer mais perguntas? - sugeriu a Yaga, manhosa.
Vasalisa estava a ponto de perguntar sobre os pares de mãos que apareciam e desapareciam, mas a boneca começou a saltar dentro do bolso e, em vez disso, Vasalisa respondeu.
- Não, vovó. Como a senhora mesma diz, saber demais pode envelhecer a pessoa antes da hora.
- É - disse Yaga, inclinando a cabeça como um passarinho -, você é muito ajuizada para a sua idade, menina. Como conseguiu isso?
- Foi a bênção da minha mãe - disse Vasalisa, com um sorriso.
- Bênção?! - guinchou Baba Yaga - Bênção?! Não precisamos de bênção nenhuma aqui nesta casa. É melhor você procurar seu caminho, filha. - E foi empurrando Vasalisa para o lado de fora - Vou lhe dizer uma coisa, menina. Olhe aqui! - Baba Yaga tirou uma caveira de olhos candentes da cerca e a enfiou numa vara. - Pronto! Leve esta caveira na vara até sua casa. Isso! Esse é o seu fogo. Não diga mais uma palavra sequer. Só vá embora.
Vasalisa ia agradecer à Yaga, mas a bonequinha no fundo do bolso começou a saltar para cima e para baixo, e Vasalisa percebeu que devia só apanhar o fogo e ir embora. Ela voltou correndo para casa, seguindo as curvas e voltas da estrada com a boneca lhe indicando o caminho. Era noite, e Vasalisa atravessou a floresta com a caveira numa vara, com o brilho do fogo saindo pelos buracos dos ouvidos, dos olhos, do nariz e da boca. De repente, ela sentiu medo dessa luz espectral e pensou em jogá-la fora, mas a caveira falou com ela, incistindo para que se acalmasse e prosseguisse para casa da madrasta e das filhas.
Quando Vasalisa ia se aproximando da casa, a madrasta e suas filhas olharam pela janela e viram uma luz estranha que vinha dançando pela mata. Cada vez chagava mais perto. Elas não podiam imaginar o que aquilo seria. Já haviam concluído que a longa ausência de Vasalisa indicava que ela a essa altura estava morta, que seus ossos haviam sido carregados por animais, e que bom que ela favia desaparecido!
Vasalisa chegava cada vez mais perto de casa. E, quando a madrasta e suas filhas viram que era ela, correram na sua direção dizendo que estavam sem fogo desde que ela havia saído e que, por mais que tentassem acender um, ele sempre se extingua.
Casalisa entrou na casa, sentindo-se vitoriosa por ter sobrevivido à sua perigoda jornada e por ter trazido o fogo para casa. No entando, a caveira na vara ficou observando cada movimento da madrasta e das duas filhas, queimando-as por dentro. Antes de amanhecer, ela havia reduzido a cinzas aquele trio perverso.

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"Para compreender uma história dessas, consideramos que todos os seus componentes representam a psique de uma única mulher. Desse modo, todos os aspectos da história pertecem a uma única psique que passa por um processo de iniciação. A iniciação é representada pelo cumprimento de certas tarefas. Nesse conto, há nove tarefas a serem cumpridas pela psique. Elas se concentram na aprendizagem dos hábitos da Velha Mãe Selvagem."

"A Primeira Tarefa - Permitir a morte da mãe-boa-demais"

"As tarefas psíquicas desse estágio na vida da mulher são as seguintes: aceitar o fato de que a mãe psíquica protetora, sempre vigilante, não é adequada para ser um guia para a futura vida instintiva da pessoa (a mãe-boa-demais morre). Assumir a realidade de estar só, de desenvolver a própria conscientização quanto ao perigo, às intrigas, à política. Tornar-se alerta sozinha, para seu próprio proveito; deixar morrer o que deve morrer. À medida que a mãe-boa-demais morre, a nova mulher nasce."

"A Segunda Tarefa - Denunciar a natureza sombria

Nessa parte da história, a família da madrasta má e detestável entra no mundo de Vasalisa, tornando sua vida uma desgraça. São as seguintes as tarefas desse período: aprender ainda com maior conscientização a largar a mãe excessivamente positiva. Descobrir que ser boazinha, que ser gentil e simpática não fará a vida florir. (Vasalisa torna-se escrava, masi isso de nada adianta.) Vivenciar diretamente a própria natureza sombria, especialmente os aspectos exploradores, ciumentos e rejeitadores do self (a madrasta e suas filhas). Incorporar esses aspectos. Criar o melhor relacionamento possível com as piores partes de si mesma. Deixar acumular a tensão entre quem se aprendeu a ser e quem se é realmente. Trabalhar, afinal, no sentido de deixar morrer o velho self para que nasça o novo self intuitivo."

"A terceira Tarefa - Navegar nas trevas

Nessa parte da história, o legado da mãe falecida - a boneca - orienta Vasalisa na travessia da escuridão até a casa de Baba Yaga. São as seguintes as tarefas psíquicas desse estágio: consentir em se aventurar a penetrar no local da iniciação profunda (entrada na floresta) e começar a experimentar o sentimento numinoso novo e aparentemente perigoso de estar imersa no poder intuitivo. Aprender a desenvolver a sensibilidade ao inconsciente misterioso no que se relaciona ao direcionamento e confiar exclusivamente nos próprios sentidos interiores. Aprender o caminho de volta para casa da Mãe Selvagem (obedecendo às instruções da boneca). Aprender a nutrir a intuição (alimentar a boneca). Deixar que a mocinha frágil e ingênua morra ainda mais. Transferir o poder para a boneca, ou seja, para a intuição."

"A quarta Tarefa - Encarar a Megera Selvagem

Nessa parte da história, Vasalisa encontra a Megera Selvagem pessoalmente. As tarefas desse encontro são as seguintes: ser capaz de suportar o rosto apavorante da Deusa Selvagem sem hesitar (topar com Baba Yaga). Familiarizar-se com o mistério, a estranheza, a 'alteridade' do selvagem (residir na casa de Baba Yaga por algum tempo). Adotar nas nossas vidas alguns dos seus valores, tornando-nos, portanto, também um pouco estranhas (comer seus alimentos). Aprender a encarar um poder enorme nos outros e subsequentemente nosso próprio poder. Permitir que a criança frágil e boazinha em excesso vá definhando ainda mais"

"A quinta Tarefa - Servir o não-racional

Nessa parte da história, Vasalisa pediu o fogo a Baba Yaga, e Yaga concorda se Vasalisa fizer, em troca, alguns serviços domésticos para ela. As tarefas psíquicas desse período de aprendizado são as seguintes: ficar com a Deusa Megera; aclimatar-se às imensas forças selvagens da psique feminina. Chegar a reconhecer o poder dela (o seu poder) e os poderes das purificações interiores; limpar, escolher, alimentar, criar energia e idéias (lavar as roupas da Yaga, cozinhar para ela, limpar sua casa e separar os alimentos)."

"A sexta Tarefa - Separar isso daquilo

Nessa parte da história, Baba Yaga exige de Vasalisa duas tarefas muito difíceis. As tarefas psíquicas da mulher são as seguintes: aprender a discriminar meticulosamente, a separar as coisas umas das outras com o melhor discernimento, aprender a fazer distinções sutis (ao escolher o milho mofado do milho são e ao selecionar as sementes de papoula de um monte de estrume). Observar o poder do inconsciente e como ele funciona mesmo quando o ego não está familiarizado (os pares de mãos que aparecem no ar). Aprender mais sobre a vida (o milho) e a morte (as sementes de papoula)."

"A sétima Tarefa - Perguntar sobre os mistérios

Depois de completar com sucesso as suas tarefas, Vasalisa faz algumas perguntas à Yaga. As perguntas deste estágio são as seguintes: Perguntar e tentar aprender mais a respeito da natureza da vida-morte-vida e de seu funcionamento (Vasalisa pergunta sobre os cavaleiros). Aprender a verdade acerca da capacidade de compreender todos os elementos da natureza selvagem ('saber demais pode envelhecer a pessoa antes do tempo')."

"A oitava Tarefa - De pé nas quatro patas

Baba Yaga sente repulsa pela bênção da mãe falecida e dá a Vasalisa a luz - uma caveira incandescente numa vara - dizendo-lhe que se vá. As tarefas desta parte da história são as seguintes: assumir um poder imenso de ver e afetar os outros (o recebimento da caveira). Ver as situações da própria vida com essa nova luz (descobrir o caminho de volta à família da madrasta)."

"A nona Tarefa - Reformular a sombra

Vasalisa volta para casa com a caveira incandescente na vara. Ela quase a joga fora, mas a caveira a tranquiliza. Uma vez de volta a casa, a caveira observa a madrasta e suas filhas, queimando-as até reduzi-la a cinzas. Vasalisa tem uma vida longa e feliz daí em diante.
São as seguintes as tarefas desse estágio: usar a própria visão aguçada (os olhos incandescentes) para reconhecer a sombra negativa da nossa prórpia psique e/ou os aspectos negativos das pessoas e acontecimentos do mundo exterior bem como para reagir a eles. Reformular as sombras negativas da própria psique com o fogo-da-megera (a perversa família da madrasta, que anteriormente torturava Vasalisa, é reduzida a cinzas)."



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

2 - O Barba-azul

Capítulo 2
A tocaia ao intruso: o princípio da iniciação
"Uma entidade em especial, o fugitivo mais traiçoeiro e mais poderoso na psique, exige nossa conscientização e contenção imediatas - e esse é o predador natural."


"Existe uma mecha de barba que fica guardada no convento das freiras brancas nas montanhas distantes. Como chegou até o convento, ninguém sabe. Uns dizem que foram as freiras que enterraram o que sobrou do seu corpo já que ninguém mais se dispunha a nele tocar. Desconhece-se o motivo pelo qual as freiras iriam guardar uma relíquia dessa natureza, mas é verdade. Uma amiga de uma amiga minha viu com seus próprios olhos. Ela diz que a barba é azul, da cor do índigo para ser exata. É tão azul quanto o gelo escuro no lago, tão azul quanto a sombra de um buraco à noite. Essa barba pertenceu um dia a alguém de quem se dizia ser um mágico fracassado, um homem gigantesco com uma queda pelas mulheres, um homem conhecido pelo nome de Barba-azul.

Dizia-se que ele cortejava três irmãs ao mesmo tempo. As moças tinham, porém, pavor de sua barba com aquele estranho reflexo azul e, por isso, se escondiam quando ele chamava. Num esforço para convencê-las da sua cordialidade, ele as convidou para um passeio na floresta. Chegou conduzindo cavalos enfeitados com sinos e fitas cor-de-carmim. Acomodou as irmãs e a mãe nos cavalos, e partiram a meio-galope floresta adentro. Lá passaram um dia maravilhoso cavalgando, e seus cães corriam a seu lado e à sua frente. Mais tarde, pararam debaixo de uma árvore gigantesca, e o Barba-azul as regalou com histórias e lhes serviu guloseimas.

"Bem, talvez esse Barba-azul não seja um homem tão mau assim", começaram a pensar as irmãs.

Voltaram para casa tagarelando sobre como o dia havia sido interessante e como haviam se divertido. Mesmo assim, as suspeitas e temores das duas irmãs mais velhas voltaram, e elas juraram quem não veriam o Barba-azul de novo. A irmã mais nova, no entanto, achou aque, se um homem podia ser tão encantador, talvez ele não fosse tão mau. Quanto mais ela falava consigo mesma, menos assustador ele lhe parecia, e sua barba também parecia menos azul.

Portanto, quando o Barba-azul pediu sua mão em casamento, ela aceitou. Ela havia refletido muito sobre a sua proposta e concluído que ia se casar com um homem muito distinto. Foi assim que se casaram e, em seguida, partiram para seu castelo no bosque.

- Vou precisar viajar por algum tempo - disse ele um dia à mulher. - Convide sua família para vir aqui se quiser. Você pode cavalgar nos bosques, mandar os cozinheiros prepararem um banquete, pode fazer o que quiser, qualquer desejo que seu coração tenha. Para você ver, tome minhas chaves. Pode abrir toda e quelquer porta das despensas, dos cofres, qualquer porta do castelo; mas essa chavinha, a que tem nos altos uns arabescos, você não deve usar.

- Está bem, vou fazer o que você pediu. Parece que está tudo certo. Portanto pode ir, meu querido, não se preocupe e volte logo. - E assim ele partiu, e ela ficou.

Suas irmãs vieram visitá-la e elas sentiam, como todo mundo, muita curiosidade a respeito das instruções do dono da casa quanto ao que deveria ser feito enquanto ele estivesse fora. A jovem esposa falou alegremente.

- Ele disse que podemos fazer o que quisermos e entrar em qualquer aposento que desejarmos, com exceção de um. Só que eu não sei qual é o aposento. Só tenho uma chave e não sei que porta ela abre.

As irmãs resolveram fazer um jogo para ver que chave servia em que porta. O castelo tinha três andares, com cem portas em cada ala, e como havia muitas chaves no chaveiro, elas iam de porta em porta, divertindo-se imensamente ao abrir cada uma delas. Atrás de uma porta, havia uma despensa para mantimentos, atrás de outra, um depósito de dinheiro. Todos os tipos de bens estavam atrás das portas, e tudo parecia maravilhoso o tempo todo. Afinal, depois de verem todas aquelas maravilhas, elas acabaram chegando ao porão e, ao final do corredor, a uma parede fechada.

Ficaram intrigadas com a última chave, a que tinha o pequeno arabesco.

- Talvez essa chave não sirva para abrir nada - Enquanto diziam isso, ouviram um ruído estranho - errrrrrr. - Deram uma espiada na esquina do corredor e - que surpresa! - havia uma pequena porta que acabava de se fechar. Quando tentaram abri-la, ela estava trancada.
- Irmã, irmã, traga sua chave - gritou uma delas - Sem dúvida é essa a porta para aquela chavinha misteriosa.

Sem pestanejar, uma das irmãs pôs a chave na fechadura e a girou. O trinco rangeu, a porta abriu-se, mas lá dentro estava tão escuro que nada se via.

- Irmã, irmã, traga uma vela. - Uma vela foi acesa e mantida no alto um pouco mais para dentro do aposento, e as três mulheres gritaram ao mesmo tempo, porque no quarto havia uma enorme poça de sangue; ossos humanos enegrecidos estavam jogados por toda parte e crânios estavam empilhados nos cantos como pirâmides de maçãs.

Elas fecharam a porta com violência, arrancaram a chave da fechadura e se apoiaram umas nas outras arquejantes, com o peito arfando. Meu Deus! Meu Deus!

A esposa olhou para a chave e viu que ela estava manchada de sangue. Horrorizada, usou a saia para limpá-la, mas o sangue prevaleceu.

- Oh, não! - exclamou. Cada uma das irmãs apanhou a chave minúscula nas mãos e tentou fazer com que voltasse ao que era antes, mas o sangue não saía.

A esposa escondeu a chavinha no bolso e correu para a cozinha. Quando lá chegou, seu vestido branco estava manchado de vermelho do bolso até a bainha pois a chave vertis lentamente lágrimas de sangue vermelho-escuro.

- Rápido, rápido, dê-me um esfregão de crina - ordenou ela à cozinheira. Esfregou a cheva com vigor, mas nada conseguia deter seu sangramento. Da chave minúscula transpirava uma gota após a outra se sangue vermelho.

Ela levou a chave para fora, tirou cinzas do fogão a lenha, cobriu a chave de cinzas e esfregou mais. Colocou-a no calor do fogo para cauterizá-la. Pôs teia de aranha nela para estancar o fluxo, mas nada conseguia deter as lágrimas de sangue.

- Ai, o que vou fazer? - lamentou-se ela. - Já sei, vou guardar a chave. Vou colocála no guarda-roupa e fechar a porta. Isso é um pesadelo. Tudo vai dar certo. - E foi o que fez.

O marido chegou de volta exatamente na manhã do dia seguinte e entrou no castelo já procurando pela esposa.

- E então, como foram as coisas enquanto eu estive fora?
- Tudo bem, senhor.
- Como estão minhas dispensas? - trovejou o marido.
- Muito bem, senhor.
- E como estão meus depósitos de dinheiro? - rosnou ele.
- Os depósitos de dinheiro também estão bem, senhor.
- Então, tudo está certo, esposa?
- É, tudo está certo.
- Bem - sussurou ele - então é melhor devolver minhas chaves.
Com um relancear de olhos, ele percebeu a falta de uma chave.
- Onde está a menorzinha?
- Eu... eu a perdi. É, eu a perdi. Estava passeando a cavalo o chaveiro caiu e eu devo ter perdido uma chave.
- O que você fez com ela, mulher?
- Não... não me lembro.
- Não minta para mim! Diga-me o que fez com aquela chave!

Ele tocou seu rosto como se fosse lhe fazer carinho, mas em vez disso a segurou pelos cabelos.

- Sua traidora! - rosnou, jogando-a no chão. - Você entrou naquele quarto, não entrou?
Ele abriu o guarda-roupa com brutalidade e a pequena chave na prateleira de cima havia sangrado, machado de vermelho todos os belos vestidos de seda que estavam pendurados.

- Chegou a sua vez, minha queria - berrou ele, arrastando-a pelo corredor e pelo porão adentro até pararem diante da terrível porta. O Barba-azul apenas olhou para a porta com seus olhos enfurecidos, e ela se abriu para ele. Ali jaziam os esqueletos de todas as suas esposas anteriores.

- Vai ser agora!!! - rugiu ele, mas ela se agarrou ao batente da porta sem largar, implorando por clemência.

- Por favor, permita que eu me acalme e me prepare para a morte. Conceda-me quinze minutos antes de me tirar a vida para que eu possa me reconciliar com Deus.
- Está bem - rosnou ele - Você tem seus quinze minutos, mas prepare-se.

A esposa correu escada acima até seus aposentos e determinou que suas irmãs fossem para as muralhas do castelo. Ajoelhou-se para rezar, mas, em vez de rezar, gritou para as irmãs.

- Irmãs, irmãs, vocês estão vendo a chegada dos nossos irmãos?
- Não vemos nada, nada na planície nua.

A cada instante ela gritava para as muralhas.
- Irmãs, irmãs, estão vendo nossos irmãos chegando?
- Vemos um redemoinho, talvez um redemoinho de areia bem longe.

Enquanto isso, o Barba-azul esbravejava para que sua esposa descesse até o porão para ser decapitada.
- Irmãs, irmãs! Estão vendo nossos irmãos chegando? - gritou ela mais uma vez.

O Barba-azul berrou novamente pela esposa e veio subindo a escada de pedra com passos pesados.
- Estamos, estamos vendo nossos irmãos - exclamaram as irmãs. - Eles estão aqui e acabaram de entrar no castelo.

O Barba-azul vinha pelo corredor na direção dos aposentos da esposa.
- Vim apanhá-la - gritou ele. Suas passadas eram pesadas; as pedras no piso se soltavam; a areia da argamassa caía esfarinhada no chão.

No instante em que o Barba-azul entrou nos aposentos com as mãos esticadas para agarra-la, seus irmãos chegaram galopando pelo corredor do castelo ainda montados, entrando assim no quarto. Ali eles encurralaram o Barba-azul fazendo com que caísse até a balaustrada. E ali mesmo, com suas espadas, avançaram contra ele, golpeando e cortando. fustigando e retalhando, até derrubá-lo ao chão. matando-o afinal e deixando para os abutres o que sobrou dele. "
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"O desenvolvimento de uma relação com a natureza selvagem é uma parte essencial da individualização da mulher. Para que isso possa se realizar, a mulher precisa penetrar nas trevas, mas ao mesmo tempo não pode cair irreparavelmente numa armadilha, ser capturada ou morta seja no caminho de ida seja no de volta.

A história do Barba-azul fala desse carcereiro, o homem sinistro que habita a psique de todas as mulheres, o predador inato. Ele é uma força específica e indiscutível que precisa ser contida e mantida na memória. Parar conter o predador natural da psique, é necessário que as mulheres permaneçam em posse de todos os seus poderem instintivos. Alguns deles são o insight, a intuição, a resistência, a tenacidade no amor, a percepção aguçada, o alcance da sua visão, a audição apurada, os cantos sobre os mortos, a cura intuitiva e o cuidado com seu próprio fogo criativo."

"Nesse sentido, no início do conto, temos um ser terrível no que diz respeito ao seu aspecto não redimido. No entanto, esse fato é uma das verdades cruciais que a irmã mais nova deve reconhecer, que todas as mulheres devem reconhecer: a de que tanto interna quanto externamente existe uma força que atuará opondo-se aos instintos de Self natural e de que essa força maligna é o que é. Embora talvez pudéssemos sentir compaixão por ela, nossos primeiros atos devem ser o reconhecimento da sua existência, o de nos protegermos da sua devastação e, afinal, o de privá-la de sua energia assassina.

Todas as criaturas precisam aprender que existem predadores. Sem esse conhecimento, a mulher será incapaz de se movimentar com segurança dentro de sua própria floresta sem ser devorada. Compreender o predador significa tornar-se um animal maduro pouco vulnerável à ingenuidade, inexperiêndia ou insensatez."

"Portanto, considerando-se que as mulheres que ainda não abriram a porta proibida costumam ser as mesmas que vão direto para os braços do Barba-azul, não foi por acaso que as irmãs mais velhas preservaram intacto o instinto selvagem da curiosidade. Essas são as mulheres-sombras da psique individual feminina, as contrações e fidgadas nas profundezas da mente de uma mulher que fazem com que lhe restituem a atitude correta para com o que é importante. Encontrar a mínima porta é importante; desobedecer às ordens do predador é importante; descobrir o que esse quarto abriga de especial é fundamental."

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Os Quatro Rabinos

Ainda dentro do assunto de La Loba, a autora conta uma pequena história, não enumerada dentro das 19 lendas, para alertar àquelas que buscam o acesso ao inconsciente.




"O cuidado com que se deve penetrar no universo psíquico..."







"Uma noite quatro rabinos receberam a visita de um anjo que os acordou e os levou para a Sétima Abóbada do Sétimo Céu. Ali eles contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.

Em algum ponto da descida do Pardes, Paraíso, para a Terra, um rabino, depois de ver tanto esplendor, enlouqueceu e passou a perambular espumando de raiva até o final dos seus dias. O segundo rabino teve uma atitude extremamente cínica. "Ah, eu só sonhei com a Roda de Ezequiel, só isso. Nada aconteceu de verdade." O terceiro rabino falava incessantemente no que havia visto, demostrando sua total obsessão. Ele pregava e não parava de falar do projeto da Roda e no que tudo aquilo significava... e dessa forma ele se perdeu e traiu sua fé. O quarto rabino, que era poeta, pegou um papel e uma flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor uma canção atrás da outra elogiando a pompa do anoitecer, sua filha no berço e todas as estrelas do céu. E daí em diante ele passou a viver melhor."

"Numa vesão talmúdica dessa história intitulada 'Os quatro que entram no Paraíso', os quatro rabinos entram no Pardes, Paraíso, para escutar os mistérios celestes e três deles enlouquecem de uma forma ou de outra quando põem os olhos na Shekhinah - a antiga divindade feminina."

"A história recomenda que a melhor atitude para vivenciar o inconsciente profundo é a do fascínio sem exagero ou retraído, sem excessos de admiração ou de cinismo; com coragem, sim, mas sem imprudência. (...) significa viver aquilo que percebermos, seja o que for encontrado nos campos elísios da psique, nas ilhas dos mortos, nos desertos de ossos de La Loba, na vertente da montanha (...) onde quer que La Loba sopre sobre nós, nos transformando. Nossa função é a de mostrar que recebemos esse sopro - demostrá-lo, divulgá-lo, cantá-lo, vivenciar no mundo aqui em cima o que recebemos através de percepções repentinas da história, do corpo, dos sonhos e das viagens de todos os tipos."



Sinceramente não conheço a história da Roda de Ezequiel (se alguma loba puder dar sua contribuição seria ótimo!), nesse caso acho que o que importa é captar a essência, o significado da história. Eu, praticamente leiga, felizmente já tenho consciência que é necessário um cuidado redobrado quando se está em busca de algo que não se conhece completamente, que é o caso da busca pela nossa Mulher Selvagem.
E que não tenhamos tanta presa, tanta sede nesta busca. Para que estejamos preparadas para perceber, e receber, quando aqui ela se apresentar.

Então, lobinhas, vamos manter a cautela e analizar direitinho, para não cairmos na vacilação, como os três rabinos da história.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

1 - La Loba, A Mulher-Lobo

Capítulo 1
O uivo: a ressurreição da mulher selvagem








"Todos nós começamos como um feixe de ossos perdido em algum ponto num deserto."







"Existe uma velha que vive num lugar oculto de que todos sabem, mas que poucos já viram. Como nos contos de fadas da Europa oriental, ela parece esperar que cheguem até ali pessoas que se perderam, que estão vagueando ou à procura de algo.

Ela é circunspecta, quase sempre cabeluda e invariavelmente gorda, e demonstra especialmente querer evitar a maioria das pessoas. Ela sabe crocitar e cacarejar, apresentando geralmente mais sons animais do que humanos.

Dizem que ela vive entre os declives de granito decomposto no território dos índios tarahumara. Dizem que está enterrada na periferia de Phoenix perto de um poço. Dizem que foi vista viajando para o sul, para o Monte Alban num carro incendiado com a janela traseira arrancada. Dizem que fica parada na estrada perto de El Paso, que pega carona aleatoriamente com caminhoneiros até Morelia, México, ou que foi vista indo para a feira acima de Oaxaca, com galhos de lenha de estranhos formatos nas costas. Ela é conhecida por muitos nomes: La Huesera, a Mulher dos Ossos; La Trapera, a Trapeira; e La Loba, a Mulher-lobo.

O único trabalho de La Loba pe o de recolher ossos. Sabe-se que ela recolhe e conserva especialmente o que corre o risco de se perder para o mundo. Sua caverna é cheia dos ossos de todos os tipos de cristuras do deserto: o vesado, a cascavel, o corvo. Dizem, porém, que sua especialidade reside nos lobos.

Ela se arrasta sorrateira e esquadrinha as montañas e os arroyos, leitos secos de rios, à procura de ossos de lobos e m quando consehue reunir um esqueleto inteiro, quando o último osso está no lugar e a bela escultura branca da criatura está disposta à sua frente, ela senta junto ao fogo e pensa na canção que irá cantar.

Quando se decide, ela se levanta e aproxima-se da criatura, ergue seus braços sobre o esqueleto e começa a cantar. É aí que os ossos das costelas e das pernas do lobo começam a se formar carne, e que a criatura começa a se cobrir de pêlos. La Loba canta um pouco mais, e uma proporção maior da criatura ganha vida. Seu rabo forma uma curva para cima, forte e desgrenhado.

La Loba canta mais, e a criatura-lobo começa a respirar.

E La Loba ainda canta, com tanta intensidade que o chão do deserto estremece, e enquanto canta, o lobo abre os olhos, dá um salto e sai correndo pelo desfiladeiro.

Em algum ponto da corrida, quer pela velocidade, por atravessar o rio respingando água, quer pela incidência de um raio de sol ou de luar sobre seu flanco, o lobo de repente é tranformado numa mulher que ri e corre livre na direção do horizonte.

Por isso, diz-se que, se você estiver perambulando pelo deserto, por volta do pôr-do-sol, e quem sabe esteja um pouco perdido, cansado, sem dúvida você tem sorte, porque La Loba pode simpatizar com você e lhe ensinar algo - algo da alma."