A preservação do Self: A identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas
A mulher braba
Os sapatinhos vermelhos
Segue-se uma versão germânico-magiar que minha tia Tereza costumava nos
contar quando éramos crianças. Na sua versão da história, ela sempre começava
dizendo: "Olhem para seus sapatos e agradeçam por eles serem sem graça... porque é preciso que se viva com muito cuidado quando os sapatos são vermelhos demais."
Era uma vez uma pobre órfã que não tinha sapatos. Essa criança guardava os trapos que pudesse encontrar e, com o tempo, conseguiu costurar um par de sapatos vermelhos. Eles eram grosseiros, mas ela os adorava. Eles faziam com que ela se sentisse rica, apesar de ela passar seus dias procurando alimento nos bosques espinhosos até muito depois de escurecer.
Um dia, porém, quando ela vinha caminhando com dificuldade pela estrada, maltrapilha e com seus sapatos vermelhos, uma carruagem dourada parou ao seu lado. Dentro dela, havia uma senhora de idade que lhe disse que ia levá-la para casa e tratá-la como se fosse sua própria filhinha. E assim lá foram elas para a casa da rica senhora, e o cabelo da menina foi lavado e penteado. Deram-lhe roupas de baixo de um branco puríssimo, um belo vestido de lã, meias brancas e reluzentes sapatos pretos. Quando a menina perguntou pelas roupas velhas, e em especial pelos sapatos vermelhos, a senhora disse que as roupas estavam tão imundas e os sapatos eram tão ridículos que ela os jogara no fogo, onde se reduziram a cinzas.
A menina ficou muito triste, pois, mesmo com toda a fortuna que a cercava, os modestos sapatos vermelhos feitos por suas próprias mãos haviam lhe dado uma felicidade imensa. Agora, ela era obrigada a ficar sentada quieta o tempo todo, a caminhar sem saltitar e a não falar a não ser que falassem com ela, mas uma chama secreta começou a arder no seu coração e ela continuou a suspirar pelos seus velhos sapatos vermelhos mais do que por qualquer outra coisa.
Como a menina tinha idade suficiente para ser crismada no dia do sacramento, a senhora levou-a a um velho sapateiro aleijado para que ele fizesse um par de sapatos especiais para a ocasião. Na vitrina do sapateiro havia um par de lindíssimos sapatos vermelhos do melhor couro. Eles praticamente refulgiam. Pois, apesar de sapatos vermelhos serem escandalosos para se ir à igreja, a menina, que só sabia decidir com seu coração faminto, escolheu os sapatos vermelhos. A vista da velha senhora era tão fraca que ela, sem perceber a cor dos sapatos, pagou por eles. O velho sapateiro piscou para a menina e embrulhou os sapatos.
No dia seguinte, os membros da congregação ficaram alvoroçados com os sapatos da menina. Os sapatos vermelhos brilhavam como maçãs polidas, como corações, como ameixas tingidas de vermelho. Todos olhavam carrancudos. Até os ícones na parede, até as estátuas não tiravam os olhos reprovadores dos sapatos. A menina, no entanto, gostava cada vez mais deles. Por isso, quando o bispo começou a salmodiar, o coro a cantarolar, o órgão a soar, a menina não achou que nada disso fosse mais belo que os seus sapatos vermelhos.
Antes do final do dia, a velha senhora já estava informada dos sapatos vermelhos da sua protegida.
— Nunca, nunca mais use esses sapatos vermelhos! — ameaçou a velha. No domingo seguinte, porém, a menina não conseguiu deixar de preferir os sapatos vermelhos aos pretos, e ela e a velha senhora caminharam até a igreja como de costume.
À porta do templo estava um velho soldado com o braço numa tipóia. Ele usava uma jaqueta curta e tinha a barba ruiva. Ele fez uma mesura e pediu permissão para tirar o pó dos sapatos da menina. Ela estendeu o pé, e ele tamborilou na sola dos sapatos uma musiquinha compassada que lhe deu cócegas nas solas dos pés.
— Lembre-se de ficar para o baile — disse ele, sorrindo e piscando um olho para ela. Mais uma vez, todos lançaram olhares reprovadores para os sapatos vermelhos da menina. Ela, no entanto, adorava tanto esses sapatos que brilhavam como o carmim, como framboesas, como romãs, que não conseguia pensar em mais nada, que mal prestou atenção no culto. Estava tão ocupada virando os pés para lá e para cá para admirar os sapatos que se esqueceu de cantar.
— Que belas sapatilhas! — exclamou o soldado ferido quando ela e a velha senhora saíam da igreja. Essas palavras fizeram a menina dar alguns rodopios ali mesmo. No entanto, depois que seus pés começaram a se movimentar, eles não queriam mais parar; e ela atravessou dançando os canteiros e dobrou a esquina da igreja até dar a impressão de ter perdido totalmente o controle de si mesma. Ela dançou uma gavota, depois uma csárdás e saiu valsando pelos campos do outro lado da estrada.
O cocheiro da velha senhora saltou do seu banco e correu atrás da menina. Ele a segurou e a trouxe de volta para a carruagem, mas os pés da menina, nos sapatos vermelhos, continuavam a dançar no ar como se ainda estivessem no chão. A velha senhora e o cocheiro começaram a puxar e a forçar, na tentativa de arrancar os sapatos vermelhos dos pés da menina. Foi um horror. Só se viam chapéus caídos e pernas que escoiceavam, mas afinal os pés da menina se acalmaram.
De volta à casa, a velha senhora enfiou os sapatos vermelhos no alto de uma prateleira e avisou a menina para nunca mais calçá-los. No entanto, a menina não conseguia deixar de olhar para eles e ansiar por eles. Para ela, eles eram o que havia de mais lindo no planeta.
Não muito tempo depois, o destino quis que a velha senhora caísse de cama e, assim que os médicos saíram, a menina entrou sorrateira no quarto onde eram guardados os sapatos vermelhos. Ela os contemplou lá no alto da prateleira. Seu olhar tornou-se fixo e provocou nela um desejo tão forte que a menina tirou os sapatos da prateleira e os calçou, na crença de que eles não lhe fariam mal algum. Só que, no instante em que eles tocaram seus calcanhares e seus dedos, ela foi dominada pelo impulso de dançar.
E saiu dançando porta afora e escada abaixo, primeiro uma gavota, depois uma csárdás e em seguida giros arrojados de valsa em rápida sucessão. A menina estava num momento de glória e não percebeu que enfrentava dificuldades até que teve vontade de dançar para a esquerda e os sapatos insistiram em dançar para a direita.
Quando ela queria dançar em círculos, os sapatos teimavam em seguir em linha reta. E, como eram os sapatos que comandavam a menina, em vez do contrário, eles a fizeram dançar estrada abaixo, atravessar os campos enlameados e penetrar na floresta soturna e sombria.
Ali, encostado numa árvore, estava o velho soldado de barba ruiva, com o braço na tipóia e usando sua jaqueta curta.
— Puxa — disse ele —, que belas sapatilhas!
Apavorada, a menina tentou tirar os sapatos, mas por mais que puxasse, eles continuavam firmes. Ela saltava primeiro num pé, depois no outro, para tentar tirálos, mas o pé que estava no chão continuava dançando assim mesmo e o outro pé na sua mão também fazia seu papel na dança.
E assim, ela dançava e dançava sem parar. Por sobre os montes mais altos e pelos vales afora, na chuva, na neve e ao sol, ela dançava. Ela dançava na noite mais escura, no amanhecer e continuava dançando também ao escurecer. Só que não era uma dança agradável. Era terrível, e não havia descanso para a menina.
Ela entrou no adro de uma igreja e ali um espírito guardião não quis permitir que ela entrasse.
— Você irá dançar com esses sapatos vermelhos — proclamou o espírito — até que fique como uma alma penada, como um fantasma, até que sua pele pareça suspensa dos ossos, até que não sobre nada de você a não ser entranhas dançando.
Você irá dançar de porta em porta por todas as aldeias e baterá três vezes a cada porta. E, quando as pessoas espiarem quem é, verão que é você e temerão que seu destino se abata sobre elas. Dancem, sapatos vermelhos. Vocês devem dançar. A menina implorou misericórdia mas, antes que pudesse continuar a suplicar, os sapatos vermelhos a levaram embora. Ela dançou por cima das urzes, através dos riachos, por cima de cercas-vivas, sem parar. Ainda dançava quando voltou à sua antiga casa e viu pessoas de luto. A velha senhora que a havia abrigado estava morta.
Mesmo assim, ela passou dançando. Dançava porque não podia deixar de dançar. Totalmente exausta e apavorada, ela entrou dançando numa floresta onde morava o carrasco da cidade. E o machado na parede começou a tremer assim que pressentiu que ela se aproximava.
— Por favor! — implorou ela ao carrasco quando passou pela sua porta. — Por favor, corte fora meus sapatos para me livrar desse destino horrível.
O carrasco cortou fora as tiras dos sapatos vermelhos com o machado, mas os sapatos não se soltaram dos pés da menina. Ela se lamentou, então, dizendo que sua vida não valia mesmo nada e que ele deveria amputar-lhe os pés. Foi o que ele fez.
Com isso, os sapatos vermelhos com os pés neles continuaram dançando floresta afora e morro acima até desaparecerem. A menina era, agora, uma pobre aleijada e teve de descobrir um jeito de sobreviver no mundo trabalhando como criada. E nunca mais ansiou por sapatos vermelhos.
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A imagem brutal é um velho recurso para fazer com que o self emotivo preste atenção a uma mensagem muito séria.
Os sapatinhos vermelhos feitos à mão
O símbolo dos sapatos pode ser interpretado como uma metáfora psicológica. Eles protegem e defendem o que é a nossa base — os nossos pés. No simbolismo dos arquétipos, os pés representam mobilidade e liberdade. Nesse sentido, ter sapatos para cobrir os pés é ter convicção nas nossas crenças e ter os meios necessários para segui-las. Sem sapatos psíquicos, a mulher é incapaz de transpor ambientes subjetivos ou objetivos que exijam perspicácia, bom senso, cautela e firmeza.
As armadilhas
Armadilha n° l: A carruagem dourada, a vida desvalorizada
Do ponto de vista clássico, esse tipo de veículo de "transporte" é compreendido como a disposição central da psique, que nos transporta de um lado da psique para o outro, de uma idéia para outra, de um pensamento para outro e de uma iniciativa para outra.
Armadilha n° 2: A velha secarrona, a força senescente
Na psicologia junguiana tradicional, a figura arquetípica do idoso é às vezes chamada de força "senex". Em latim, senex significa "velho". Com maior propriedade e sem a atribuição de gênero, o símbolo do idoso pode ser compreendido como a força senescente: aquilo que age de um modo peculiar aos idosos.
Armadilha n° 3: A queima do tesouro, hambre del alma, a fome da alma
Existe o fogo que acompanha a alegria, e o fogo que acompanha a destruição. Um é o fogo da transformação; o outro, o fogo apenas da dizimação. No entanto, muitas mulheres renunciam aos seus sapatos vermelhos e concordam em se tornar limpas demais, educadas demais, submissas demais à visão de mundo das outras pessoas. Estamos entregando nossos alegres sapatos vermelhos ao fogo destrutivo quando digerimos valores, propagandas e filosofias por atacado, incluindo-se aí as de natureza psicológica. Os sapatos vermelhos são reduzidos a cinzas quando pintamos, atuamos, escrevemos, agimos e somos de qualquer modo que diminua as nossas vidas, que enfraqueça a nossa visão, que alquebre os ossos do nosso espírito.
Armadilha n° 4: Danos aos instintos básicos, a conseqüência do
cativeiro
Etimologicamente, a palavra instinto deriva do latim instinguere, que significa incitar ou induzir uma inspiração inata, bem como de instinctus, que significa "impulso". A idéia do instinto pode ser valorizada como alguma coisa interna que quando mesclada com a previsão e a consciência, orienta os seres humanos no sentido de um comportamento integral. A mulher nasce com todos os instintos intactos.
E quando a velha senhora, uma presença inibidora, considera a obra do espírito criador um lixo, em vez de um bem, e queima os sapatos vermelhos, a menina fica mais do que calada. Ela se entristece, que é o estado esperado quando o espírito criativo é isolado da vida profunda natural. Pior que isso, o instinto da criança para fugir dessa aflição fica embotado a ponto de desaparecer. Em vez de ter como objetivo uma nova vida, ela fica presa numa poça de cola psíquica. A recusa a tentar fugir, quando essa atitude é plenamente justificada, causa a depressão. Mais uma armadilha.
No entanto, o excesso de domesticação se assemelha a proibir que a essência vital saia dançando. Em seu estado saudável e característico, o Self selvagem não é dócil e vazio. Ele é alerta e sensível a qualquer movimento ou momento. Ele não se prende a um modelo absoluto e repetitivo para toda e qualquer circunstância. Ele tem opções criativas. A mulher cujos instintos estão prejudicados não tem escolha. Ela simplesmente fica impossibilitada de prosseguir.
Com o comportamento restrito ao "bom", não há vida criativa. Quando estamos sentadas sem nos mexer, não há vida criativa. Quando falamos, pensamos e agimos apenas com modéstia, não há vida criativa. Qualquer grupo, sociedade, instituição ou organização que incentive as mulheres a desprezar o que for excêntrico; a suspeitar do que for novo e incomum; a evitar o que for inovador, vital, veemente; a despersonalizar o que lhe for característico, estará à procura de uma cultura de mulheres mortas.
A recuperação do instinto ferido começa com o reconhecimento de que a captura ocorreu, de que uma fome da alma se seguiu, de que os limites normais de insight e proteção foram perturbados. É preciso reverter o processo que causou a captura da mulher e a conseqüente fome. Antes de mais nada, porém, muitas mulheres passam pêlos estágios que se seguem, como está descrito na história.
Armadilha nº 5: A tentativa de ocultar uma vida secreta, a divisão
Segundo a psicologia analítica, a repressão de sentimentos, instintos e impulsos tanto negativos quanto positivos, forçando-os para o fundo do inconsciente, faz com que eles ocupem o reino da sombra. Embora o ego e superego continuem tentando censurar os impulsos da sombra, a própria pressão causada por essa repressão se assemelha muito a uma bolha na lateral de um pneu. Com o tempo, à medida que o pneu gira e se aquece, a pressão por trás da bolha aumenta e provoca uma explosão, que libera todo o ar do seu interior.
Esses aspectos rejeitados, desvalorizados e "inaceitáveis" da alma e do self não ficam simplesmente ali parados nas trevas, mas conspiram para decidir quando e como farão uma tentativa para alcançar a liberdade. Eles borbulham ali no inconsciente, em fervilhante ebulição, até que um dia, não importa se a tampa que os cobre esteja bem fechada ou não, explodem em todas as direções num caudal descontrolado e com vontade própria.
Quando quem cria pára pelo motivo que seja, a energia que chega naturalmente a ela é desviada para o mundo oculto, a partir do qual ela vem à tona quando e onde consegue. Como a mulher percebe que não pode se dedicar abertamente àquilo que deseja, ela começa a levar uma estranha vida dupla, simulando um comportamento à luz do dia, agindo de outro modo quando tem a oportunidade.
Pode-se dar o nome que se quiser, mas ter uma vida secreta porque a vida real não tem espaço suficiente para vicejar é prejudicial à vitalidade da mulher.
Na história, a menina consegue fazer passar os sapatos pela velha senhora de pouca visão. Nesse ponto afirma-se que o próprio sistema de valores rígido e perfeccionista não possui a capacidade de ver bem, de estar alerta para o que acontece ao seu redor. É típico da psique ferida, assim como da cultura nas mesmas condições, não perceber a aflição pessoal do self. E assim a jovem faz mais uma escolha infeliz em meio a uma série de outras.
Quando a mulher se sente obrigada a viver às ocultas, ela está pondo para funcionar um modo de subsistência mínima. Ela oculta a vida para que "eles" não ouçam, quem quer que "eles" sejam na sua vida. Superficialmente, ela aparenta desinteresse e tranqüilidade mas, sempre que surge uma réstia de luz, sua alma esfaimada dá um salto, persegue a forma de vida mais próxima, alegra-se, dá coices, avança loucamente, dança como uma boba, fica exausta e depois tenta se esgueirar de volta à cela sombria antes que alguém perceba sua ausência.
Na história, o sapateiro é um prenúncio do velho soldado, que mais tarde transmite vida aos sapatos que dançam até enlouquecer quem os calça. Há muitos pontos coincidentes entre esse personagem e o que sabemos da simbologia antiga para que o consideremos um mero espectador. O predador natural no interior da psique (e também aquele pertencente à cultura) é um mutante, uma força capaz de se disfarçar, da mesma forma que as armadilhas, arapucas e iscas envenenadas são disfarçadas para seduzir os desavisados. Devemos levar em consideração que ele transforma em brincadeira o ato de enganar a velha senhora. Não, é provável que ele seja cúmplice do soldado, que é obviamente uma descrição do diabo disfarçado. Nos velhos tempos, o diabo, o soldado, o sapateiro, o corcunda e outros eram imagens usadas para retratar as forças negativas tanto na natureza da terra quanto na natureza humana.
A partir dessa perspectiva, é preciso que perguntemos a cada estágio como acabou acontecendo que qualquer mulher específica tenha a sensação de precisar ser servil, retrair-se, humilhar-se e implorar por uma vida que, para começo de conversa, já lhe pertence. Um exame das pressões criadas em cada camada do mundo objetivo e do subjetivo irá evitar que a mulher imagine ser uma opção construtiva apanhar em segredo os sapatinhos do diabo.
Armadilha nº 6: O recuo diante do coletivo, a rebelião na sombra
A menina calça os sapatos vermelhos às escondidas, vai até a igreja, não presta nenhuma atenção ao alvoroço ao seu redor, é desprezada pela comunidade. Os habitantes da aldeia a denunciam. Ela é repreendida. Os sapatos vermelhos são retirados. É, porém, tarde demais. Ela foi fisgada. Não se trata ainda de uma obsessão, mas a questão é que o coletivo inspira e reforça sua fome interna ao exigir que ela capitule diante de seus valores estreitos.
Pode-se tentar levar uma vida secreta, mas mais cedo ou mais tarde o superego, um complexo negativo e/ou a própria cultura a atacarão. E difícil esconder algo proibido que lhe inspira voracidade. É difícil ocultar prazeres furtivos mesmo quando eles não são benéficos.
Ocasionalmente, o coletivo pressiona a mulher para ser uma santa, ser uma pessoa esclarecida, ser politicamente correta, ser controlada, para que cada uma das suas iniciativas resulte numa obra-prima. Se recuarmos diante do coletivo, cedendo às pressões no sentido de um conformismo irracional, estaremos protegidas do isolamento, mas, ao mesmo tempo, estaremos também traindo nossas vidas selvagens e as colocando em risco.
Para uma criança selvagem nascida numa comunidade de valores rígidos, a conseqüência normal é a de passar pela vergonha de ser evitada. É uma atitude em que a vítima é tratada como se não existisse. O ostracismo retira da pessoa que dele é vítima o interesse espiritual, o amor e outras necessidades psíquicas. A idéia é de forçar a vítima a se ajustar, e se isso não acontecer, destruí-la espiritualmente e/ou expulsá-la da aldeia para que definhe e morra nos ermos.
Precisamos lembrar que não se trata de a mulher reprimida se recusar a se ajustar, mas ela não poder se ajustar sem morrer. Sua integridade espiritual está em jogo, e ela tentará se livrar de todas as formas possíveis, mesmo daquelas que a coloquem em risco.
Não é só o ato singular que reformula uma coletividade encarquilhada, mas também a continuidade desses atos. Como me disse uma vez uma monja budista, "A água consegue furar a pedra".
Quando a mulher se recusa a dar apoio à coletividade árida, ela está se recusando a reprimir seu raciocínio selvagem, e seus atos seguem o mesmo caminho.
A história dos sapatinhos vermelhos na sua essência nos ensina que a psique selvagem precisa ser devidamente protegida — através de uma inequívoca valorização de nós mesmas, com uma defesa veemente dos seus interesses, com uma recusa a se submeter a situações psíquicas pouco saudáveis. Aprendemos, também, que o lado selvagem, por sua energia e beleza, está sempre na mira de alguém, de alguma instituição, de algum grupo, seja com o objetivo de transformá-lo em troféu, seja com o objetivo de submetê-lo a limitação, alteração, domínio, eliminação, reformulação ou controle. O lado selvagem precisa sempre de um guarda junto ao portão, ou poderá ser utilizado para fins impróprios.
Quando o coletivo é hostil à vida natural da mulher, em vez de aceitar os rótulos desrespeitados ou pejorativos que lhe são aplicados, ela pode e deve, como o patinho feio, resistir, agüentar e procurar aquilo a que ela pertence — e preferivelmente sobreviver a quem a rejeitou, vicejando e criando mais do que eles.
O fascínio da menina pelos sapatinhos vermelhos na realidade impede uma rebeldia significativa, uma que promova a mudança, que transmita uma mensagem, que provoque um despertar.
É preciso compreender que as armadilhas preparadas para capturar a alegria da mulher irão sempre se alterar e mudar de aparência, mas na nossa própria natureza selvagem nós iremos encontrar a energia absoluta, a libido exigida por todos os atos de coragem que forem necessários.
Armadilha nº 7: A simulação, a tentativa de ser boa, a trivialização do
anormal
O problema com a decisão de "ser boazinha" está em que essa atitude não resolve a questão sombria subjacente, e mais uma vez ela se erguerá como um tsunami, como uma onda gigantesca, que desce veloz, destruindo tudo o que estiver à frente. Ao "ser boazinha", a mulher fecha os olhos a tudo que for empedernido, deformado ou maléfico à sua volta e simplesmente tenta "conviver" com esses aspectos. Seus esforços no sentido de aceitar esse estado anormal prejudicam ainda mais seus instintos selvagens para reagir, mostrar, mudar, combater o que não está certo, o que não é justo.
Tentar ser boa, disciplinada e submissa diante do perigo interno ou externo, ou a fim de esconder uma situação crítica psíquica ou no mundo objetivo, elimina a alma da mulher. É uma atitude que a isola do que sabe; que a isola da sua capacidade de agir. Como a criança na história, que não expressa em voz alta suas objeções, que tenta esconder sua privação, que tenta dar a impressão de que nada está dentro dela, as mulheres modernas passam pela mesma perturbação, a trivialização do que é anormal. Esse distúrbio está disseminado em todas as culturas. A trivialização do anormal faz com que o espírito, que em circunstâncias normais saltaria para corrigir a situação, afunde no tédio, na complacência e acabe, como a velha senhora, na cegueira.
A trivialização do que é anormal, mesmo quando existem claros indícios de que essa atitude seja prejudicial a nós mesmas, aplica-se a todos os maus-tratos infligidos às naturezas instintiva, espiritual, criativa, emocional e física. As mulheres enfrentam essa questão sempre que são desorientadas de modo a fazer qualquer coisa que não seja a defesa da sua vida profunda de projeções invasivas, culturais, psíquicas ou de outra natureza.
Com a recuperação do instinto ferido, rejeita-se essa trivialização do que é revoltante e violento. À medida que o instinto se restaura, a Mulher Selvagem retorna. Em vez de entrar dançando na floresta usando os sapatos vermelhos até que toda a sua vida passe a ficar torturada e desprovida de significado, podemos voltar à vida feita à mão, à vida plenamente atenta, podemos refazer os nossos próprios sapatos, caminhar o nosso caminho, falar a nossa própria fala.
Embora seja verdade que há muito a se aprender com a dissolução das nossas projeções (você é perverso, você me magoa) e com o exame de como somos perversas com nosso próprio self, como magoamos a nós mesmas, definitivamente esse não deveria ser o final da investigação.
A armadilha escondida dentro da armadilha consiste em Pensar que tudo está resolvido com a dissolução da projeção e com a descoberta da conscientização em nós mesmas. Isso às vezes é verdade; e às vezes não. Em vez de aplicar esse paradigma de exclusão — ou há algo de errado lá fora, ou algo de errado comigo — é mais útil aplicar um modelo de acréscimo. Essa é a questão interna, e essa é a questão externa.
Esse paradigma permite um exame completo e é muito mais saudável em todos os sentidos. Esse paradigma dá apoio às mulheres para que questionem o status quo com confiança e para que não olhem apenas para si mesmas, mas também para o mundo que as está pressionando por acaso, inconscientemente de propósito. O paradigma do acréscimo não se destina a ser usado como um modelo para atribuir culpa a si mesma ou a outros, mas é, sim, um meio de avaliar e julgar a responsabilidade, tanto interna quanto externa, e o que precisa ser alterado, procurado, esboçado. Ele impede a fragmentação da mulher que procura restaurar tudo que está ao seu alcance, sem negligenciar suas necessidades e sem se isolar do mundo.
Armadilha nº 8: A dança descontrolada, a obsessão e dependência
O velho de barba ruiva tamborilou nas solas dos sapatos da menina, e a vibração dessas cócegas pôs os pés da menina a dançar. Ela dança agora, ah, como dança, só que não consegue parar. Tanto a velha senhora, que supostamente deveria agir como guardião da psique, quanto a menina, que deveria exprimir a alegria da psique, estão completamente desvinculadas de todo instinto e bom senso.
A menina já tentou tudo: adaptar-se à velha senhora, não se adaptar, ser dissimulada, "ser boazinha", perder o controle e sair dançando, dominar-se e tentar voltar a ser boazinha. Nesse ponto, sua terrível privação do espírito e do significado mais uma vez a força a apanhar os sapatinhos vermelhos, a calçá-los e a começar sua última dança, a dança que a levará para o vazio da inconsciência.
Quando ela tenta entrar rodopiando no adro de uma igreja, há ali um espírito guardião que não lhe permite a entrada [...] O espírito guardião a encerra, portanto, numa obsessão que é análoga a uma dependência física.
Ela precisava somente de uma sábia imagem interna à qual pudesse se agarrar, um resquício de instinto que durasse até que ela pudesse dar início ao longo trabalho de reformulação do instinto e da percepção íntima. Ela só precisava dar ouvidos à voz selvagem que vive dentro de todas nós, a que sussurra, "fique aqui o bastante... fique o tempo necessário para reanimar sua esperança, para abandonar seu sangue-frio terminal, para renunciar a meias-verdades defensivas, para se insinuar, para abrir caminho com precisão ou com violência; fique aqui o suficiente para ver o que é bom para você, para se fortalecer, para fazer aquela tentativa que terá sucesso; fique aqui o suficiente para completar a corrida, não importa quanto tempo demore ou de que forma isso ocorra".
A dependência
Nessa dependência compensatória dos excessos, a velha senhora da psique desempenha um papel importantíssimo. Ela foi cega como ela só. Agora adoece. Fica imóvel, deixando um perfeito vazio na psique. Agora não há mais ninguém para dar uns conselhos à psique desvairada. A velha senhora acaba morrendo mesmo, não deixando absolutamente nenhum local seguro na psique. E a menina dança. A princípio, ela vira os olhos de êxtase mas, logo, quando os sapatos a deixam exausta de tanto dançar, seus olhos viram de horror.
A natureza instintiva nos diz quando basta. Ela é prudente e protege a vida. A mulher não pode compensar toda uma vida de traições e mágoas entregando-se a excessos de prazer, de raiva ou de rejeição. Espera-se que a velha senhora na psique marque o tempo, espera-se que ela diga quando. Nessa história, a velha senhora está liquidada, arrasada.
A dependência e a ferocidade estão relacionadas. A maioria das mulheres esteve em cativeiro pelo menos por um curto período, e algumas por um tempo interminável. Algumas só foram livres in utero. Todas perdem parte do instinto durante esse período. Em algumas, fica prejudicado o instinto a respeito de quem é uma boa pessoa, e com freqüência essa mulher é induzida ao erro. Em outras, a capacidade de reagir à injustiça se vê radicalmente reduzida, e elas muitas vezes se transformam em mártires relutantes, prontas para a retaliação. Em outras ainda, o instinto de fugir ou enfrentar é enfraquecido, e elas se transformam em vítimas. A lista ainda continua. Por outro lado, a mulher em pleno uso de sua mente selvagem rejeita as convenções que não sejam propícias nem sensatas.
A dependência de substância química é uma verdadeira armadilha. As drogas e o álcool são muito parecidos com um amante violento que nos trata bem a princípio e depois nos espanca; pede desculpas, é gentil por algum tempo e de repente volta a nos espancar. A armadilha consiste em tentar ficar levando em conta o lado bom, enquanto procuramos ignorar o lado negativo. Isso está errado. Nunca poderia funcionar.
Uma mulher braba não tem força suficiente para assumir, no lugar de todo mundo, um arquétipo extremamente almejado sem entrar em colapso. A mulher braba está em processo de cura. Não costumamos pedir a um convalescente que carregue um piano escada acima. A mulher que está voltando precisa ter tempo para se fortalecer.
As pessoas que são apanhadas e levadas pelos sapatos vermelhos sempre começam pensando que qualquer substância da qual estejam dependentes representa uma forma ou outra de salvação. Às vezes isso lhes dá uma sensação de poder fantástico, ou uma falsa sensação de que têm energia para ficar acordadas a noite inteira, para criar até o amanhecer, para ficar sem comer. Ou talvez a dependência permita que elas durmam sem temer demônios internos, acalme seus nervos, ajude a que elas não se importem tanto com tudo aquilo com que tanto se importam ou, talvez, as ajude a não querer mais amar nem ser amada. No entanto, no final das contas, a dependência só cria, como vemos na história, uma paisagem borrada que gira com tal velocidade que no fundo não se está vivendo uma vida de verdade. A dependência é uma Baba Yaga enlouquecida que devora crianças perdidas e as deixa à porta do carrasco.
Na casa do carrasco
A tentativa de tirar os sapatos, tarde demais
Quando a natureza selvagem quase foi exterminada, nos casos mais extremos, é possível que uma deterioração esquizóide e/ou uma psicose possam dominar a mulher. De repente ela pode simplesmente ficar na cama, recusar-se a se levantar, vaguear de um lado para outro de roupão, esquecer distraída cigarros acesos, três em cada cinzeiro, chorar sem conseguir parar, passear descabelada pelas ruas, abandonar a família de repente para vaguear por aí. Ela pode ter tendências suicidas; ela pode se matar acidentalmente ou de propósito. No entanto e muito mais comum é o fato de a mulher simplesmente ficar entorpecida. Ela não se sente nem bem nem mal; apenas não sente nada.
E o que acontece com a mulher quando suas vibrantes cores psíquicas são mescladas? O que acontece quando se misturam o vermelho-escarlate, o azul-safira e o amarelo-topázio? Os pintores sabem. Quando alguém mistura cores vibrantes, o resultado é uma cor chamada lama. Não a lama que é fértil, mas uma lama que é estéril, sem cor, estranhamente pálida, que não emite luz. Quando o pintor cria lama na tela, ele precisa começar tudo de novo.
Essa é a parte difícil; é aí que os sapatos têm de ser arrancados à força. Dói o movimento de se isolar da dependência destrutiva. Ninguém sabe por quê. Seria de se esperar que as pessoas sentissem alívio. Seria de se esperar que elas se sentissem salvas no último instante. Seria de se esperar que elas se alegrassem. Mas não, elas entram em pânico, ouvem dentes rangendo e descobrem que são os seus próprios dentes que fazem esse barulho. Sentem que estão sangrando de certo modo, apesar de não se ver nenhum sangue. No entanto, é essa dor, essa separação, essa situação de não ter em que se afirmar, de não ter uma casa para onde voltar, é exatamente isso que é necessário para recomeçar, para voltar à vida feita à mão, aquela elaborada por nós com cuidado e atenção a cada dia.
É, a dor chega quando a pessoa se vê separada dos sapatinhos vermelhos. Essa separação é, porém, a nossa única esperança. Ela vem repleta de bênçãos incondicionais. Os pés vão crescer de novo; vamos descobrir nosso próprio caminho; vamos nos recuperar; um dia vamos voltar a correr, saltar e pular. Quando isso acontecer, a nossa vida feita à mão estará pronta. Nós a assumiremos e nos encheremos de espanto por termos tido a sorte de ter mais uma oportunidade.
O retorno à vida feita à mão, a cura dos instintos feridos
Quer os danos tenham sido sofridos pela sua arte, pelas suas palavras, estilos de vida e pensamentos, quer pelas suas idéias, e se você tiver tricotado um pulôver de muitas mangas para si mesma, acabe com esse emaranhado e siga adiante. Para além dos anseios e desejos, para além dos métodos cuidadosamente ponderados que adoramos discutir e urdir, há uma simples porta à espera de que a cruzemos. Do outro lado, há pés novos. Vá até lá. Rasteje até lá se for necessário. Pare de falar e de se atormentar. Simplesmente aja.
Não temos controle sobre quem nos põe neste mundo. Não podemos influenciar a fluência com a qual nos criam; não podemos forçar a cultura a se tomar hospitaleira instantaneamente. No entanto, as boas notícias consistem em podermos reviver nossas vidas, mesmo depois de feridas, mesmo num estado feroz, mesmo que estejamos no cativeiro.
O projeto psicológico para voltar ao nosso self de direito é o seguinte: tenha extrema prudência e cuidado no sentido de se soltar aos poucos na selva, instalando uma estrutura ética ou de proteção com a qual você tenha acesso a meios para medir se há um excesso de alguma coisa. (Geralmente você já é bastante sensível para detectar quando há falta de alguma coisa.)
Portanto, a volta à psique livre e selvagem deve ser empreendida com ousadia, mas também com ponderação. Em psicanálise, gostamos de dizer que, para que alguém possa realmente ajudar/promover curas, é tão importante aprender o que não fazer quanto o que fazer. A volta ao estado selvagem depois do cativeiro exige as mesmas precauções. Examinemos esse movimento mais de perto.
A recuperação do instinto perdido e a cura do instinto ferido estão realmente ao nosso alcance, pois tudo volta quando a mulher presta mais atenção, ouvindo, olhando e pressentindo o mundo ao seu redor e, depois, agindo como vê os outros agindo, com competência, eficácia e dedicação. A oportunidade de observar outros que tenham instintos intactos é vital para esse resgate. Com o tempo, a observação, a atenção e o comportamento integrado transformam-se num modelo de ritmo próprio, um ritmo que se pratica até que ele seja reaprendido e volte a se tornar automático.
Se a nossa natureza selvagem foi ferida por alguma coisa, nós nos recusamos a nos deitar para morrer. Nós nos recusamos a trivializar esse ferimento. Invocamos os nossos instintos e fazemos o que tem de ser feito. A Mulher Selvagem é, por natureza, veemente e talentosa. No entanto, por ter sido separada dos seus instintos, ela é também ingênua, acostumada à violência, adaptável a ficar isolada tanto do pai quanto da mãe. Os amantes, as drogas, a bebida, o dinheiro, a fama e o poder não têm como abrandar os danos sofridos. No entanto, uma volta gradativa à vida instintiva tem condição de fazer isso. Para tal, a mulher precisa de uma mãe, uma mãe selvagem "boa o suficiente". E adivinhem quem está esperando para ser essa mãe? A Mulher Selvagem gostaria de saber o que está fazendo com que você demore tanto para chegar até ela, para realmente estar com ela, não apenas de vez em quando, mas com regularidade.
Se você estiver lutando para fazer algo a que dê valor, é importantíssimo que se cerque de pessoas que dêem apoio inequívoco ao seu trabalho. É tanto uma armadilha quanto um veneno ter supostos amigos que sofrem dos mesmos males mas não têm nenhum desejo verdadeiro de se curar. Esses tipos de amigos incentivam a pessoa a agir de modo escandaloso, fora dos seus ciclos naturais, fora de sincronia com suas necessidades profundas.
Uma mulher braba não pode se dar o luxo de ser ingênua. Por estar voltando à sua vida inata, ela deve considerar os excessos com um olhar cético e ficar alerta para os custos que eles representam para a alma, a psique e o instinto. Como os filhotes de lobo, vamos decorar as armadilhas, como são feitas e de que modo são armadas. É dessa forma que permanecemos livres.
Para corrigir tudo isso, vamos ressuscitar a Mulher Selvagem na nossa natureza inúmeras vezes, sempre que o pêndulo estiver muito inclinado numa direção ou na outra. Vamos saber quando há motivos para preocupação, pois em geral o equilíbrio amplia a nossa vida enquanto o desequilíbrio a limita.
Para manter a nossa alegria, às vezes temos de lutar por ela. Temos de nos fortalecer e ir fundo, combatendo da forma que considerarmos mais astuta. A fim de nos prepararmos para o sítio, podemos ter de abdicar de muitos confortos por algum tempo. Podemos viver sem a maioria das coisas por longos períodos, praticamente sem qualquer coisa, mas não sem a nossa alegria, não sem aqueles sapatos vermelhos feitos à mão.
O verdadeiro milagre da individuação e resgate da Mulher Selvagem está em que todas nós começamos o processo antes de estarmos prontas, antes de termos a força suficiente, o conhecimento suficiente. Começamos um diálogo com pensamentos e sentimentos que tanto nos tocam com delicadeza quanto trovejam dentro de nós. Reagimos antes de saber falar a língua, antes de saber as respostas e antes de saber exatamente com quem estamos falando.
No entanto, à semelhança da mãe loba que ensina seus filhotes a caçar e a ter cuidado, é essa a forma pela qual a Mulher Selvagem ganha corpo através de nós. Começamos a falar com a sua voz, adotando seu ponto de vista e seus valores. Ela nos ensina a enviar a mensagem da nossa volta a quem for como nós.
Conheço alguns escritores que têm este lema colado acima da sua escrivaninha. Conheço uma que o leva dobrado dentro do sapato. É um trecho de um poema de Charles Simic que serve de orientação definitiva para todas nós. "Quem não sabe uivar não encontrará sua matilha."
Se você quiser reconvocar a Mulher Selvagem, recuse-se a ficar no cativeiro. Com os instintos aguçados para ter equilíbrio, salte para onde bem entender, uive à vontade, apanhe o que estiver à mão, descubra tudo o que puder, deixe que seus olhos revelem seus sentimentos, examine tudo, veja o que puder ver. Dance usando sapatos vermelhos, mas certifique-se de que eles sejam os que você mesma fez à mão. Você será uma mulher cheia de vida.

"Limitar a beleza e o valor do corpo a qualquer coisa inferior a essa magnificência é forçar o corpo a viver sem seu espírito de direito, sem sua forma legítima, seu direito ao regozijo. Ser considerada feia ou inaceitável porque a nossa beleza está fora da moda atual fere profundamente a alegria natural que pertence à natureza selvagem."






